Gerando resumoO custo médio da dívida da União no acumulado de 12 meses alcançou, em junho, o maior patamar desde setembro de 2016, quando o Brasil enfrentava uma dura recessão econômica e tentava deixar para trás a crise política que culminou no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. PUBLICIDADESegundo dados do Tesouro Nacional, o custo médio da Dívida Pública Federal (DPF) chegou a 12,68% ao ano. Foi o quarto mês seguido de alta. Em maio, o custo calculado pelo Tesouro era de 12,31% ao ano.O aumento do custo médio da dívida dificulta ainda mais o controle das contas públicas, um dos principais problemas da economia brasileira. O Brasil tem um endividamento elevado para economias consideradas emergentes, o que amplia a percepção de risco dos investidores com o País.PublicidadeO efeito desse aumento na economia é perverso. Quando o custo da dívida pública aumenta, o governo precisa gastar mais dinheiro para pagar juros aos investidores que compram títulos públicos. Ou seja, diminui o espaço para outras despesas, como saúde, educação, infraestrutura e segurança. Isso causa um ciclo vicioso. Para continuar gastando, o governo se endivida mais, os juros permanecem altos e o custo dos empréstimos para empresas e população sobe. Resultado é um crescimento menor. A DPF é composta por títulos emitidos pelo Tesouro Nacional para financiar as necessidades de caixa e refinanciar a dívida do governo. Ela reúne tanto a dívida interna - como, por exemplo, os títulos do Tesouro Direto - como a externa. A dívida total do governo é um conceito mais amplo e engloba operações do Banco Central, das empresas estatais e dos Estados e municípios. PublicidadeUm reflexo da taxa elevada de jurosDe acordo com o Tesouro, além do custo, o estoque da Dívida Pública Federal aumentou 2,61% em junho, na comparação com maio, de R$ 9,033 trilhões para R$ 9,268 trilhões. A DPF inclui a dívida interna e externa.A escalada do custo da dívida da União reflete, sobretudo, o nível elevado da Selic. Atualmente em 14,25%, a taxa básica de juros está acima de 14% desde março do ano passado.Segundo o analista da consultoria Tendências, João Pedro Leme, quase metade da dívida pública está atrelada à taxa Selic. “Isso faz com que a dívida se torne progressivamente mais cara, o que atrapalha o Tesouro Nacional nesses movimentos estabilizadores da trajetória da dívida.”PublicidadeO Tesouro já precisou, por exemplo, cancelar ofertas de NTN-B — aqueles títulos atrelados à inflação e de mais longo prazo — como uma estratégia do órgão para não referendar taxas excessivamente elevadas cobradas pelos investidores. As taxas exigidas pelos investidores têm aumentado, dada a incerteza com o futuro da economia local e o contexto internacional mais difícil.Com a piora da inflação global provocada pelo aumento do preço do petróleo, importantes bancos centrais aumentaram os juros ou indicaram que podem começar um aperto monetário. Quando os juros sobem em economias consideradas mais seguras do que a brasileira, o investidor fica mais seletivo para alocar seus recursos. “O custo médio elevado reflete os juros básicos, mas também o prêmio pelo risco que o mercado está embutindo na curva. Isso significa que a dívida está mais cara por uma certa precificação da persistência dos problemas fiscais estruturais”, diz Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos.PublicidadePUBLICIDADE“O aumento de títulos pós-fixados, as LFT (Letras Financeiras do Tesouro, atreladas à Selic), foi feito pelo Tesouro para evitar sancionar custo mais alto em títulos de prazo maior pré-fixados ou indexados à inflação (NTN-B). Mas as LFT também pioram a qualidade da dívida, uma vez que ampliam o porcentual atrelado à própria Selic”, acrescenta Salto.Em coletiva de imprensa, o coordenador-geral de Operações da Dívida Pública, Helano Borges Dias, afirmou que o Plano Anual de Financiamento (PAF) deve ser alterado para aumentar o limite da parcela de papéis atrelados à Selic na dívida, que está perto do teto de 50%. De maio para junho, a fatia de LFT na dívida subiu de 48,99% para 49,32%, sendo que o intervalo estabelecido no PAF vai de 46% a 50% para os títulos flutuantes.Custo médio da Dívida Pública Federal (DPF) chegou a 12,68% Foto: Fotógrafo original Fabio Motta/Estadão“A LFT acaba exercendo esse papel protetivo do financiamento público; em momentos de incerteza, os agentes tendem a demandá-la justamente porque é um papel que tira a volatilidade”, disse.PublicidadeEle afirmou que, em julho, houve elevação do volume de emissão, ancorado nos títulos flutuantes. Segundo Borges, a guerra do Irã é um vetor novo que não estava precificado nos limites do PAF.“A guerra, principalmente, é um fato novo, um vetor novo, que não estava totalmente especificado, muito menos a extensão dela ao longo dos meses. Então, potencialmente, a gente deve revisar o PAF agora em setembro. A gente faz, geralmente, as revisões do PAF, que ocorrem em abril, ordinariamente em abril. Em agosto, a gente faz os estudos necessários para a necessidade de uma nova revisão”, completou.Colchão de liquidez teve aumentoJá o colchão de liquidez da dívida pública aumentou 11,17% em junho, na comparação com maio, de R$ 1,211 trilhão para R$ 1,347 trilhão. Na comparação com junho de 2025 (R$ 1,030 trilhão), o colchão cresceu 30,60% em termos nominais.A reserva serve para honrar compromissos com investidores que compram os títulos brasileiros e é vista como termômetro para saber se o País tem recursos para pagar seus compromissos, ou se precisaria recorrer rapidamente ao mercado para reforçar o caixa.O montante disponível em junho era suficiente para cobrir 8,33 meses de pagamentos de títulos, ante 9,14 meses em maio. O Tesouro trabalha com um mínimo prudencial de três meses de vencimentos.“Quando há indicativos mais confiáveis de que as contas públicas serão sanadas, os investidores se satisfazem com prêmios menores, e você passa a disputar com outros mercados mais estáveis também. Isso com certeza facilitaria a dinâmica de dívida”, diz Leme, da Tendências. Publicidade“Não é esse o cenário que a gente tem no momento. Temos um cenário em que a dívida está muito cara. É também uma dívida curta e que tem de ser paga em pouquíssimo tempo”, acrescenta. / Colaboraram Flávia Said e Mateus Maia
Dívida pública fica mais cara e custo alcança o maior patamar em quase dez anos
Custo médio da dívida pública federal chegou a 12,68% ao ano em junho, impulsionado pela Selic ainda elevada, complicando a gestão das contas públicas em meio a um cenário econômico desafiador












