Exagero era a ordem. O cliente, um rico empreendedor do setor de tecnologia médica, estava a caminho de Las Vegas para fechar um negócio de US$ 150 milhões. Era preciso comemorar. — Ele queria algo maluco — disse Olivia Ferney. Aos 25 anos, Ferney é especialista em viagens de luxo, com talento para realizar os desejos mais improváveis de seus clientes ultrarricos. É um trabalho que dificilmente ela poderia ter imaginado para si mesma enquanto crescia em Dundas, Ontário. Filha de professores canadenses, Ferney não sabia nada sobre o mundo dos jatos particulares e das cabanas que custam US$ 25 mil por dia até descobrir, cerca de três anos atrás, sua inusitada profissão. — Eu estava basicamente lá no meu pequeno chalé de madeira —disse ela. Filha de professores, Olivia Ferney cresceu em Ontário — hoje, ela é especialista em jatos particulares, bangalôs de luxo e festas regadas a champanhe — Foto: Lanna Apisukh/The New York Times A revista Time a incluiu em sua lista dos 100 maiores influenciadores digitais de 2026. E a Fifth Season, produtora responsável por “Ruptura” e “Killing Eve”, fechou um acordo com Ferney e seu sócio e noivo, Troy Arnold, para produzir uma série roteirizada baseada na agência dos dois, a Top Tier Travel. Em uma tarde recente, Ferney estava em uma sala refrigerada do Encore Beach Club, em Las Vegas, contando 200 garrafas de Dom Pérignon vintage. Do lado de fora, a temperatura chegava a 46°C, e as três piscinas próximas do clube estavam lotadas de turistas usando sungas estampadas e tangas neon. Muitos tomavam mojitos de US$ 70 em copos gigantes. "É um bando de gente ficando completamente bêbada em uma piscina infestada de xixi”, foi como Ferney descreveu a multidão. As garrafas de champanhe faziam parte de uma extravagância que ela havia planejado para o empreendedor de tecnologia médica, que queria comemorar em grande estilo o fechamento de seu negócio. — Ele é um grande apreciador de Dom — disse Ferney. No início da fase de planejamento da festa, ela fez uma pergunta ao porta-voz e responsável pelo cliente: gastar seis dígitos apenas com o champanhe seria demais? “Para ele, seria apenas mais uma terça-feira”, respondeu o responsável. Ferney então retrucou: “Vamos tentar estabelecer um recorde mundial.” E começou a trabalhar na organização de uma festa que pudesse entrar para o Guinness World Records. — É uma obsessão minha achar que posso fazer qualquer coisa — ressaltou. Para certificar o recorde — na obscura categoria de “maior apresentação de champanhe” — Ferney recrutou um representante do Guinness World Records, que compareceria ao evento e acompanharia tudo de perto. — Ninguém vai realmente beber o champanhe — disse Ferney, observando que seu plano previa dezenas de garçons borrifando a bebida sobre os convidados. Hoje, mais de dois milhões de seguidores nas redes sociais acompanham os vídeos que Olivia publica mostrando suas interações com clientes difíceis de agradar. — Foto: Lanna Apisukh/The New York Times Depois de conseguir acesso especial à área reservada aos DJs no Encore Beach Club, parte do complexo Wynn Las Vegas, ela entrou em contato com Diplo, o DJ celebridade residente. Também acertou com Adam Norotsky, vice-presidente de vida noturna da Wynn Resorts, a contratação de praticamente todos os garçons da casa. No dia do evento, Michael Empric, representante do Guinness, voou de Nova York. Para ele, a parada em Las Vegas era apenas uma etapa de um circuito que, no dia seguinte, o levaria a um supermercado Hy-Vee, em Iowa. “Vou verificar o recorde de maior número de abacaxis vendidos em uma hora”, disse Empric. “Não pergunte.” Ao cair da noite, o calor escaldante da cidade no deserto continuava na zona vermelha. Os portões foram abertos para um público de 2.800 festeiros, que haviam pago entre US$ 1.500 e US$ 25 mil por uma mesa no clube ao ar livre. Poucos, se é que algum, haviam conhecido ou sequer ouvido falar do empreendedor que estava por trás do evento. Mas isso pouco importava. O que aqueles desconhecidos vestidos com roupas sofisticadas proporcionavam era um cenário apropriadamente estrondoso para os inevitáveis vídeos da festa que seriam publicados nas redes sociais. Perto da meia-noite, com a temperatura em 37°C, os convidados formaram perto do palco uma roda de mosh pit — dança frenética que virou símbolo de shows de punk, hardcore e metal —, agitando os punhos ao som do set carregado de graves de Diplo. Exatamente à 1h30 da manhã, veio o grande momento: 69 garçons, vestidos com pequenos pedaços de malha vermelha, desfilaram diante da multidão, alguns deles sobre carros alegóricos em formato de lanchas, caminhões de bombeiros e um enorme tubarão. Eles ergueram garrafas de Dom Pérignon acima da cabeça. Ao sinal de Diplo, as rolhas estouraram. Alguns garçons começaram a encharcar uma dançarina instalada dentro de uma taça de Martini cenográfica, enquanto outros borrifavam champanhe sobre a multidão, realizando assim uma façanha digna do Guinness que, em termos de excesso sem propósito, equivalia a escalar o Monte Everest. Sem dúvida, o elemento mais inusitado daquela cena improvável era o próprio cliente. Lá estava ele, afastado da agitação, escondido na parte traseira do palco, atrás de Diplo, discreto em uma calça jeans preta e uma camiseta preta. Recusando-se a fornecer seu nome para publicação, ele havia explicado anteriormente, por meio de um porta-voz, que sua missão para Ferney era proporcionar algo “épico”. “Ele já esteve lá, já fez de tudo, já viu de tudo”, disse Bryan Lee, seu porta-voz. Ou seja, estava entediado. Mas existe o tédio — e existe um homem com dinheiro suficiente para esvaziar a carteira em troca da emoção momentânea de encharcar centenas de desconhecidos com vinho caro. O custo final apenas das bebidas — 125 garrafas de Perrier Jouet Grand Brut, 50 garrafas de Dom Pérignon Brut Luminus e cinco garrafas de tequila Dos Hombres Blanco — chegou a pouco mais de US$ 226 mil. “Sinceramente, ele teria gastado mais”, disse Ferney depois. “Mas ele perdeu muito dinheiro no cassino na noite anterior.” ''Executar, não julgar'' Um dos lemas de trabalho de Ferney é: “Nosso trabalho é executar, não julgar”. Olivia Ferney: “Nosso trabalho é executar, não julgar" — Foto: Lanna Apisukh/The New York Times Considerando que ela e seu sócio são constantemente encarregados de realizar os caprichos de pessoas que não pensam duas vezes antes de desembolsar US$ 2,25 milhões por uma semana de aluguel de um iate na Côte d’Azur — como aconteceu recentemente —, isso faz algum sentido, ainda que um tanto distorcido. Cada cliente da Top Tier Travel precisa pagar uma taxa anual de US$ 100 mil e concordar em reservar US$ 1 milhão em viagens por ano. John Block, diretor de operações da Park West Gallery, que vende obras de arte de alto valor em navios de cruzeiro, disse que as taxas valem a pena. Não muito tempo atrás, contou ele, a Top Tier fretou às pressas um jato particular para buscar sua irmã doente e levá-la para uma viagem em família. — Você não pode simplesmente pedir um jato como quem pede um Uber — disse Block. Os vídeos de Ferney sobre sua rotina de trabalho fizeram de suas contas nas redes sociais (@travelswithlivii no TikTok e no Instagram) um conteúdo viciante. Suas interações com os poucos e endinheirados clientes se tornaram uma espécie de isca digital, uma fuga da realidade dos preços elevados da gasolina, das guerras e do avanço da inteligência artificial. E, embora ela não julgue as pessoas que pagam seu salário, seus espectadores estão livres para assistir a tudo com uma mistura de fascínio e reprovação. Ela administra os pedidos dos clientes com paciência, bom humor e uma dose de ironia. Nenhuma tarefa é grande ou pequena demais. Ela já voou a Paris para buscar o maior croissant da cidade, a pedido da filha de um bilionário de Miami. Para outro cliente, comprou todo o estoque de um dia de tortinhas de manteiga de uma padaria de Ontário, famosas na região, para uma refeição de fim de ano. Com o apoio de uma equipe de 10 pessoas, Ferney e Arnold conseguem regularmente benefícios VIP, incluindo reservas em lugares badalados como a churrascaria Eighty Six, em Nova York, acesso privilegiado a corridas de Fórmula 1 e voos particulares em jatos Bombardier para clientes tão exigentes que torcem o nariz até para aviões Gulfstream. Antes de começar a trabalhar na Top Tier, Ferney nunca havia se deparado com alguém como o cliente cujo filho teve um ataque de raiva quando uma falha no equipamento obrigou a família a viajar de avião comercial pela primeira vez. — Eu sou canadense —disse ela. Ferney acabou entrando nesse mundo de luxo depois de conhecer Arnold em uma boate de Miami. Ela aceitou trabalhar na agência dele, em parte, para cumprir uma exigência relacionada ao visto. Hoje, já se adaptou a uma vida de viagens de luxo ininterruptas. O casal não tem mais endereço fixo e vive principalmente na estrada, hospedado em quartos luxuosos de hotéis. Antes da chegada de Ferney, Arnold disse que a Top Tier dependia de indicações e discrição. — Trabalhávamos com bilionários e conseguíamos nossos negócios no silêncio — afirmou. Tudo mudou depois que Ferney sugeriu investir nas redes sociais. — Fizemos vídeos informativos que não deram certo e então decidimos triplicar a aposta em ligações com clientes e reconstituições. As pessoas adoraram. Basicamente, normalizamos o que é insano — disse Arnold. Durante o café da manhã no restaurante Tableau, em Las Vegas, Ferney reconheceu que muitos dos clichês sobre pessoas ricas são verdadeiros — mas havia pelo menos um equívoco: — As pessoas acham que os super-ricos são infelizes. Não são.
Olivia Ferney, a mulher que faz o impossível acontecer para seus clientes ultrarricos
Aos 25 anos, a filha de professores em Ontário é, agora, especialista em jatos particulares, cabanas de luxo e festas regadas a champanhe






