Sucesso de um título permite que editoras apostem em obras que, apesar da relevância cultural, provavelmente não venderão tanto 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Tamara Klink, navegadora e autora — Foto: Reprodução/Instagram Navegadora recém-convertida em best-seller, Tamara Klink se tornou alvo de críticas depois de recomendar, num vídeo compartilhado das redes sociais na semana passada, que o público parasse de comprar seu livro, “Bom dia, inverno” (Companhia das Letras). Lançado em maio, o livro que narra sua experiência no inverno polar do Ártico, não sai da lista de mais vendidos. Tamara disse que há havia exemplares suficientes circulando, os quais podem ser compartilhados, emprestados e doados para atender os leitores. Também apelou para a sustentabilidade: “Tem um monte de papel, um monte de energia que foi gasta da natureza para esse livro existir”, disse. O problema foi que ela se esqueceu da sustentabilidade do mercado do livro. As críticas vieram rápido — e foram duras. “Essa fala mostra um completo desconhecimento do mercado editorial e desinteresse por seus trabalhadores”, disse a influenciadora Bárbara Krauss (@bdebarbarie) num vídeo que repercutiu bastante entre editores. “Quando ela fala ‘parem de comprar o um livro’, ela não está afetando só a si própria”, afirmou. No domingo (9), Tamara recuou. “Errei em não ver outros pontos de vista. Precisamos da leitura. Precisamos de autores. Pequenos, grandes e independentes. Sou leitora antes de ser autora e não levei em conta toda a cadeia que alimenta as editoras”, escreveu a navegadora nas redes sociais. Mas qual foi exatamente o erro de Tamara? Reservadamente, uma editora de livros explicou ao GLOBO que a navegadora ignorou a importância dos best-sellers para movimentar toda a cadeia do livro. Um best-seller não beneficia só seu autor e o dono da editora que o publicou, mas todo um ecossistema. E não é só por que um livro que se paga garante a remuneração adequada de profissionais como editores, diagramadores e revisores. — As editoras vivem numa gangorra, divididas entre a necessidade comercial e a importância cultural dos livros. Lançamos muitos livros que não vão vender muito, mas são culturalmente relevantes e nos ajudam a construir um catálogo diverso, que contempla um público amplo de leitores — disse a editora. — Os best-sellers são importantes para que todos na cadeia do livro sejam bem remunerados, para que tenhamos uma verdadeira bibliodiversidade e para não precisarmos focar somente em livros que vão vender. São os best-sellers que sustentam financeiramente as editoras a longo prazo. De fato, é comum, no meio editorial, apostar em livros chamados de “Robin Hood”, isto é, títulos com apelo comercial cujo sucesso custeia a publicação de obras literárias e de nicho — a expressão é atribuída a Alfredo Machado (1922-1991), fundador do Grupo Editorial Record. Em seu vídeo, Tamara também incentivou priorizar o empréstimo do livro em bibliotecas públicas em vez da compra. No entanto, o Brasil não conta com um sistema de bibliotecas tão robusto, que seja capaz de comprar livros em quantidade suficiente para dar às editoras o retorno necessário para continuar apostando em títulos que provavelmente não serão best-sellers. Embora sejam de extrema importância para o mercado editorial, os programas de compra de livros dos governos (especialmente do federal) sofrem com atrasos constantes. Por isso, um mercado consumidor forte acaba sendo a principal garantia das editoras. Nas redes sociais, a escritora Micheliny Verunschk disse que fala de Tamara foi “infeliz e equivocada”, “típica de quem não conhece o mercado”, mas acrescentou que o erro da autora “não justifica os ataques que ela está recebendo da boa gente que vive em torno dos livros”. A autora do premiado “O som do rugido da onça” (Companhia das Letras) afirmou que “defender o livro passa também por cobrar do Governo Federal o retorno dos programas de aquisição dos livros de literatura para escolas e bibliotecas públicas” e “por entender que o MEC Livros, que é tão festejado, joga praticamente no lixo os direitos autorais de quem escreve”. A remuneração das editoras que disponibilizam obras na biblioteca virtual do Ministério da Educação tem sido objeto de discussão. Em abril, um editor disse ao GLOBO que o setor se ressente do pouco tempo que teve para “discutir um modelo justo de remuneração para o empréstimo digital”. A editora ouvida pela reportagem também alertou que não se deve desprezar a importância de ter livros em casa para a formação de novos leitores. Crianças tomam gosto por livros quando crescem no meio deles. — Para uma criança se tornar leitora, ela precisa ter livros em casa, conhecer o objetivo livro, estar imersa nesse universo — afirmou a editora. — Ter em casa uma estante com livros que você possa pegar é também um privilégio. Aliás, quem sabia muito bem disso era Carolina Maria de Jesus. Quando o sucesso literário lhe permitiu trocar seu “quarto de despejo” por uma “casa de alvenaria”, a best-seller anotou, orgulhosa, em seu diário: “O livro é o adorno da minha alma”.
Tamara Klink ignorou importância dos best-sellers para sustentabilidade do mercado ao pedir para não comprarem seu livro, diz editora
Sucesso de um título permite que editoras apostem em obras que, apesar da relevância cultural, provavelmente não venderão tanto






