Resgatamos a história do carro que "reinou" nas ruas e estradas do país até agosto de 1986, quando Volkswagen anunciou fim da produção 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Milionésimo Fusca produzido em São Bernardo, em 1970 — Foto: Arquivo/Agência O GLOBO Eram 15h50 do dia 9 de julho de 1970 quando a fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo, que na época empregava cerca de 23 mil funcionários, "tirou do forno" o milionésimo Fusca produzido no Brasil. Para celebrar a marca, o automóvel foi devidamente enfeitado com flores e dado de presente ao jovem Uenis Tannuri, de 23 anos, então o melhor aluno da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). O estudante foi à montadora no ABC Paulista para participar de um evento com executivos da empresa e receber o automóvel. Mais de meio século depois, Tanuri é uma referência no campo da cirurgia pediátrica no país e, acredite, ainda guarda o automóvel na garagem. Foram cerca de três milhões de unidades do Volkswagen Sedan feitos no Brasil até que, em agosto de 1986, há 40 anos, a montadora anunciou o fim da produção. Em 1993, a fabricação foi retomada, mas os baixos resultados de vendas levaram ao encerramento definitivo, em 1996, há 30 anos. Assim como Tanuri, estima-se que mais de 1,5 milhão de brasileiros ainda tenham um Fusca em suas garagens, o que confirma o status de símbolo nacional do carro idealizado na Alemanha Nazista, nos anos 1930. Na época, Adolf Htiler havia encomendado um veículo compacto, econômico e com preço acessível para a maioria da população no país europeu, que estava afundado em crises econômicas. No Brasil, a produção começou em 1959. O Fusca foi um sucesso imediato no país graças a mecânica simples, robustez para enfrentar estradas péssimas, baixo consumo de gasolina e custo benefício. Nos anos 1970, a cada dois novos automóveis comprados no país, um era Fusca. Fusca do coronel Cesar Montagna usado no golpe militar de 1964 — Foto: Arquivo/Agência O GLOBO Durante mais de 20 anos, o nome oficial do carrinho era Volkswagen Sedan. Foi apenas em 1982 que o fabricante se rendeu ao apelido surgido nos anos 1960, imortalizado em canções como "País Tropical", de Jorge Ben, e "Fuscão preto", de Atílio Versutti e Jeca Mineiro. Em seu auge, o carro era comprado por distintas classes sociais e extrapolava a polarização política. Fez figuração constante na história recente do Brasil. No dia 1º de abril de 1964, durante o golpe militar, o coronel César Montagna saltou de um Fusca diante do QG da Artilharia de Costa, em Copacabana, no Rio, arrancou a submetralhadora Thompson das mãos de um cabo depois de dar-lhe um sopapo e tomou o quartel. Cinco anos mais tarde, o modelo seria usado por guerrilheiros da luta armada durante o sequestro do embaixador americano Charles Elbrick. Meses depois, o militante Carlos Marighella seria morto a tiros dentro de um Fusca, numa emboscada policial em São Paulo, em 1969 O modelo reinou também na garagem de artistas como o próprio Jorge Ben e o maestro Antônio Carlos Jobim, que, em 1965, ao voltar de uma temporada de concertos em Nova York, nos Estados Unidos, posou para fotos com seu carrinho na casa onde morava, em Ipanema, no Rio. Em 1970, depois da conquista do Tri na Copa do México, o então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, apoiador do regime militar, usou dinheiro público para comprar 25 Fuscas 0km/h, na cor verde musgo, para os jogadores e a comissão técnica da seleção brasileira. A iniciativa gerou um escândalo político e, anos mais tarde, Maluf seria condenado a devolver a quantia gasta ao erário. Linha de montagem do Fusca na fábrica da Volkswagen, em 1969 — Foto: Arquivo/Agência O GLOBO A proximidade entre a ditadura militar e a Volkswagen ajudou a fazer do Fusca um símbolo do "milagre econômico". O veículo virou o carro padrão nas frotas da Polícia Militar em vários estados do país e foi bastante adquirido também por órgãos da repressão para ser usado por agentes à paisana. No Rio, as viaturas policiais nesse modelo eram chamadas de "joaninhas" e, em São Paulo, de "baratinhas". Eram só mais dois apelidos de um carro que ganhou nomes afetuosos em muitos outros países no mundo, como Carocha, em Portugal, Cucaracha (barata), na Guatemala, Escarabajo (besouro), na Venezuela, Volky, em Porto Rico, Boble (bolha), na Noruega, e Beetle (besouro), nos Estados Unidos. A Volkswagen criou até um protótipo anfíbio do carro, que o jornalista Mauro Salles, do GLOBO, levou pra navegar na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio, mas esse modelo não chegou a ser vendido. Mais de 40 anos depois de a Volks anunciar, pela primeira vez, o fim da produção, não é raro ver o veículo guiado por famosos. Em 2018, a cantora Lexa chegou a bordo de um Fusca para participar de um ensaio na quadra da escola de samba Mocidade Independente, na Zona Oeste do Rio. O cantor Diogo Nogueira também já foi visto circulando por aí com um exemplar dos anos 1970, devidamente restaurado. Seu Jorge mantém um Fusca branco herdado do tio que tem a mesma idade dele. E o ator Leandro Lima, ano passado, chegou a ser hospitalizado quando tentava puxar gasolina de uma moto para encher o tanque de seu Fusca e acabou ingerindo combustível, na sua casa em João Pessoa. Em 1986, a Volks decidiu parar a produção do Fusca, avaliando que o carro estava ultrapassado e, portanto, era preciso abrir espaço na fábrica para carros mais novos, como o Santana, substituto do antigo compacto no coração dos taxistas. Em 1993, depois dos apelos públicos do então presidente da República, Itamar Franco, que queria promover investimento em veículos populares, a montadora retomou a fabricação, mas as vendas não atingiram as metas estipuladas pela empresa, que, em 1996, após apenas 47 mil unidades fabricadas em três anos, encerrou de vez as "fornadas" do carrinho. Em 1997, o Fusca voltou modernizado, chamado de New Beetle. Não tinha o mesmo charme. Antônio Carlos Jobim com seu Fusca em 1965 — Foto: Arquivo/Agência O GLOBO Carlos Marighella morto no seu Fusca após emboscada em 1969 — Foto: Reprodução Um Fusca anfíbio na Lagoa Rodrigo de Freitas — Foto: Arquivo Adolf Hitler com miniatura do Wolkswagen nos anos 1930 — Foto: Reprodução