Da Vinci Clinic e Limbx estão entre as empresas nacionais que buscam inovações para baratar preço das próteses e ampliar atendimento 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Pedro Pimenta, CEO da Da Vinci: atenção especial aos soquetes, responsáveis por conectar as próteses ao corpo — Foto: Rogerio Vieira/Valor Aos 18 anos de idade, Pedro Pimenta teve uma meningite bacteriana que quase o matou. A situação ficou tão grave que, em uma ocasião, ele permaneceu cinco meses e meio internado, sendo 13 dias em coma. Pimenta deixou o hospital com vida, mas só depois de uma cirurgia de amputação dos braços na articulação do cotovelo e das pernas na altura da coxa. “Tive um choque séptico e, para refazer os membros superiores, os médicos tiveram de usar pele da barriga, que é bem mais fina”, conta. Incidentes dessas proporções mudam a vida de qualquer um, mas no caso de Pimenta o episódio também significou uma nova jornada. Ele fundou uma clínica para pacientes amputados que fabrica próteses - a Da Vinci Clinic, da qual é CEO. “Fui o paciente zero.” Próteses biônicas já foram coisa de ficção científica, como na série “O Homem de Seis Milhões de Dólares”, famosa nos anos 70. Os dispositivos interpretam sinais elétricos produzidos por contrações musculares para devolver movimentos ao usuário. Hoje, empreendedores brasileiros avançam no desenvolvimento da tecnologia, com resultados significativos. Fundador e CEO da Limbx, o engenheiro Natã Vargas viu a oportunidade de reduzir significativamente o preço das próteses, que são pouco acessíveis, ao usar impressoras 3D para fabricá-las. A ideia surgiu em 2020, quando Vargas começou a pensar em como conferir um propósito social a seu negócio na época - uma empresa de impressão 3D para a indústria. Pesquisando na internet, ele percebeu que muitas pessoas amputadas usavam próteses com efeito unicamente estético porque não tinham condições de adquirir um modelo funcional. “Com três meses de startup, produzimos um protótipo que perto do que temos hoje era muito rudimentar”, conta o empreendedor. A convicção de que estava no caminho certo veio após os primeiros testes com uma jovem amputada. “Ao voltar a se movimentar, ela não aguentou e começou a chorar.” A Limbx começou a funcionar em maio de 2023. Sete meses depois, Vargas recebeu um convite para participar do Prêmio Global de Empreendedorismo Estudantil (GSEA, na sigla em inglês), destinado a universitários que já comandam um negócio. Terminou em terceiro lugar no ranking global. No fim de 2024, o médico ortopedista José Carlos Salomão Junior tornou-se sócio da empresa, que no ano passado recebeu um aporte de R$ 500 mil da Unimed VTRP e da Domo.VC. Ao voltar a se movimentar [com a prótese], ela não aguentou e começou a chorar” A Limbx prevê lançar os primeiros produtos comerciais em 2027, com venda direta para clínicas de reabilitação. No momento, eles estão em teste. Uma segunda rodada de investimento está em estudo, com o objetivo de financiar essa etapa. As próteses utilizam sensores mioelétricos e Nylon PA12, um material resistente e econômico. A expectativa é que as próteses custem R$ 25 mil, uma pequena fração do valor dos produtos importados, que chegam a R$ 500 mil. No caso de Pimenta, as mudanças ocorreram rapidamente. Ele deixou o hospital com 19 anos e aos 20 se mudou para os Estados Unidos, depois de receber um convite da americana Hanger Inc, que fabrica próteses e opera uma rede de clínicas de recuperação. “Fui para lá sem saber colocar minhas próteses sozinho; dei um salto de fé”, diz. Aprovado para o curso de Economia da Universidade do Sul da Flórida, Pimenta não podia trabalhar oficialmente na Hanger. Por isso, acompanhava um executivo da empresa - Kevin Carroll, vice-presidente de próteses, que se tornaria seu mentor pessoal - em eventos sobre o assunto, nos quais dava seu testemunho. Em troca, ficava com as próteses de soldados amputados tratados em unidades da Hanger e que eventualmente não sobreviviam. Depois de graduado, Pimenta atuou formalmente em várias áreas da empresa. Voltou ao Brasil em 2020, após nove anos nos EUA. Era o início da pandemia. “Senti uma sensação muito forte de que era hora de empreender”, diz. Ele ligou para o médico Jairo Blumenthal, referência na área de próteses, e em 2021 a dupla abriu a primeira unidade Da Vinci, em Barueri, na Grande São Paulo. A segunda abriu as portas em Belo Horizonte, no ano passado. Dedicada a casos complexos, a empresa ganhou projeção internacional, com clientes de países da América Latina, Europa e África. Uma das especialidades da Da Vinci é a produção artesanal e sob medida dos soquetes, que conectam as próteses ao corpo do paciente. “É uma parte crítica porque pode irritar a pele e exige treinamento. É uma tolerância que vai sendo construída”, diz Pimenta. Ainda neste ano, ele planeja abrir um instituto para unir empresas e pessoas que precisam de próteses, entre outras tarefas. “Não existe uma associação que fale em nome dos amputados.” A Da Vinci e a Limbx estão entre as empresas que vão participar de painéis da SP2B. O evento começou na noite de domingo (9) e vai até o dia 16, no Ibirapuera.