O risco continua sendo determinado pelos fatores de sempre: hipertensão, diabetes, colesterol elevado, tabagismo, sedentarismo e histórico familiar. A segunda parece funcionar apenas como um gatilho 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Infarto — Foto: Freepik Existe uma hora da semana em que o coração parece mais vulnerável. Não é durante uma maratona. Nem depois de um jogo de futebol. É na manhã de segunda-feira. Enquanto muita gente encara o trânsito, abre o computador ou toma o primeiro café para voltar à rotina, os prontos-socorros recebem mais pacientes com infarto. Parece coincidência. Mas há décadas a ciência observa o mesmo padrão em diferentes países. Esse fenômeno tem até nome: variação circasseptana, um ritmo semanal na ocorrência de doenças. Estudos mostram que o risco de infarto na segunda é cerca de 11% maior do que nos demais dias da semana. O achado apareceu em grandes registros populacionais e continua sendo confirmado por pesquisas mais recentes. A pergunta, então, muda: por que justamente na segunda-feira? A explicação começa antes mesmo de a semana começar. Nosso organismo segue um relógio próprio. Dormimos, acordamos, liberamos hormônios e regulamos a pressão arterial de acordo com ritmos que se repetem diariamente. Quando esse relógio é perturbado, o coração percebe. Durante o fim de semana, muita gente dorme mais tarde, acorda mais tarde, exagera na comida, bebe mais álcool, abandona os exercícios e, às vezes, até esquece os medicamentos de uso diário. Na segunda-feira, tudo muda de uma vez. O despertador toca mais cedo, o sono costuma ser mais curto e o corpo precisa acelerar para voltar ao ritmo habitual. Ao despertar, nosso organismo aumenta naturalmente a produção de adrenalina e cortisol, hormônios que elevam a frequência cardíaca e a pressão arterial para preparar o corpo para o dia. Em pessoas saudáveis, isso faz parte da fisiologia. Mas, em quem já possui placas de gordura nas artérias, esse impulso pode aumentar a tensão sobre essas placas e favorecer sua ruptura, evento que desencadeia a maioria dos infartos. Uma pista importante veio de uma situação inesperada: a mudança para o horário de verão. Pesquisadores observaram que, após perder apenas uma hora de sono na primavera, o número de infartos aumentava nos dias seguintes, especialmente na segunda-feira. Já quando o relógio era atrasado no outono e as pessoas ganhavam uma hora extra , esse pico diminuía. Uma única hora de sono foi suficiente para mudar o número de infartos. O estresse também parece participar dessa história, mas talvez não da forma que imaginamos. Um grande estudo sueco mostrou que o risco de infarto aumenta não apenas nas segundas-feiras, mas também em datas como Natal e Ano Novo. O que esses dias têm em comum? Uma carga emocional intensa. Em alguns momentos, ela vem da pressão para voltar à rotina. Em outros, das expectativas, preocupações ou emoções das festas. O coração parece responder menos ao calendário e mais à forma como vivemos cada período. Curiosamente, o fenômeno não desaparece entre aposentados. Isso sugere que o trabalho, sozinho, não explica tudo. O relógio biológico, a qualidade do sono, as mudanças bruscas na rotina e outros fatores continuam atuando, mesmo quando a segunda já não significa voltar ao escritório. Isso não significa que devemos temer as segundas-feiras. O risco continua sendo determinado, principalmente, pelos fatores de sempre: hipertensão, diabetes, colesterol elevado, tabagismo, sedentarismo e histórico familiar. A segunda parece funcionar apenas como um gatilho em quem já apresenta fatores de risco ou doença nas artérias. O coração não adoece porque o calendário muda. Ele responde ao que fizemos ao longo dos dias anteriores. Dormir bem, manter a atividade física, evitar excessos no fim de semana e não abandonar os medicamentos prescritos ajudam a proteger o coração durante toda a semana. No fim das contas, a segunda-feira não é a vilã. É apenas o dia em que o coração pode apresentar a conta.