Publicado em julho, o relatório Farras: Como os Shows com Dinheiro Público Conectam Artistas, Bets, Política e Agronegócio, do Observatório do Agronegócio De Olho nos Ruralistas, é estarrecedor.

O documento aponta que prefeituras e governos estaduais gastaram 3,08 bilhões de reais na contratação de apenas 40 artistas para shows realizados entre 2024 e 31 de março 2026. Ao todo, envolvendo outros artistas, o montante ultrapassa os 5 bilhões de reais.

Entre os gêneros, de acordo com o relatório, lideram o sertanejo e o piseiro, que se apresentam ao público como estilos apolíticos, mas no fundo guardam relação visceral com o sistema político.

Chamam a atenção as ligações dos municípios com a chamada “farra dos cachês”. Das 2.006 cidades que tiveram shows públicos dos 40 artistas que mais receberam no período analisado, 1.069 decretaram situação de emergência (comprometimento parcial dos recursos locais) e outras 13 formalizaram estado de calamidade pública (incapacidade total) — por seca, inundação ou outros motivos. Um disparate de gestão pública.

Muitos dos pagamentos de shows também “comeram” os orçamentos no período. Em Estrela do Norte (GO), os gastos com alguns dos tais 40 artistas alcançaram 2,9% de seu orçamento de 2024. Enquanto isso, o índice de mortalidade infantil do município é o dobro da média nacional, segundo o documento.