Feito é um marco na biologia sintética que promete avanços em saúde, mas cientistas também advertem que o estudo “levanta questões urgentes de biossegurança e proteção contra uso indevido” 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Pesquisadores de Stanford desenvolveram programa de IA generativa, Evo 2, que escreve novos genomas — Foto: Pexels Pela primeira vez, cientistas nos Estados Unidos usaram a inteligência artificial para criar vírus que não existem na natureza, um marco na biologia sintética que promete avanços na área de cuidados da saúde, mas também levanta preocupações importantes sobre biossegurança e proteção contra uso indevido. Pesquisadores da Universidade de Stanford desenvolveram um programa de IA generativa chamado Evo 2, que escreve novos genomas – as instruções genéticas para a vida codificadas no DNA. E eles o usaram para desenhar e produzir 16 bacteriófagos sintéticos, pequenos vírus que infectam bactérias. Em alguns casos, bacteriófagos são utilizados no lugar de antibióticos para eliminar bactérias que estão causando uma doença. Combate à Escherichia coli Quando os testaram em seu laboratório de segurança controlada, os pesquisadores constataram que esses novos bacteriófagos eram mais eficazes no combate à bactéria comum Escherichia coli do que o fago natural ΦX174, que serviu de modelo para o trabalho do Evo 2. Os resultados foram publicados na quinta-feira (6) na revista “Science”. “Nosso estudo é uma prova de conceito que mostra pela primeira vez que o design generativo pode criar genomas funcionais completos”, afirmou Brian Hie, líder do projeto. “Optamos por trabalhar com bacteriófagos porque são vírus pequenos e bem estudados e têm aplicações amplas na biologia molecular e na terapêutica.” Ele acrescentou que no futuro essa abordagem poderá ser estendida para organismos maiores, como bactérias, e depois para formas de vida mais complexas. “Não se pode subestimar a importância desse artigo histórico de Brian Hie”, disse Adrian Woolfson, especialista em genômica e executivo-chefe da empresa de síntese de DNA Genyro. “É o momento ‘irmãos Wright’ [ou Santos Dumont] da biologia, quando paramos de olhar para trás, para as entidades que a evolução criou... e somos confrontados com a imensa vastidão das possibilidades biológicas futuras.” Leste Europeu A fagoterapia ou terapia fágica é usada no Leste Europeu há muitas décadas. Bacteriófagos específicos são selecionados para corresponder à cepa bacteriana exata do paciente e administrados por aplicação tópica, injeção ou via oral no local da infecção. Essa terapia não é de uso generalizado no Ocidente por vários motivos, entre eles os procedimentos complexos que são necessários e a possibilidade de que as bactérias alvo desenvolvam resistência. A inteligência artificial poderia ajudar a promover um ressurgimento da terapia com bacteriófagos, segundo Samuel King, outro membro da equipe de Stanford. “Com o surgimento de mais provas sobre o aparecimento de patógenos assustadores e resistentes a antibióticos, precisaremos de soluções alternativas inovadoras – e a fagoterapia é certamente uma delas.” Por segurança, o estudo inicial de Stanford baseou-se em uma cepa não patogênica de E. coli e usou um modelo de linguagem genômica que não foi treinado com vírus capazes de infectar as células mais complexas que compõem animais e plantas. Mas no futuro a tecnologia poderá abranger uma gama muito mais ampla de vírus e estender-se ao design de organismos inteiramente novos, sem necessidade de partir de um genoma natural. O Evo 2 é um programa de código aberto e está disponível para qualquer pessoa baixar gratuitamente e desenvolver novos genomas por conta própria. “Neste momento não temos planos de comercializar este trabalho”, explicou Hie. “Somos um laboratório acadêmico financiado por filantropia e subsídios governamentais. É nossa responsabilidade disponibilizar a tecnologia básica para que o maior número possível de pessoas a use, por causa dos enormes benefícios em potencial para a saúde e a humanidade.” Questões de biossegurança Hie sustenta que esses benefícios pesam mais do que o risco de que pessoas mal-intencionadas modifiquem a ferramenta de IA para fins de bioterrorismo. Mas Thomas Inglesby e Moritz Hanke, do Center for Health Security da Universidade Johns Hopkins, advertiram na mesma edição da revista “Science” que o estudo “levanta questões urgentes de biossegurança e proteção contra uso indevido”. Ao mesmo tempo em que elogiaram os cientistas de Stanford pelas precauções que adotaram em seu estudo, Inglesby e Hanke afirmaram: “As estruturas de governança atuais não bastam para supervisionar a genômica generativa... A questão não é mais se o design generativo de genomas virais vai existir. A questão é se a sociedade conseguirá construir mecanismos de supervisão que permitam que seus benefícios se concretizem, ao mesmo tempo em que evita que [a tecnologia] permita danos graves.” (Tradução Lilian Carmona)
FT: Cientistas usam IA para criar primeiro vírus sintético
Feito é um marco na biologia sintética que promete avanços em saúde, mas cientistas também advertem que o estudo “levanta questões urgentes de biossegurança e proteção contra uso indevido”










