A edição 2026 do Prêmio Grande Otelo, realizada na última terça-feira, no Theatro Municipal do Rio, na Cinelândia, ainda reverbera entre cinéfilos e profissionais do audiovisual nacional após um surpreendente empate entre “Manas”, de Marianna Brennand, e “O agente secreto”, de Kleber Mendonça Filho, na categoria principal, a de melhor filme. Também causou espanto o fato de o longa — indicado a quatro estatuetas do Oscar e vencedor do Globo de Ouro, do Critics Choice e de dois prêmios no Festival de Cannes — ter sido apenas o terceiro filme em número de estatuetas na noite do “Oscar brasileiro”, ficando atrás de “Manas” e “Homem com H”, de Esmir Filho. A situação reacendeu em debate nas redes sociais a impressão de que haveria uma espécie de resistência da Academia Brasileira de Cinema com relação a “O agente secreto”. Em setembro do ano passado, o filme de Mendonça Filho foi escolhido o representante do Brasil na corrida pelo Oscar de melhor filme internacional. À época, muitos atribuíram a escolha à pressão vinda da imprensa e das redes, em meio a rumores de que “Manas” poderia ser o filme escolhido pela comissão. Diante das polêmicas, o GLOBO conversou por e-mail com Renata Almeida Magalhães, produtora que atua desde 2022 como presidente da Academia Brasileira de Cinema. Confira a seguir. O resultado do Prêmio Grande Otelo repercutiu muito na imprensa e nas redes sociais, em especial o empate na categoria principal. O perfil da Academia precisou inclusive limitar comentários. Você pode falar um pouco sobre como viu a situação? Todo ano, e esse não foi diferente, eu falo no palco que essa premiação, que é uma celebração ao cinema brasileiro, tem como parceira desde sua primeira edição a PwC Brasil, reconhecidamente uma das mais importantes empresas de auditoria do mundo. Foi uma sugestão do primeiro presidente da Academia, Luiz Antonio Viana, que em 2002 previu que em algum momento os resultados poderiam ser questionados. É a PwC Brasil que coordena e apura todo o processo de votação. Nós, da Academia Brasileira de Cinema, não sabemos quem vencerá (exceto na categoria do Voto Popular, apurada por nós, e que se encerra na véspera da realização do prêmio). Só e unicamente a PwC sabe quem ganhará em cada uma das 31 categorias. A abertura de envelopes é feita no palco, inclusive. Lembrando que o Oscar é auditado pela PwC. Como vimos, esse ano também teve empate no Oscar, na categoria curta-metragem. Renata Almeida Magalhães, presidente da Academia Brasileira de Cinema, durante o Prêmio Grande Otelo 2026 — Foto: Christian Rodrigues / Divulgação Todos podem e devem ter suas opiniões e seus filmes preferidos, mas quem tenta colocar em dúvida um resultado apurado pela PwC, dando a entender que “implicamos” com o filme “O agente secreto”, está muito desinformado. Todas as informações são públicas, estão no site da Academia Brasileira de Cinema. Questionar o resultado da votação me soa parecido com o argumento fake news de que as urnas eletrônicas brasileiras não são confiáveis. Como é realizado o processo de votação e apuração do Prêmio? Vocês poderiam revelar o número de votos recebidos pelos filmes? A definição dos vencedores do Prêmio Grande Otelo é dividida em duas etapas: indicação e premiação. A partir de 2004 a votação passou a ser feita via internet, pelos sócios da Academia, que recebem uma senha eletrônica para votar pela internet. Na fase de indicação são escolhidas as cinco obras e profissionais representantes de cada categoria que passam para a etapa seguinte. A escolha é feita pelos sócios — por meio de uma cédula de votação eletrônica com a lista completa de todos os concorrentes. Terminado o processo de apuração do primeiro turno, uma nova relação com os finalistas em cada categoria é enviada aos sócios que escolhem, então, os vencedores. Nas duas etapas a votação é secreta e a abertura das cédulas, bem como a apuração dos votos, é realizada pela PwC Brasil. O número de votos não é revelado pela PwC, nem para a diretoria da Academia, como é previsto na cláusula de confidencialidade do contrato com a empresa, garantindo a liberdade de votação e a lisura do processo. O resultado também reacendeu um sentimento de resistência a “O agente secreto” que parece existir na Academia desde o processo de escolha do representante brasileiro no Oscar. Como vocês avaliam esse sentimento? Não existe isso, nunca existiu. Isso foi uma especulação que, infelizmente, acabou sendo noticiada pela imprensa e amplificada sem nenhum fundamento. Em um grupo grande, heterogêneo e diverso — como são as comissões de seleção da Academia — é claro que há divergências. Isso é democracia. A Academia, como instituição, exalta o cinema brasileiro. Sem preferências e da forma mais transparente possível. À época da escolha, a comissão responsável pareceu responder de forma muito reativa. Na live de anúncio, tivemos falas como “está aí imprensa o que vocês queriam”, o que passou para muitos a ideia de que foi uma escolha a contragosto. Quero esclarecer que não foi por pressão da mídia nem das redes sociais que a comissão eleita para a escolha do filme que representou o Brasil no Oscar escolheu “O agente secreto”. Essa foi uma fala individual, de um dos membros da comissão — que, de novo ressalto, é uma comissão independente —, e nunca uma posição nem fala da Academia. Os diretores e a presidência não votam. A Academia elege anualmente a comissão que escolherá o filme que nos representará no Oscar. É uma comissão independente e livre. Todos sabem que para disputar uma vaga na categoria filme internacional requer muito mais do que um bom filme. Para termos chance é fundamental ter recursos que cubram os custos de uma campanha que é caríssima. O fator fundamental para a escolha de “O agente secreto”, um excelente filme que concorria com outros excelentes filmes, foi que junto dele estava a Neon, distribuidora do filme nos Estados Unidos, com poder de fogo para brigar como gente grande, o que de fato fez. Essa, sim, foi a grande diferença que a comissão soube reconhecer. E como todos que a compõem são cineastas e produtores, a gente sabe bem como as coisas funcionam. A pressão que a mídia fez incomodou, sim. Meu marido, Cacá Diegues, inventou há 50 anos a expressão “patrulhas ideológicas” (talvez hoje seja “cancelamento”), mas posso garantir que ninguém se deixou ser patrulhado. O voto da comissão é livre e aberto e sabemos o que se deve levar em conta, com toda a responsabilidade, quando indicamos um filme que representará nosso país no Oscar e levará junto com ele toda a nossa torcida. A Academia conta com 356 membros, sendo 279 da região sudeste, sendo a ampla maioria de Rio e SP. Há um trabalho na instituição para mudar essa composição? O que tem sido feito a respeito? As estatísticas completas estão disponíveis no site da Academia: dos 356 sócios, 78,3% são da região Sudeste, 8,4% do Nordeste, 5,3% do Sul, 3% do Centro-Oeste e 0,8% do Norte. Isso espelha, guardadas as devidas proporções, os dados da Ancine sobre a Distribuição Regional de Produtoras Ativas, que apontam que 66,7% das empresas estão concentradas no Sudeste, 12,7% no Nordeste, 12% no Sul, 6,2% no Centro-Oeste e 2,4% no Norte. Podem se associar à Academia Brasileira de Cinema nas categorias Sócio Técnico ou Sócio Pleno profissionais que atuem em alguma atividade dentro da indústria audiovisual, seja em cinema, TV aberta ou fechada ou streaming. Podem se associar também os profissionais que trabalham dentro do sistema de distribuição e exibição cinematográfica, sendo necessária a comprovação de exercício da função. Qualquer pessoa pode se associar. Fica o recado para diretores e produtores atuantes, que participam ativamente do Prêmio Grande Otelo e que não são associados. Muitos não são sócios da Academia Brasileira de Cinema e são associados da AMPAS (Academy of Motion Pictures and Arts and Sciences, responsável pelo Oscar), da qual eu também sou. A diferença é que na AMPAS os membros têm que ser convidados e na Academia Brasileira de Cinema, não. Só precisam efetivamente trabalhar na indústria. Mas temos feito um trabalho intenso porque a Academia precisa de mais sócios e quanto mais diversificado for o quadro, melhor. Promovemos anualmente a Mostra Prêmio Grande Otelo, exibindo gratuitamente os longa-metragens que concorrem na categoria de Voto Popular em todo o país. Na edição de 2026, realizada entre entre os dias 2 de julho e 3 de agosto, o público pôde assistir aos 16 filmes que concorreram ao prêmio Grande Otelo de Melhor Filme do Júri Popular nos cinemas parceiros da Academia em 31 cidades nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Ceará, Bahia, Paraíba, Pernambuco, Maranhão, Alagoas, Mato Grosso, Pará e Tocantins. Como receberam a fala do diretor Kleber Mendonça Filho sobre a necessidade de dissipar um pouco este “ar sudestino” na instituição? Acho que a resposta anterior já responde essa pergunta com fatos, sem especulações. Neste ano foram entregues 11 prêmios da categoria longa-metragem para 3 filmes que são nordestinos: 5 para “Manas”, 4 para “O agente secreto” e 2 para “O último azul”. Sem contar que o prêmio de melhor série de ficção, “Máscaras de oxigênio não cairão automaticamente”, foi dirigida pelo pernambucano Marcelo Gomes. Kleber Mendonça Filho agradece troféu Grande Otelo de melhor filme recebido por "O agente secreto", em cerimônia da Academia Brasileira de Cinema — Foto: Divulgação A Academia é do Brasil. É do cinema brasileiro. Nós agregamos. Temos hoje cineastas brasileiros espalhados em 18 estados. Que venham mais. Todos são bem-vindos e farão de nossa academia ainda melhor. E como seria lindo que estivéssemos falando aqui da qualidade incrível da nossa cinematografia, espelhada na premiação que foi plural, representativa, traduzindo a escolha dos profissionais que fazem cinema no Brasil. A premiação ocorre um mês antes da escolha do representante brasileiro para o Oscar seguinte. Vocês não acham agosto muito tarde pensando num calendário de premiações? Não conseguimos realizar o Prêmio Grande Otelo no primeiro semestre por uma questão de captação de patrocínio. Mas recentemente mudamos as regras para as inscrições, que eram permitidas a filmes produzidos no ano anterior e agora são para produções realizadas de abril a abril. Em contrapartida, é o Prêmio Grande Otelo que abre a temporada de festivais no Brasil. Existe algo que gostaria de falar sobre o trabalho da Academia e o Grande Otelo? Queria dizer que saí do Theatro Municipal na última terça-feira feliz. Os filmes que concorriam esse ano eram maravilhosos. Prêmios em Veneza, Berlim e Cannes comprovam a qualidade dos filmes que nós, brasileiros, temos produzido. Fiquei orgulhosa da Academia porque somos livres. Votamos em quem queremos. Tivemos 4 excelentes filmes dividindo os prêmios mais importantes da noite: “Homem com H”, “Manas”, “O agente secreto” e “O último azul”. Que orgulho dessa cinematografia. É isso que deveríamos estar celebrando.
Entrevista: presidente da Academia Brasileira de Cinema defende prêmio Grande Otelo e nega resistência a 'O agente secreto'
'Os filmes que concorriam esse ano eram maravilhosos. Que orgulho dessa cinematografia. É isso que deveríamos estar celebrando', diz Renata Almeida Magalhães










