Banda cult dos anos 1970, que encerrou atividades em 2009, foi redescoberta na série ‘Wandinha’, da Netflix 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 The Cramps — Foto: Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você O projeto marca o lançamento do álbum inédito "Gravest Gravy", gravado em 1977, com os lucros revertidos para a guitarrista e cofundadora Poison Ivy, que vive de forma reclusa. O trabalho voluntário dos músicos ajudará a recuperar fitas originais guardadas na garagem da guitarrista Poison Ivy, viabilizando o lançamento do álbum inédito 'Gravest Gravy'. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Em 3 de fevereiro de 1979, um skatista de 16 anos chamado Ian MacKaye foi ao seu primeiro show de punk rock — um evento beneficente para a WGTB, a estação de rádio da Universidade de Georgetown. A atração principal era o Cramps, pioneiros do psychobilly, uma mistura frenética de punk, rockabilly e surf music. "Ainda considero aquele show o melhor que já fui", relembrou MacKaye, hoje com 64 anos, em uma entrevista recente por telefone. A apresentação foi alegre — e caótica. "O show em si foi uma explosão tão catártica que mesas e cadeiras foram destruídas e janelas, quebradas", disse MacKaye. "Tenho quase certeza de que todo o dinheiro arrecadado naquela noite serviu para pagar os prejuízos." Cerca de dois meses e meio depois, MacKaye e seu melhor amigo, Henry Rollins, foram juntos a outro show do Cramps em Washington, D.C., num bar pequeno e sem palco. Rollins, assim como MacKaye, ficou fascinado. Ele se lembrou de Lux Interior, o vocalista alto e de visual excêntrico da banda, pulando sobre o balcão do bar e socando as placas do forro do teto. "Aquilo meio que estragou a experiência para mim, porque já fui a um bilhão de shows em clubes desde então, e nenhum deles se comparou ao Cramps sem palco", disse Rollins, de 65 anos, durante uma chamada de vídeo de sua casa em Nashville, Tennessee. Rollins e MacKaye continuam sendo grandes amigos e conversam sobre aquela apresentação até hoje. MacKaye citou a banda como uma grande influência: "Quando vi o Cramps — muitas das músicas deles são tocadas em uma única corda —, pensei: 'Eu também consigo fazer isso'". Ambos se tornaram músicos influentes da cena underground: Rollins como o vocalista da banda de hardcore Black Flag, do sul da Califórnia, e MacKaye como fundador dos grupos Minor Threat e Fugazi, de Washington D.C. Agora, Rollins e MacKaye participam de uma iniciativa para relançar o catálogo do Cramps e disponibilizar gravações inéditas. O primeiro lançamento é o álbum "Gravest Gravy", uma coletânea de músicas da banda que ficou engavetada por muito tempo e foi produzida por Alex Chilton, líder do Big Star, em 1977. O disco chegará às lojas em 21 de agosto pela Vengeance Records — a gravadora da própria banda, que estava inativa há anos. Há também planos de lançar vídeos raros de apresentações do grupo, bem como novos produtos oficiais. O Cramps foi formado em 1976 por Lux Interior (nascido Erick Purkhiser) e sua esposa, a guitarrista Poison Ivy (Kristy Wallace), que se conheceram quando estudavam na Sacramento State, na Califórnia. Em 1978, o grupo realizou um show gratuito memorável para pacientes de um hospital psiquiátrico em Napa e, em 1980, lançou "Songs the Lord Taught Us", o primeiro de oito álbuns de estúdio lançados ao longo da trajetória da banda. “Eles eram colecionadores”, disse Kid Congo Powers — guitarrista do Cramps entre 1980 e 1983. “Eram estetas da cultura que amavam a cultura dos filmes B, o rockabilly, discos de psicodelia e todo tipo de coisa excêntrica. Poderíamos usar o termo ‘kitsch’, mas acho que o Cramps torceria o nariz para essa palavra, porque eram simplesmente coisas que eles adoravam.” O Cramps chegou ao fim em 2009, com a morte repentina de Lux Interior devido a um problema cardíaco. Ele tinha 62 anos. Uma banda cult em sua época, o grupo conquistou um público totalmente novo em 2022, quando sua versão de “Goo Goo Muck” foi usada em uma sequência de dança gótica na série “Wandinha”, da Netflix. “O curioso é que foi o primeiro single do álbum "Psychedelic Jungle" e, na época, pensamos: ‘Vai ser um sucesso’”, contou Powers. “Mas não foi. Só que, uns 40 ou 50 anos depois, acabou virando um sucesso viral.” Desde a morte de Lux Interior, Poison Ivy não fala publicamente. “Ela tem levado uma vida muito reclusa, dedicada à Meditação Transcendental”, disse o produtor de cinema Jimmy Maslon, amigo de longa data que dirigiu vários videoclipes da banda. “E ela é muito tímida.” Enquanto isso, Poison Ivy não cuidava dos assuntos comerciais do Cramps. “Ela deixou que todos os discos sob seu controle saíssem de catálogo”, disse em entrevista Larry Hardy, proprietário e administrador da gravadora In the Red Records e também amigo de longa data. “Ela não tem contrato para produtos licenciados. Não está ganhando dinheiro com a banda. Como fã do Cramps, sei que estão surgindo inúmeras gravações piratas.” No ano passado, Hardy e Maslon conseguiram convencê-la a formar uma parceria em uma nova empresa, a The Cramps Inc., e a reativar o selo da banda, Vengeance. Hardy e Maslon cuidam de toda a logística, e Poison Ivy é a principal beneficiária. A musicista pretende destinar parte da renda a instituições de caridade, segundo Maslon. Poison Ivy guardava as fitas originais (ou masters) da banda em sua garagem, que tinha infiltrações, contou Hardy. Ela concordou em deixá-lo levar o acervo, no qual ele descobriu as gravações das sessões de “Gravest Gravy”. “Quando percebi o que tínhamos em mãos, fiquei extremamente feliz”, disse Hardy. O Cramps trabalhava no lançamento de “Gravest Gravy”, afirmou ele, mas o projeto foi abandonado após a morte de Lux Interior. Hardy entregou todas as fitas ao seu amigo Rollins — que se autodenomina um "nerd colecionador" e mantém um depósito com controle de temperatura em sua casa em Nashville — e pediu que ele analisasse as diversas tomadas das músicas de "Gravest Gravy" para selecionar as melhores versões. A reação inicial de Rollins foi: "Como essas músicas escaparam dos saqueadores de tumbas — os piratas — e de fãs como eu?" Entre os destaques está uma versão cover de "Hungry", da banda Paul Revere & the Raiders, com Chilton no órgão. Após algumas sessões intensas de audição, Rollins enviou as mixagens e suas anotações a MacKaye, em cujo ouvido ele confia mais. "Eu disse: 'Me avise se estou delirando ou se essas são realmente as tomadas certas'", relembrou Rollins. "E ele respondeu: 'Sim, essas são obviamente as tomadas certas'." MacKaye, fundador e proprietário da gravadora independente Dischord Records, fez ajustes de equalização e volume em duas das faixas e refinou a ordem das músicas sugerida por Rollins. Nem Rollins nem MacKaye estão sendo remunerados pelo trabalho. "A sensação era: 'Uau, que presente!' Que presente poder, A) passar esse tempo de tamanha intimidade com a música deles e B) ter um projeto para realizar com o Henry, que é meu melhor amigo", disse MacKaye. "Não tenho nenhum interesse financeiro", afirmou Rollins. "Só quero fazer o que é certo pela banda que me abriu as portas." Ele acrescentou que esperava garantir que Poison Ivy, aos 73 anos, "esteja feliz, saudável, bem alimentada e em paz" pelo resto de sua vida.
Lendas do punk, Henry Rollins e Ian MacKaye ajudam a resgatar o acervo do The Cramps
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