O que esperar da guerra na Ucrânia em 2026? Veja o vídeoConversas sobre um possível acordo de paz estão em andamento, mas a UE busca maneiras de enviar ajuda militar e econômica para Kiev em 2026. Crédito: Gabriella LodiGerando resumoDepois de quase cinco anos de combate, a guerra na Ucrânia deixou de ser decidida por tanques e artilharia e passou a se concentrar nos céus, entre drones e mísseis interceptores. PUBLICIDADENas últimas semanas, esse novo cenário levou Volodmir Zelenski a promover a mais profunda reformulação de sua cúpula militar desde o início da invasão russa. Ele substituiu o comandante do Exército, general Oleksandr Sirski, pelo major-general Mykhailo Drapati, além de ter demitido o ministro da Defesa Mykhailo Fedorov, responsável pelo programa de guerra com drones do país. No mesmo período, a cúpula da Otan em Ancara terminou com a promessa de Donald Trump de conceder à Ucrânia licença para produzir mísseis Patriot, a arma hoje mais decisiva que a artilharia para conter os ataques russos. PublicidadeMas especialistas ouvidos pelo Estadão explicam que nenhuma dessas mudanças, isoladamente, deve alterar o rumo do conflito no curto prazo: a reforma militar tende a tornar as tropas ucranianas mais eficientes, mas não substitui os soldados que faltam no front, enquanto o anúncio de Trump sobre os Patriots é visto mais como um gesto político de longo prazo do que uma resposta à urgência atual de interceptores.O presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, é visto durante sua visita à Base Naval de Sua Majestade (HM Naval Base) em Portsmouth, na costa sul da Inglaterra, em 27 de julho de 2026 Foto: Aaron Chown / POOL / AFPEntenda as mudanças na cúpula militar ucranianaO estopim da crise foi a saída de Fedorov, ministro jovem e reformista que se tornou o principal defensor do uso de tecnologia no campo de batalha e símbolo do sucesso ucraniano com drones de longo alcance contra alvos militares e petrolíferos dentro do território russo, além de liderar o isolamento da Crimeia ocupada. Ele deixou o cargo menos de seis meses depois de assumir o Ministério da Defesa, e explicou que o motivo foi um conflito direto com o general Sirski, defensor de uma abordagem mais tradicional das operações militares, ligada à formação soviética. Zelenski deu poucas explicações públicas sobre a decisão, limitando-se a dizer que buscava preservar a “unidade” do comando militar em meio à guerra.PublicidadeSaída de ministro da Defesa e mudanças no governo provocam protestos na UcrâniaCentenas de manifestantes se reuniram em Kiev e outras cidades em apoio a Mykhailo Fedorov. Crédito: SERHII OKUNEV/AFPTV/AFPA demissão de um ministro popular, no entanto, provocou reações imediatas. Manifestantes tomaram as ruas de Kiev por dois dias seguidos, com bandeiras ucranianas e cartazes pedindo “Devolvam Fedorov!” e cobrando que o governo “respeite e leve o povo em consideração”. A pressão popular e dentro das próprias Forças Armadas acabou recaindo sobre Sirski, cuja saída poucos dias depois foi lida como uma tentativa de Zelenski corrigir o próprio erro político. Ele substituiu o general por Drapati, nome mais identificado com a inovação tecnológica e a guerra de drones.Sirski, que comandava as forças ucranianas desde 2024, era uma figura condecorada e ligada à velha guarda militar. Ele havia liderado a defesa de Kiev em 2022 e a contraofensiva que recuperou território no nordeste do país, mas também foi criticado por decisões como a defesa prolongada de Bakhmut e por resistir a recuar de posições insustentáveis.Ao anunciar sua saída, o general afirmou que testemunhou a guerra desde 2014 e que sabe “o preço de cada quilômetro de terra ucraniana que foi libertado”, dizendo entregar ao sucessor um Exército “em estado de ofensiva, com iniciativa e com estrutura”.PublicidadeOs números por trás da guerraMas enquanto a cúpula militar sofre mudanças, a guerra terrestre segue em impasse. Segundo o Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), a Ucrânia afirma ter matado ou ferido quase 40 mil russos somente em junho, o equivalente a cerca de 1.300 baixas por quilômetro quadrado conquistado ou infiltrado pela Rússia, uma taxa de desgaste 19 vezes maior que a registrada um ano antes. O instituto avalia que as forças ucranianas vêm conseguindo, ao mesmo tempo, retardar os avanços russos e infligir perdas mais pesadas ao inimigo. Como mostra o infográfico com dados do ISW, a Rússia ainda ocupa cerca de 12% do território ucraniano, com a região do Donbas dividida entre os dois países. O ritmo de avanço russo, que somava 114.557 km² em maio de 2025, chegou ao pico de 118.888 km² em fevereiro de 2026, mas recuou nos meses seguintes, caindo para 118.293 km² em maio deste ano, reflexo da lenta recuperação de território pela Ucrânia. É nesse contexto que os interceptores Patriot se tornaram a arma mais disputada da guerra. O Patriot é um sistema de mísseis guiados terra-ar implantado pela primeira vez na década de 1980, capaz de atingir aeronaves, mísseis de cruzeiro e mísseis balísticos de curto alcance. Cada bateria é composta por um sistema de lançamento montado em caminhão, com oito lançadores que comportam até quatro interceptadores cada, além de radar terrestre, estação de controle e gerador. PublicidadeCONTiNUA APÓS PUBLICIDADEO Exército americano mantém hoje 16 batalhões do sistema, que somam mais de 1.200 interceptadores, e o equipamento também é operado por países como Alemanha, Japão, Israel, Coreia do Sul e Polônia, entre outros. Operar uma bateria exige até 90 soldados treinados para localizar o alvo, mirar com o radar e disparar, e o treinamento das tropas ucranianas está entre os principais obstáculos para a entrada do sistema em operação. Além disso, uma bateria cobre apenas uma área restrita, insuficiente para proteger totalmente uma cidade grande.De acordo com a inteligência militar ucraniana, a Rússia produz cerca de 60 mísseis Iskander por mês, os mais usados contra o país, enquanto a Ucrânia carece de Patriots para detê-los, como ocorreu no ataque de 6 de julho, quando Kiev abateu drones e mísseis de cruzeiro mas não teve interceptores suficientes para deter um único míssil balístico. Na cúpula de Ancara, em 8 de julho, a Otan prometeu US$ 80 bilhões em ajuda militar à Ucrânia, e Trump anunciou que autorizaria o país a produzir os próprios Patriots, embora tenha reconhecido que ainda não discutira a licença com os fabricantes Lockheed Martin e RTX. PublicidadeCada míssil custa US$ 3,9 milhões e leva cerca de dois anos para ser fabricado, com a Lockheed produzindo hoje apenas 600 unidades por ano. Além disso, segundo uma estimativa do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, a Ucrânia teria de competir com as Forças Armadas dos Estados Unidos e outros 16 países clientes.Zelenski afirmou que já negocia diretamente com a Raytheon Technologies, fabricante de Patriots, um acordo para produção conjunta de interceptadores. Segundo o presidente ucraniano, representantes da empresa estiveram em Kiev para discutir a parceria, e as equipes do governo e do setor privado devem manter contato para avançar nas tratativas. Leia tambémComo são os mísseis Patriot doados à Ucrânia, e qual impacto podem ter na guerra? Veja vídeosA Ucrânia contra-ataca: entenda como Zelenski criou uma nova estratégia para ameaçar PutinMesmo assim, especialistas e autoridades ucranianas avaliam que uma linha de produção no país só deve sair do papel em anos. No meio tempo, Kiev voltou a sofrer bombardeios diurnos com mísseis, levando as autoridades a acionar a defesa aérea e pedir que a população buscasse abrigo, enquanto intensificava ataques de drones contra centros logísticos e instalações petrolíferas e militares em território russo.O que dizem os especialistasKeir Giles, pesquisador associado do Programa Rússia e Eurásia da Chatham House, avalia que a origem da crise ainda não foi esclarecida, já que não se sabe ao certo por que Zelenski decidiu remover Fedorov, o responsável pela revolução dos drones. Para ele, o episódio abalou a confiança de Kiev e de seus apoiadores justamente quando havia otimismo sobre o avanço ucraniano com ataques dentro da Rússia e a redução das próprias baixas. PublicidadeFoi um erro de cálculo de Zelenski, sem dúvidasKeir Giles, pesquisador associado do Programa Rússia e Eurásia da Chatham HousGiles nota ainda que comentaristas militares russos reagiram com satisfação à saída de Fedorov, “o que é sempre um mau sinal”, mas depois passaram a um tom mais cauteloso diante da troca no comando, sinal de que a leitura de observadores russos coincidiu com a de aliados ocidentais sobre o equívoco inicial. “Não será uma mudança no campo de batalha por muito tempo, se é que será algum dia”,Sobre a promessa de Trump, o pesquisador é cético quanto a um impacto imediato: “Não será uma mudança no campo de batalha por muito tempo, se é que será algum dia”. Ele argumenta que o que o anúncio da licença tende a deslocar o debate da entrega urgente de interceptores para uma promessa que só pode se concretizar anos depois, o que na prática pode servir de justificativa para reduzir a ajuda militar americana no curto prazo.PublicidadeJá Max Beznosiuk, do Centro para a Europa Global da Globsec, afirma que a licença de produção dos Patriots pode ter valor estratégico no longo prazo, mas não resolve a escassez imediata de interceptores, defendendo que a Ucrânia precisa combinar transferências emergenciais de estoques aliados com o desenvolvimento de uma produção própria europeia-ucraniana.Dentro da Ucrânia, Beznosiuk descreve a disputa entre Fedorov e Syrskyi como um conflito institucional profundo sobre “quem controla recursos, aquisições, desenho de forças e o futuro modelo de guerra”. Para o pesquisador, a ascensão de Drapatyi não deve alterar o alinhamento estratégico de Kiev com o Ocidente, podendo até aproximar a Ucrânia de padrões europeus de transparência. Beznosiuk acredita que a Rússia tentará explorar o período de adaptação da nova cúpula com ataques localizados e desinformação, mas destaca que o sistema de drones ucraniano está “institucionalizado demais para depender de um único ministro ou comandante”. PublicidadePara ele, o maior perigo da demissão de Fedorov, visto como símbolo de digitalização, inovação em drones e combate à corrupção, é desgastar a popularidade de Zelenski caso as expectativas em torno de Drapatyi não se confirmem. O especialista explica que a reforma tecnológica pode reduzir perdas e tornar o Exército mais eficiente, mas não substitui a necessidade de mobilização e treinamento de soldados. Ele defende que a tecnologia não consegue, de forma independente, manter território, rotacionar formações exaustas ou substituir a infantaria treinada em todas as missões.O maior perigo para Zelenski é político. A reforma institucional não substitui os soldados que faltam à UcrâniaMax Beznosiuk, pesquisador associado do Centro para a Europa Global da GLOBSEC.