Montagem de texto de 1896 tem roupas atuais, guitarra e drone, mas com lealdade ao autor russo, garante o diretor Paulo de Moraes 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Patrícia Selonk e Jopa Moraes em cena de 'Gaivota' — Foto: Divulgação/João Gabriel Monteiro Em 1896, “A gaivota”, de Anton Tchekhov, estreou em São Petersburgo como uma peça contemporânea, passada na Rússia de então. Nesta quarta-feira (5), 130 anos depois, “Gaivota” (o “a” foi retirado por não existir artigo em russo) inicia sua temporada no Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil, no Centro do Rio, propondo também ser uma peça situada no presente. A montagem da Armazém Companhia de Teatro — uma das principais do país e que completará 40 anos em 2027 — tem atores com roupas de hoje vivendo uma história que “se passa em algum lugar”, não determinado, como explica o diretor Paulo de Moraes. — A gente não pegou a peça com reverência. Ou, pelo menos, não com reverência excessiva. Pegamos como alguém que ama essa peça, mas quer entrar no mesmo diapasão na parceria com o cara. Não é “Nossa, estamos montando Tchekhov!”. Estamos trabalhando junto com o Tchekhov a possibilidade de essa gaivota voar sobre a gente hoje um dia — afirma Paulo, cujo elenco toca música em cena, inclusive com guitarra. O diretor Paulo de Moraes — Foto: Fabio Guimaraes/28-4-2019 “Gaivota” é a primeira das quatro peças clássicas do autor russo — que depois escreveria “Tio Vânia” (1899/1900), “As três irmãs” (1901) e “O jardim das cerejeiras” (1904, ano de sua morte, aos 44 anos). A história acontece numa propriedade rural e tem como protagonistas a consagrada atriz Arkádina (papel de Patrícia Selonk); seu filho, o aspirante a escritor de apelido Kóstia (Jopa Moraes); a jovem atriz Nina (Lorena Lima) e o famoso escritor Trigórin (Bruno Lourenço). A gaivota do título é morta por Kóstia, que a entrega à amada Nina, que a entrega ao amado Trigórin, que decide empalhá-la. No espetáculo, ela é representada por um drone. — A gaivota funciona na peça como um dispositivo de percepção. Ela percebe a história passando. Quando se aproxima, os personagens são indivíduos. Quando sobe, o individual desaparece e o coletivo transparece — explica Paulo. A Armazém partiu de uma tradução feita por Maurício Arruda Mendonça — cotejando inglês e francês — e trabalhada por Maurício, Paulo e Jopa (filho de Paulo e Patrícia). — É uma versão dramatúrgica, em que a gente reescreve a maior parte das cenas — ressalta o diretor. — É claro que mantemos certa lealdade ao Tchekhov, mas sem a preocupação de manter uma fidelidade. A prosódia é outra, o ritmo da fala é outro, mas a forma com que ele articula a história está lá. Sobre por que montar “Gaivota” hoje, Paulo responde, primeiramente, destacando a atemporalidade dos principais textos de Anton Tchekhov: — É um texto incrível, que consegue refletir sobre questões que estão aí o tempo todo. É que nem montar Beckett ou Shakespeare. São autores-esponja, que conseguem estabelecer no seu tempo uma conexão muito grande com as questões que eles, a princípio, propõem. Ainda assim, ele sublinha que “tudo reverbera no presente”, embora não seja “uma peça de mensagem”. Patrícia vê uma ligação com os tempos atuais: — Os personagens são pessoas muito intensas num mundo amortecido. Elas cantam, dançam, vivem suas emoções, mas num mundo meio apático. É como hoje, em que a gente fica perplexa diante das coisas que estão acontecendo. No mesmo tom, Paulo discorda de montagens que, na sua opinião, enxergaram Tchekhov como um criador de personagens entediados. — Ele fala de pessoas que têm um vulcão dentro de si e estão vivendo num mundo muito mais paralisado do que elas gostariam que fosse. São pessoas em busca do amor, da vida o tempo inteiro. Não acho que exista tédio em Tchekhov — diz. Patrícia Selonk e Jopa Moraes em cena de 'Gaivota' — Foto: Divulgação/João Gabriel Monteiro Outro lugar-comum que ele ataca é a ideia de que pouca coisa acontece nas peças do dramaturgo russo. — Se for enumerar as coisas que acontecem na “Gaivota”... Apresenta-se uma peça, um cara tenta se matar, a namorada dele tem um caso com o cara que tem um caso com a mãe dele, a mãe e o filho têm um desentendimento eterno — aponta. O teatro permeia “Gaivota”. Kóstia escreve uma peça para Nina, que sonha ser Arkádina. E há diálogos em torno de peças e atores. — “Gaivota” fala de uma comunidade de artistas de 130 anos atrás. E o Armazém é uma comunidade que vive há 40 anos fazendo praticamente a mesma coisa — aproxima Paulo. — Mas, para Tchekhov, o artista não era quem trabalhava com arte especificamente. Era um tipo de comportamento, de visão de mundo, um jeito de encarar a vida. Fracasso na estreia Na estreia em São Petersburgo, a peça foi um fracasso. Em 1898, virou um sucesso com o Teatro de Arte de Moscou. No elenco, dois nomes que se tornariam fundamentais para o teatro do século XX: Stanislavski como Trigórin e Meierhold como Kóstia. No papel de Arkádina, Olga Knipper, que se casaria com Tchekhov em 1901. No espetáculo “Neva”, que está no repertório da Armazém, Patrícia interpreta Olga. Como Arkádina, ela diz evitar estereótipos relacionados a uma grande atriz. E quer deixar no ar para o público se a estrela representa quase o tempo todo ou se é sincera em boa parte das cenas. — Há muitas contradições. E Tchekhov não pede que as contradições sejam organizadas, mas expostas — acredita Patrícia. — A temática da peça é dolorosa, mas não é solene. Os personagens também são ridículos, porque têm muitas falhas. Uma das principais cenas é a conversa de Arkádina, uma mãe não muito delicada, com Kóstia. No palco estão Patrícia e Jopa, também mãe e filho. — A nossa intimidade pode ajudar. É mais uma camada — diz ela.
Novo voo da 'Gaivota': Armazém estreia nesta quarta-feira (5) no Rio adaptação do clássico de Tchekov
Montagem de texto de 1896 tem roupas atuais, guitarra e drone, mas com lealdade ao autor russo, garante o diretor Paulo de Moraes






