Trabalhadores pressionam o governo do estado a oferecer garantias de manutenção dos empregos, após a concessão de trecho para empresa 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Greve dos ferroviários: movimentação na estação Itaquera, que conecta a Linha 11 (Coral) da CPTM à Linha 3 (Vermelha) do Metrô, na manhã desta terça — Foto: Maria Isabel Oliveira/Agência O Globo A greve dos trabalhadores da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), que paralisa desde ontem as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, provocou transtornos no deslocamento de milhares de pessoas na Região Metropolitana de São Paulo — assim como impulsionou, às vésperas das eleições, o embate político entre o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e a oposição, crítica ao desempenho do setor privado nos transportes e em outros serviços estaduais. A greve será mantida hoje, conforme decisão tomada ontem à noite pela categoria. Os trabalhadores pressionam o governo do estado a oferecer garantias de manutenção dos empregos, após a concessão desse trecho da malha para a empresa Trivia. Os três ramais transportam cerca de 1 milhão de pessoas por dia. A reação do governo veio em várias frentes. A CPTM, empresa controlada pelo estado, entrou na Justiça para garantir percentual mínimo de efetivo, enquanto Tarcísio atribuiu o movimento a uma tentativa de intimidação. “A greve de hoje é resultado unicamente de instrumentalização política para prejudicar o passageiro e o cidadão de bem, que já não suportam mais ver justamente aqueles políticos que dizem defender os seus interesses atuando para ferir seu direito de ir e vir. A aposta na baderna e na paralisia dos serviços não vai intimidar o governo, que esteve e seguirá aberto ao diálogo”, publicou Tarcísio nas redes . A entidade que convocou a greve rebateu a afirmação, também por meio de nota. “A greve dos ferroviários da CPTM não tem motivação político-partidária. O movimento foi aprovado democraticamente em assembleia e nasceu da ausência de uma garantia concreta de manutenção dos empregos de milhares de trabalhadores”, alega o Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias da Zona Central do Brasil, ligado à Central Única dos Trabalhadores (CUT). As três linhas paralisadas pela greve são as mesmas que foram retomadas pela CPTM, por 90 dias, após falhas graves registradas pela concessionária Trivia apenas 72h depois de assumir a operação. Foi a primeira vez que isso ocorreu desde que foi introduzido o modelo de administração privada no setor de transportes do estado. Passageiros gravaram, no dia 23 de julho, um vagão pegando fogo na linha 12-Safira, próximo ao bairro Tatuapé. Outros tiveram que caminhar pelos trilhos com os equipamentos parados, possivelmente por um curto-circuito. 724 km de trânsito A linha 13-Jade, que liga a vizinha Guarulhos à capital paulista, ficou completamente interrompida ao longo do dia, incluindo o Expresso Aeroporto. Os passageiros da 11-Coral só tinham acesso ao trecho entre as estações Palmeiras-Barra Funda e Guaianases, o que deixou os moradores de Poá, Ferraz de Vasconcelos, Suzano e Mogi das Cruzes desassistidos. A linha 12-Safira operou em trecho curto, entre as estações do Brás e Engenheiro Goulart, mas sem acesso ao extremo Leste da capital e ao município de Itaquaquecetuba. A prefeitura suspendeu o rodízio de veículos, enquanto a gestão estadual adotou um plano de contingência, com a antecipação em 40 minutos da abertura dos portões do metrô e o reforço nos trens de outras linhas. Foi acionada ainda a Operação Paese, que consiste em colocar ônibus gratuitos entre as estações afetadas. Ainda assim, a greve pegou muita gente desavisada. Alguns não tinham opção senão tentar embarcar em estações que não funcionaram. Por volta das 6h30, passageiros que chegavam de ônibus à Engenheiro Goulart só encontravam trens em direção ao Centro . — Saí de casa, em Francisco Morato, às 3h, e até agora não consegui chegar a Ermelino Matarazzo — disse o pedreiro Oziel Baltazar da Silva, de 58 anos. Sem informações , ele e um colega caminharam 3km até o trabalho. Pouco depois, um ônibus extra fez o caminho, mas o pedreiro já tinha partido. — A gente não sabe quantos virão e nem se haverá ônibus extras. Como são veículos de linhas intermunicipais, nós, da SPTrans, não ficamos a par de nada. Uma bagunça — disse um fiscal da empresa municipal de transportes, que tentava colocar ordem nas estações. A extensão do congestionamento nas ruas ficou desconhecida por algumas horas, em razão de uma pane no sistema da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) que mede a lentidão. Depois de retirar o site do ar, o órgão municipal informou pico de 724km de vias lentas por volta das 8h30, abaixo do esperado para um dia de greve. O maior engarrafamento do ano ocorreu no dia 12 de março, às 8h, com 1.059km. Disputa política Por conta do acidente nas linhas da Trivia, a campanha de Fernando Haddad (PT), principal adversário de Tarcísio na disputa para o próximo mandato no governo do estado, tem disparado materiais críticos ao controle privado no setor de transportes, entre outros. Na segunda-feira, antes da greve ser anunciada, o petista publicou um vídeo com imagens da fumaça e do trem destruído pelo fogo. Ele pretende levar à propaganda eleitoral ainda uma série de materiais contra o processo de desestatização da Sabesp. Pressionado pelo caso, Tarcísio declarou, em 30 de julho, que não pretende mais conceder linhas do metrô à iniciativa privada e que deseja, pelo contrário, ampliar a participação do estado na gestão do modal. O governador negocia para que o monotrilho da linha 17-Ouro seja gerido pelo poder público, e não pela ViaMobilidade. Ele citou que o estado “não pode correr o risco de ter muitas linhas operadas por poucos operadores privados” e que “mudou de opinião” desde 2024.