Como a guerra no Irã está espalhando caos no mundo?Aumento nos preços dos combustíveis e energia por causa do fechamento do Estreito de Ormuz tem provocado protestos e tumultos em muitos países. Crédito: Carolina Marins (roteiro), Ariel Liborio (edição), Vitória Schmitz (produção) e Felipe Pedro (fotografia)Gerando resumoIrã e Omã estão próximos de um acordo para reabrir o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, segundo autoridades iranianas e americanas; no entanto, se o acordo entrar em vigor, poderá ter um preço elevado: a legitimação do controle de Teerã sobre o que, antes da guerra, era uma via navegável internacional aberta.PUBLICIDADESegundo autoridades a par do acordo, as embarcações que se dirigem ao Golfo Pérsico transitarão por um canal controlado pelo Irã e próximo à sua costa. Os navios que deixam o Golfo navegarão por um canal próximo a Omã.Autoridades iranianas afirmam que, embora não haja cobrança de pedágios, o acordo inclui uma “taxa de serviço” para cobrir o impacto ambiental da navegação, a segurança de navios de carga e petroleiros, e os custos com pessoal. As receitas seriam divididas igualmente entre o Irã e Omã, disseram duas autoridades iranianas.PublicidadeEmbarcações aparecem ancoradas no Estreito de Ormuz, ao largo da cidade portuária de Khasab, na Península de Musandam (norte de Omã), em 17 de maio de 2026 Foto: AFPContudo, uma autoridade dos EUA a par das negociações declarou na segunda-feira que a versão iraniana “não era precisa”, afirmando que quaisquer rotas “temporárias” estabelecidas através do estreito não exigiriam aprovações ou permissões do Irã, nem envolveriam a cobrança de pedágios.Para o presidente Donald Trump, o acordo — caso se concretizasse — poderia solucionar seu problema político mais urgente, permitindo a retomada do fluxo de navios. Por sua vez, autoridades iranianas afirmaram que o estreito permaneceria fechado, independentemente de qualquer acordo, até que os EUA suspendessem o bloqueio naval aos portos iranianos no Golfo Pérsico e ambos os países retomassem o plano de 14 pontos estabelecido no memorando de entendimento de Islamabad.Os EUA poderiam aliviar ainda mais a pressão sobre o mercado, segundo algumas autoridades, caso decidissem conceder isenções às sanções contra o Irã, permitindo-lhe vender e entregar petróleo legalmente.PublicidadeNo entanto, se o Irã acabar mantendo o controle sobre a passagem, a reabertura poderá acarretar um custo geopolítico. Autoridades iranianas afirmam estar elaborando o acordo de modo a legitimar sua capacidade de controlar o estreito e, assim, preservar uma vantagem estratégica que não utilizavam antes da guerra. Tais restrições violariam diretamente o objetivo estabelecido pelo Secretário de Estado Marco Rubio, que afirmou repetidamente nos últimos meses que o estreito deve voltar a ser a via navegável aberta que era antes de os Estados Unidos e Israel atacarem o Irã em 28 de fevereiro.“Se criarmos um precedente no Oriente Médio em que um Estado-nação pode decidir controlar uma via navegável internacional”, disse ele recentemente em uma reunião com autoridades do Sudeste Asiático, “cobrar pedágio e, se você não pagar, explodir seus navios, teremos criado um precedente muito perigoso, que se repetirá em outras partes do mundo”.Leia maisEUA esperam acordo sobre Estreito de Ormuz ‘muito em breve’, diz RubioRascunhos de um possível acordo entre EUA e Irã estão sendo distribuídos, afirma CatarNavio afunda no Mar Vermelho após ataque vindo do Iêmen“O que está em jogo aqui não é simplesmente a questão do que está acontecendo no Estreito de Ormuz; trata-se de um princípio fundamental sobre a liberdade de navegação”, disse Rubio, acrescentando que “as regras que sustentaram 150 anos de comércio internacional também estão ameaçadas, e isso não pode ser permitido”.PublicidadeTrump falou pouco sobre o acordo em gestação, que fez parte da retomada das negociações que, segundo ele, o levaram a cancelar um novo e amplo ataque ao Irã no fim de semana. O acordo concede ao Irã e a Omã um prazo de 60 dias para negociar a abertura do estreito, mas prevê que, durante esse período, os Estados Unidos e o Irã retomem as discussões sobre o futuro do estoque iraniano de 11 toneladas de urânio enriquecido — incluindo cerca de meia tonelada de combustível que está agora em um nível de pureza próximo ao necessário para armas nucleares.Os Estados Unidos exigem que o combustível seja diluído para que não possa ser facilmente convertido para uso em armas e, por fim, enviado para os Estados Unidos ou outra nação, onde possa ser descartado ou utilizado em usinas nucleares.Um plano assinado em meados de junho pelo vice-presidente JD Vance e, separadamente, por Trump, levou ambos a declararem com entusiasmo que um acordo nuclear seria negociado em 60 dias. No entanto, esse prazo expira em duas semanas, e autoridades agora admitem que quaisquer negociações, caso sejam iniciadas, se estenderão por grande parte do outono e, talvez, além desse período. Em comentários reservados, algumas autoridades duvidam que haverá um acordo nuclear, acreditando que Trump possa simplesmente declarar — como sugeriu no passado — que os estoques do Irã devem permanecer soterrados sob os escombros resultantes de um ataque aéreo a três instalações nucleares em junho de 2025.PublicidadeO secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, observa enquanto o presidente Donald Trump fala durante uma reunião de gabinete em Camp David, Maryland, em 31 de julho de 2026 Foto: AARON SCHWARTZ/AFPPUBLICIDADENo entanto, a reabertura do estreito é politicamente vital para Trump. Por isso, apesar das declarações de Rubio, o governo parece estar preparando o mundo para uma reabertura na qual o Irã exerça controle diário sobre o tráfego.“Vocês saberão hoje ou amanhã”, disse Trump na segunda-feira, na Casa Blanca, sobre o acordo em gestação. “As coisas vão avançar rapidamente, de uma forma ou de outra. Não é nada muito complexo.”O estreito, previu ele, poderia ser aberto “literalmente até amanhã” — uma afirmação que ele fez diversas vezes nos últimos meses. “A primeira fase é a abertura dos estreitos. A segunda fase será a desnuclearização”, disse ele.PublicidadeNo entanto, dentro do Pentágono, algumas autoridades de alto escalão parecem céticas em relação ao acordo emergente entre Omã e o Irã, segundo autoridades atuais e antigas que foram informadas sobre as preocupações. Alguns temem que isso represente uma capitulação aos iranianos. Eles observam que, na rota que vai do Golfo através do estreito — passando por águas de Omã —, ainda existem tantas minas que os navios precisariam coordenar com o Irã para navegar com segurança.Algumas autoridades iranianas chegaram a expressar ceticismo sobre se o acordo funcionaria como pretendido e eliminaria o risco de uma nova onda de ataques dos EUA.O Comando Central dos Estados Unidos tem orientado navios nessa rota, mas eles também estão sob ameaça de mísseis iranianos. Trump cancelou duas vezes, em um período de duas semanas, um plano do Almirante Brad Cooper, chefe do Comando Central, para um bombardeio breve e intenso contra os locais iranianos de onde partem esses ataques e outros alvos militares. Mas Trump não escondeu seu forte desejo de reabrir o tráfego no estreito, mesmo que isso implique algum tipo de estrutura de taxas e certo nível de controle iraniano.Mahdi Mohammadi, conselheiro sênior do principal negociador do Irã, disse à televisão estatal na noite de segunda-feira que o Irã e Omã vêm negociando uma solução para a gestão do estreito. Ele afirmou que as negociações são independentes da guerra com os Estados Unidos.O Irã alegou que os EUA violaram o plano de paz ao direcionar navios para passar pela costa sul do estreito, perto de Omã. A redação do acordo era vaga quanto a quem detém o controle do estreito. Contudo, o Irã também violou esse plano e abriu fogo contra navios que transitavam pelo Golfo sem sua permissão.Ali Vaez, vice-diretor do programa para o Oriente Médio do International Crisis Group, disse que o Irã está decidido a manter sua influência sobre o estreito, pois o considera sua única conquista da guerra, e que o acordo com Omã deixará o país em uma posição melhor do que estava antes da atual rodada de confrontos.Publicidade“Qualquer solução que deixe o Irã no controle do estreito será muito difícil de vender para Trump, mas também não existe solução militar para remover o controle iraniano sobre o estreito”, disse Vaez. “As opções de Trump estão entre uma guerra impossível de vencer e uma paz desagradável.”