Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, ao lado de Lula em — Foto: Reprodução/Facebook Ainda no governo de transição, em 2022, o então presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva chamou o amigo de quatro décadas Gilberto Carvalho para uma reunião, no hotel onde despachava, a fim de consultá-lo sobre o seu futuro sucessor. Lula queria convidar o auxiliar Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, para assumir a chefia do gabinete pessoal do presidente, função que Gilberto exerceu nos oito anos dos mandatos anteriores do petista. Lula foi assertivo: “Gilbertinho, você acha que o Marcola aguenta uma crise?” E prosseguiu, relatando que alguns aliados achavam que a idade descredenciava o assessor, então com 36 anos, para o cargo. Gilberto respondeu que Marcola havia provado nos últimos anos que era capaz de assumir a empreitada. Após a saída de Clara Ant do Instituto Lula, em 2016, ele havia assumido a coordenação da agenda do petista. Ponderou que a vigília do assessor em Curitiba (PR), durante a prisão de Lula, havia sido o teste definitivo, que o fez amadurecer politicamente. Caciques do PT, além disso, o viam como um dos "quadros mais promissores do partido". "Tem cabeça política, é leal até o último fio de cabelo, disciplinado e discreto”, elogiou, na época, Rui Falcão, ex-presidente do PT. Marcola foi nomeado e empossado em janeiro de 2023. Ficou no cargo até duas semanas atrás, quando se desligou do governo para integrar a campanha de reeleição de Lula. Agora, aos 40 anos - e fora do governo - é posto à prova. Está no centro de uma crise que preocupa a campanha petista. A Polícia Federal (PF) investiga uma transferência feita a ele pela empresária Roberta Luchsinger, apontada como lobista e amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente. Roberta é citada nos inquéritos que investigam se Lulinha cometeu tráfico de influência em setores do governo. Marcola confirmou que recebeu o dinheiro, mas negou qualquer irregularidade. Disse, em nota, que os recursos foram obtidos por meio de um empréstimo pessoal, sem detalhar o valor, e que a dívida já foi quitada. "Recebi com surpresa a matéria que trata um empréstimo pessoal contraído e já quitado como algo ilegal. Nunca tive nenhuma relação que caracterize qualquer ilegalidade no exercício de minha função", declarou. Impacto para Lula Aliados de Lula avaliam que há um constrangimento com o episódio. Nos bastidores, integrantes do governo calculam os possíveis impactos à campanha, sobretudo diante da exploração política da oposição e de candidatos da chamada terceira via. Na avaliação de interlocutores do presidente, o caso aumenta a exposição de Lula durante a disputa eleitoral e pode dificultar a aproximação com o eleitorado independente. O Valor apurou, além disso, que o time de Lula está rachado em relação à melhor resposta ao episódio. Enquanto uma ala do grupo defende que Marcola seja afastado da campanha, outros sustentam que não há provas nem indícios que possam incriminar o ex-chefe de gabinete. Afirmam que ele tem meios para comprovar que se tratou de um empréstimo pessoal junto à empresária, e que não poderia ser criminalizado por uma transação de natureza particular. Auxiliar mais próximo do presidente O chefe de gabinete, função já desempenhada por Marcola, cuida da agenda presidencial, dos documentos, da logística do cerimonial e das viagens e do acervo histórico. Recebe autoridades, empresários e lideranças da sociedade civil em nome do presidente. Atende demandas dos ministros, lhes diz “sim” ou “não” e cobra pontualidade nas agendas. Administra crises, evita-as, quando possível. É o auxiliar mais próximo do presidente, o primeiro e o último a despachar diariamente com o chefe do Executivo, é quem sabe desde cedo como estão o humor e a disposição presidencial. Enquanto esteve no cargo, Marcola chegava às 7h45, e era sempre um dos últimos a sair. Marcola é sociólogo de formação, com mestrado em ciência política – ambos cursados na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), onde ganhou o apelido dos colegas. O tema da dissertação de mestrado foi a Articulação, corrente majoritária do PT, rebatizada de Construindo um Novo Brasil, após o mensalão. O ex-assessor do presidente é paulista de Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo e escolheu a cidade natal para se filiar ao PT, aos 23 anos. Começou a trajetória profissional trabalhando na Prefeitura de São Carlos, nas gestões dos petistas Newton Lima e Oswaldo Barba. Depois, foi assessor do ex-deputado estadual Simão Pedro e do agora presidente nacional do PT, Edinho Silva. Ingressou no Instituto Lula em 2015, em uma vaga aberta para auxiliar Clara Ant na agenda do ex-presidente. Assumiu a coordenação da função em meados de 2016, quando Clara afastou-se do dia a dia da instituição. Foi no instituto que se aproximou de quadros como Rui Falcão e Gilberto Carvalho, que desde então lhe dava dicas sobre a agenda presidencial. Fiel escudeiro de Lula Em abril de 2018, quando Lula foi preso, Marcola mudou-se para Curitiba e tornou-se o principal elo do petista com o mundo externo até a sua libertação em novembro de 2019. Trocava cartas e bilhetes diários com o líder petista. Lia os jornais de madrugada e redigia um “briefing” sobre o noticiário diariamente para o ex-presidente. Foram mais de 300 cartas de Lula para o assessor e 482 de Marcola para o petista. Recebia orientações políticas, transmitia recados para amigos, familiares e aliados. Entregava cartas de Lula aos respectivos destinatários e fazia chegar ao petista a correspondência enviada por aliados, amigos e apoiadores. Gravava “pen drives” com sugestões de filmes, séries e documentários para entreter o petista. Teve a ideia de gravar vídeos de análises da conjuntura feitos por nomes de referência da esquerda: o primeiro deles foi com a filósofa Marilena Chauí. Trocava dicas de leitura. Estimulado por Lula, leu “O petróleo: uma história mundial de conquistas, poder e dinheiro”, de Daniel Yergin, e releu “Brasil: uma biografia”, de Lilia Schwarcz e Heloisa Starling. Um interlocutor de Marcola diz que o período em Curitiba calcificou os laços profissionais e de amizade de Lula com o assessor. Nos meses mais difíceis da pandemia, entre 2020 e meados de 2021, Marcola e a esposa mudaram-se para uma casa vizinha à de Lula, em São Bernardo do Campo, para auxiliar o ex-presidente. Para muitos aliados, Lula vivenciou aquele período como uma “segunda prisão”, embora domiciliar, porque queria fazer política, mas estava restrito a videoconferências. Além disso, sem os direitos políticos, sentia-se isolado e assistia à movimentação de uma ala do PT colocando o “bloco de Haddad” na rua para a sucessão em 2022. O cenário mudou em março de 2021, quando uma decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), lhe devolveu a prerrogativa de se candidatar novamente. “Lula sabe quem o abandonou e quem se reaproximou depois”, diz um aliado próximo do petista. Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula — Foto: Reprodução/Facebook
Quem é Marcola, o fiel escudeiro de Lula investigado por receber dinheiro de amiga de Lulinha
Sociólogo aproximou-se do presidente em 2018, quando o petista foi preso pela Lava-Jato












