0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Plataforma P-71 em atuação no pré-sal da Bacia de Santos: reservas de petróleo aumentaram relevância do Brasil na produção global da commodity — Foto: Marcia Foletto Enquanto a produção de petróleo e gás bateu recorde em junho — 5,842 milhões de barris de óleo equivalente por dia, alta de 19,2% em relação ao mesmo mês do ano passado —, a indústria de transformação desacelerou, justamente puxada pelo segmento de fabricação de coque, derivados de petróleo e biocombustíveis, que tem peso elevado no índice (cerca de 13,5%) e perdeu força rapidamente ao longo do trimestre. Depois de crescer 13,3% na comparação interanual em abril, o setor desacelerou para 5,7% em maio e praticamente estagnou em junho, com avanço de apenas 0,5% frente ao mesmo mês de 2025 e queda de 5,9% em relação a maio. Segundo Caio Dianin, pesquisador do FGV Ibre, como esse segmento vinha sendo um dos principais responsáveis pelo bom desempenho da indústria de transformação, sua perda de ritmo reduziu de forma significativa a contribuição da manufatura para a atividade industrial e ajuda a explicar o aprofundamento da queda de 1,8% da Produção Industrial Mensal (PIM) em junho. Em maio, o indicador já havia recuado 0,2%. Dianin explica que, embora a produção de petróleo e a atividade de refino sejam naturalmente interligadas, o Brasil não dispõe de capacidade suficiente para refinar todo o petróleo que produz. Assim, como as refinarias operam próximas do limite, aumentos adicionais da produção acabam sendo direcionados à exportação de petróleo bruto, sem resultar em maior fabricação de coque e derivados. — Além disso, o petróleo bruto é um dos principais insumos da atividade de refino. Assim, períodos de alta no preço do petróleo tendem a elevar o consumo intermediário do setor, reduzindo seu valor adicionado, mesmo que o volume processado permaneça relativamente estável. Dessa forma, tanto a restrição de capacidade quanto a dinâmica dos preços ajudam a explicar por que o crescimento da indústria extrativa não se traduz, necessariamente, em um desempenho semelhante do segmento de coque e derivados, nem em uma relação proporcional entre as duas atividades — explica o pesquisador do FGV Ibre. A economista Juliana Inhaz, professora do Insper, ressalta ainda que os números sugerem que a alta do preço internacional do petróleo, impulsionada pela guerra no Oriente Médio, tornou mais atrativa a exportação do óleo bruto do que seu processamento em território nacional. — A indústria de transformação está perdendo ritmo, mas isso não representa uma contradição diante do salto da produção de petróleo. Muito provavelmente, está mais vantajoso exportar o petróleo bruto, já que as oscilações recentes mantiveram a cotação do barril em um patamar favorável às exportações. Dianin pondera, no entanto, que, se o Brasil tivesse maior capacidade de refino, seria esperado um comportamento mais sincronizado entre o crescimento da produção de petróleo e o desempenho da indústria de derivados. O pesquisador do FGV Ibre também chama a atenção para a desaceleração da indústria de coque, um segmento estratégico para a produção de coque metalúrgico e de coque de petróleo, insumos fundamentais para a siderurgia, a metalurgia e o refino. Dianin destaca que o setor é dos pilares da expansão da indústria de transformação e sua perda de fôlego reforça a percepção de que a economia brasileira entrou em uma fase de fato de desaceleração. — Não há sinais de recessão. A economia continua crescendo, embora em ritmo moderado, o que indica que o ano deve terminar no azul. Mas os dados dos dois últimos meses mostram claramente uma perda de dinamismo. A economia está esfriando. Vale lembrar que, em ano eleitoral, o segundo semestre costuma ser ainda mais lento, o que tambémpode ter efeito sobre o crescimento do PIB — afirma Juliana.