A história trágica da jovem de 17 anos, natural de Tânger, representa a situação de muitos dos mais de 800 menores de idade que, quatro dias após a entrada coletiva de migrantes em Ceuta, enfrentam um presente difícil e um futuro incerto. A jovem contou a um fotojornalista da Associated Press que ela e a família se juntaram à multidão que tentou contornar a nado uma cerca de fronteira para chegar ao território espanhol na última quinta-feira (30). Como muitos outros, buscavam melhores oportunidades. A identidade da adolescente não foi divulgada por ela ser menor de idade e estar em situação de vulnerabilidade. A menina relatou ter visto policiais espanhóis retirarem da água o corpo do irmão, de 8 anos. Ela conseguiu chegar à costa, mas se separou da mãe e passou os quatro dias seguintes sozinha. Segundo o relato, moradores locais lhe deram comida e roupas, e uma mulher a acolheu em casa para que pudesse tomar banho. Depois, procurou ajuda em um centro governamental para jovens, mas a unidade estava lotada. “Vi pessoas pisando em corpos”, disse, por meio de um tradutor, já que não fala espanhol. “Agora somos crianças pedindo esmola nas ruas.” Ela é uma das cerca de 860 crianças e adolescentes que permaneciam em Ceuta nesta segunda após a travessia, segundo autoridades locais. Jornalistas da AP viram outros menores pedindo comida. Esses menores representam uma parcela significativa dos 3 mil a 5 mil migrantes que evitaram a expulsão de Ceuta entre os cerca de 60 mil que chegaram ao enclave espanhol. Menores têm direito à proteção pela lei espanhola Pela legislação espanhola, migrantes adultos podem solicitar asilo. Caso o pedido seja negado, ficam sujeitos a procedimentos de expulsão. Em geral, é difícil que marroquinos obtenham proteção humanitária. Já menores desacompanhados de adultos devem receber proteção e assistência das autoridades espanholas. Um jornalista da AP presenciou soldados espanhóis escoltando um menino marroquino desacompanhado que chorava e implorava para não ser enviado de volta ao Marrocos. A poucos metros da fronteira, diante da pressão de moradores que afirmavam que ele era menor de idade e da presença da imprensa, um tenente-coronel do Exército espanhol interrompeu a repatriação e transferiu o garoto para a Guarda Civil. LEIA TAMBÉM O centro de acolhimento para migrantes da cidade, com capacidade para 600 pessoas, está completamente lotado. Segundo a AP, há escassez de alimentos entre os migrantes. “A estratégia é que a fome, a sede e o cansaço façam essas pessoas decidir retornar voluntariamente ao Marrocos”, afirmou o ativista de migração Ramsés Mohamed Azumik, da associação Elín. Muitos migrantes dormem ou descansam na praia e nas colinas que cercam o pequeno território espanhol. Ao longe, do outro lado do mar, está a Europa continental, destino final almejado por grande parte deles.