Sobreviventes contam como turista holandês salvou a cunhada antes de morrer e revelam falhas de segurança no passeio de barco 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O turista holandês Mark Lensink morreu durante passeio nas Cataratas do Iguaçu — Foto: Reprodução/Redes sociais Novos depoimentos dados às autoridades paranaenses revelam os detalhes do acidente com uma embarcação de turismo nas Cataratas do Iguaçu, em Foz do Iguaçu (PR), que resultou na morte do turista holandês Mark Lensink, de 25 anos, na semana passada. Segundo os relatos de sobreviventes prestados à Polícia Civil, o barco com a família holandesa foi atingido por uma grande onda pela esquerda na altura da Corredeira Tererê, virando em poucos segundos. As informações foram publicadas pelo programa Fantástico. As testemunhas afirmaram que os coletes salva-vidas fornecidos pela empresa não ajudavam a flutuar adequadamente, pois subiam pelo corpo por não possuírem fita de fixação entre as pernas. Praticante de polo aquático, Lensink conseguiu salvar a cunhada e gritou para que resgatassem sua noiva antes de desaparecer na água. A mãe das jovens foi puxada para dentro de outra embarcação que passava pelo local. O delegado Carlos Eduardo Pezzette Loro, responsável pela investigação do caso, descartou a culpa dos pilotos e informou que deve indiciar os gestores da empresa por homicídio culposo, apontando "falta de protocolos de segurança" e de orientações aos passageiros. Desespero na água e tentativa de resgate A embarcação levava seis turistas de uma mesma família holandesa — um casal, duas filhas, o namorado de uma delas e Mark, noivo da outra —, além de dois tripulantes. Em depoimento, o sogro e o concunhado de Mark descreveram momentos de pânico logo após o tombamento do barco. Por ser jogador de polo aquático e considerado o mais forte do grupo, Mark tentou ajudar os familiares a saírem de debaixo do casco. Ele conseguiu resgatar a cunhada e gritou para que salvarsem sua noiva, segundo os relatos dos sobreviventes. Essa foi a sua última fala antes de ser levado pela forte correnteza. O laudo do Instituto Médico-Legal (IML) confirmou que a causa da morte foi afogamento. Enquanto parte do grupo tentava se manter na superfície, a mãe das jovens acabou sendo resgatada por passageiros e tripulantes de outro barco de turismo que navegava pela mesma área no momento do acidente. Falhas nos coletes e ausência de orientações Um dos pontos centrais da investigação é a eficiência dos equipamentos de proteção e os procedimentos adotados no passeio. Em relato à polícia, o concunhado de Mark afirmou que não houve explicação prévia sobre o uso do colete ou sobre como agir caso a embarcação virasse. Além disso, os sobreviventes ressaltaram a dificuldade de flutuação. "Havia uma fita que prendia na cintura, mas como não prendia por baixo, entre as pernas, o colete sempre subia", relatou o sogro à Polícia Civil. "Eles tiveram uma extrema dificuldade de permanecer em cima da água. As correntezas levavam para baixo e o colete não era suficiente para mantê-los em cima da água", explicou o delegado, em entrevista ao Fantástico. Investigação e indiciamento de gestores A Polícia Civil afastou, neste primeiro momento, a responsabilidade criminal dos condutores da embarcação, avaliando que eles cumpriram as manobras e tentaram se salvar junto com a correnteza. O foco das autoridades mudou para a estrutura de segurança da empresa responsável pelo passeio. "O que nós notamos pelas testemunhas é uma falta de protocolos de segurança. Orientação sobre o que fazer quando a embarcação virar, como colocar o colete e como verificar se ele está em condições", afirmou Pezzette Loro. Com base nessas falhas, a Polícia Civil direcionará a investigação para responsabilizar os gestores da empresa por homicídio culposo (quando não há intenção de matar). O que dizem a Marinha e a empresa A Marinha do Brasil informou que a empresa estava com a documentação da embarcação e da tripulação em dia. Segundo a Capitania Fluvial do Rio Paraná, os coletes utilizados são do "Nível 3", homologados e voltados para a navegação fluvial encorpada. O gerente administrativo da empresa, Paulo Ricardo de Cordova, negou as alegações de falta de orientação. Segundo ele, os passageiros passam por briefings de segurança em diferentes etapas antes do embarque, além de contarem com sinalização visual em três idiomas. Sobre os coletes, a empresa sustentou que o modelo utilizado é projetado para manter a cabeça do usuário fora da água caso ele fique desacordado. Em relação ao histórico, a empresa já havia registrado uma colisão entre dois barcos no mesmo local em 1999, episódio que deixou sete mortos e deu origem aos protocolos vigentes até hoje. Homenagens e retorno à Holanda Antes de deixarem Foz do Iguaçu, familiares e amigos realizaram uma homenagem a Mark Lensink. Um barco levou o grupo até o Rio Iguaçu, onde foram jogadas flores na água, seguido por uma missa celebrada em uma capela local. A família viajou para São Paulo, onde aguarda a liberação dos trâmites burocráticos para fazer o traslado do corpo do jovem de volta à Holanda. Mark tinha casamento marcado para o mês de setembro.