Símbolos de brasilidade, amados de Norte a Sul do país por milhões, os caramelos nem sempre levam uma vida de pet condizente com sua fama. Que o diga Maraisa, caramela felpuda também conhecida como Raposinha, cuja matilha perambula onde o asfalto se encontra com a floresta, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. É uma vida de cão marcada por sofrimento, vulnerabilidade e mistério. Raposinha/Maraísa até faz dengo, permite um breve chamego. Mas, se insistirem muito, vai embora. Seu parceiro de bando é ainda mais arredio. Alguns o chamam de Pereba. Outros de Brutus, Filhote ou Cabeção. Com o pelo curto, branco-e-preto, porte médio e uma cabeça nem tão grande assim, ele não dá a mínima para a forma como o chamam. Se é do seu interesse, isto é, se lhe oferecem comida, atende. Caso contrário, o cão sem raça definida (SRD) cuja expressão ora remete à tristeza, ora a cansaço, ignora. Entre perigos e mistérios Eles estão entre os muitos cachorros de vida livre das periferias junto a matas. E devido à negligência dos humanos, se tornam vítimas de doenças que afetam pessoas, outros cães e animais silvestres, mostra um estudo do Campus Fiocruz Mata Atlântica (CFMA/Fiocruz). A pesquisa investiga o papel dos cães domésticos na saúde ambiental em áreas de contato entre cidade e floresta. O foco era a saúde. Mas revelou também o viver perigoso e cercado de mistérios de cães que vivem à margem da sociedade dos humanos e do que restou das florestas. Caramelos da periferia desconhecem conforto, aconchego e segurança de seus pares que vivem em casas e apartamentos a poucos metros de distância. Estão sujeitos a infecções, sejam urbanas ou silvestres, são expostos a todo tipo de violência, como espancamentos, atropelamentos, tiros, pauladas e facadas. Aparecem quando querem. Se juntam às vezes. Mas, quase via de regra, desaparecem sem registro e rastro. Nem todos os cães de vida livre que vagam pelas áreas de periferia são como Pereba e Raposinha, sem tutor. Alguns são cães comunitários. De fato, a maioria até tem tutores, mas estes os deixam à própria sorte, afirma Gabriel Cupolillo, que fez a pesquisa em seu doutorado. “Sorte” costumar significar ferimentos em conflitos com outros cães e animais silvestres, agressões de vizinhos e atropelamentos. — Com frequência, os debates sobre cães de vida livre se concentram nos impactos que causam sobre a fauna silvestre. Esses impactos precisam ser considerados. Mas acompanhar a trajetória individual desses animais mostra que eles enfrentam sofrimento e vulnerabilidade — diz Cupolillo. Ele acrescenta que os cães constroem relações únicas com as pessoas de seu território. Isso fica evidente quando se percebe que um mesmo animal recebe nomes diferentes. Os pesquisadores também os batizam para facilitar a identificação. Há Metida, Mofo, Caipora, Manco, Desgrenhado, Cabelengo, Leleco, Nick, Morena e tantos outros. São queridos por alguns, considerados pragas por outros. E invisíveis para muita gente. Cabelengo também recebe ajuda dos funcionários da Fiocruz — Foto: Custodio Coimbra O estudo realizou coleta de dados em campo e entrevistas. Cupolillo acrescenta que o objetivo também é identificar, por meio de simulações computacionais e modelos estatísticos, qual a melhor estratégia para combater a circulação de microrganismos causadores de doenças nesses cães. — A redução da circulação de patógenos em cães pode gerar impactos positivos na saúde deles, dos animais silvestres e pessoas. Os cães circulam por diferentes ambientes, interagem com diversas espécies e podem hospedar microrganismos que afetam tanto humanos quanto outros animais — destaca Cupolillo. Em dados preliminares, referentes a 58 cães, foram encontradas doenças como erliquiose (doença do carrapato), tripanossomíase, dirofilariose, anaplasmose. Mas Cupolillo observa que outras infecções de preocupação em cães de vida livre no Brasil são leishmaniose, raiva, parvovirose e doença de Lyme. — Há alguns cachorros que só conhecemos pelas imagens das armadilhas fotográficas colocadas na mata. Eles nunca saem da floresta e nem chegaram a ser testados. De onde vêm estes cães da mata? — afirma Cupolillo. Abandono e desaparecimento Pereba e Raposinha vivem no Campus Fiocruz Mata Atlântica, na área da antiga Colônia Juliano Moreira, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Junto com pelo menos outros dois cães formam uma matilha sem tutor. Os outros são Cara Amarela, parecido com uma versão turbinada de pinscher; e Costas Escuras ou Lobinho, um caramelo “sabor misto”, meio pitbull meio pastor. — Essas matilhas surgem e desaparecem depressa. Esses cães são abandonados aqui, se perdem ou chegam nem sabemos de onde. Mas não é exclusividade dessa área, se Lobinho repete nos lugares ermos em toda parte — diz a bióloga da Fiocruz Mata Atlântica Brunna Almeida. Os cães sobrevivem da caridade dos funcionários, reviram lixo das comunidades próximas ou caçam na mata, que pertence ao Maciço da Pedra Branca, o maior remanescente florestal do município. Estudos já mostraram que o cão doméstico se tornou um dos maiores predadores de animais silvestres nas florestas brasileiras, devido justamente à negligência dos humanos. Cara Amarela, por exemplo, costuma perseguir quem entra nas trilhas da floresta, “seu” território de caça. A matilha se formou aos poucos. Alguns cães foram aceitos, outros expulsos. Nenhum dura muito. Cupolillo diz que, em média, a cada seis meses cerca de um terço dos cães de rua desaparece e novos entram na população. — A maioria morre cedo e, mesmo quando têm tutores, estes muitas vezes não fazem ideia do que aconteceu. Simplesmente dizem que o cachorro sumiu. Esses cachorros têm uma vida difícil. Também, em sua maioria, não são vistos como pets, mas animais de função utilitária, para guarda e alarme — diz Cupolillo. O fim de Maiara e Maraísa Raposinha, por exemplo, praticamente deixou de ser chamada de Maraisa, depois que Maiara, sua irmã com que chegara ao campus e formava uma dupla inseparável, morreu. Também foi o caso de Cara Preta, quase idêntico ao irmão Cara Amarela. Mas, Cara Preta desapareceu, ninguém sabe por que. Segundo Almeida, outro integrante eventual da matilha era Sorriso, muito parecido com Costas Escuras/Lobinho, mas menos desconfiado. Sorriso tinha tutor. E foi morto, segundo moradores, por gente que queria se vingar de seu tutor. Antes da atual matilha, havia outra, hoje desfeita. Cupolillo lembra com carinho das irmãs Serelepe e Manchas, caramelas-raiz, de cor amarelo claro, quase idênticas. Eram dóceis e medrosas. Mas não escaparam do destino da maioria desses cães de rua. Manchas perdeu parte de uma orelha ao ser atropelada por moto. Serelepe ficou manca num acidente do mesmo tipo. Por fim, ambas desapareceram, mas só um corpo, o de Serelepe, foi encontrado. Os outros cachorros que integravam o grupo das irmãs igualmente desapareceram, à exceção foi Costas Escuras, que passou um tempo magérrimo, mas se recuperou. Hoje em dia, Costas Escuras está manco, mas se juntou a Cara Amarela, Raposinha e Pereba e formou o novo grupo. — A vida desses animais é muito mais dinâmica e complexa do que normalmente imaginamos — diz Cupolillo. Em busca de uma chance para viver A pesquisa se ateve às imediações do campus, mas Cupolillo observa que a vida dura dos cães é um cenário recorrente Brasil afora. Por isso mesmo, os pesquisadores buscam uma solução que não evitará o abandono, mas poderá reduzir a circulação de doenças. Segundo instituições de proteção animal, há cerca de 20 milhões de cães abandonados no Brasil. E a conta não considera aqueles que têm tutor, mas são deixados soltos, para se virarem sozinhos num mundo que lhes é hostil. A matilha do campus da Fiocruz, por exemplo, foi devidamente vacinada e castrada, mas é como enxugar gelo porque rapidamente aparecem novos cães, abandonados ou errantes. — Vacinar sem planejamento não adianta nada. O ideal é a combinação de castração, adoção e vacinação. Mas a rotatividade desses cachorros é tão grande que a vacinação em escala é impossível. Por isso, buscamos soluções — salienta o pesquisador.