Eu estava no banheiro de um bistrô, a poucos metros da Torre Eiffel. Um daqueles toaletes com duas cabines e um espaço comum para pia e espelho. Me encontrava num dos espaços fechados, fazendo aquelas coisas que fazemos a mando do aparelho digestivo.
De repente, ouvi o ranger da porta, uma pessoa entrando. Pelas vozes e pelos sotaques, concluí ser uma mulher e uma menina de uns sete ou oito anos, ambas estadunidenses. Discutiam. A mãe queria que ela vestisse um certo traje, mas a garota se recusou, argumentando que a roupa pinicava e o sapato doía.
A mãe seguiu pedindo. Primeiro com delicadeza: você vai ficar linda. Depois com tom de ameaça: se não vestir agora, não usa o celular. Ouvi um breve silêncio, depois o barulho do que julguei ser um zíper. Agora, os sapatos, a mãe ordenou. A menina disse que os sapatos não. Queria brincar e correr, e com aquela "porcaria" não dava.
Eu já havia concluído minhas abluções mas, antes de me levantar, estiquei o tronco e olhei por baixo da porta, a fim de ver, com meus olhos anônimos, que "porcaria" era aquela. Entrevi um par de sandálias douradas de saltinho, colocadas na frente de dois pés pequenos que se tensionavam como lábios se tensionariam na frente de uma colher de óleo de rícino.







