Guerra não é motivo de orgulho moral e cívico para país nenhum. Bem o sabem os argentinos, modestos em feitos armados, afora a luta pela independência. Nas duas vezes contra o Brasil (Guerra Cisplatina e do Prata), foram derrotados. Depois, ao lado dos brasileiros e uruguaios na Tríplice Aliança contra o Paraguai, foram caso invulgar de indisciplina militar, desertando das fileiras de combate. Reza a crônica que, após a desastrosa batalha de Curupaiti, às vezes tinham de ser amarrados para não fugirem.
É relevante, porém, o registro histórico de sua vida cultural. Em seguida ao apogeu econômico (1880-1914), quando a Argentina se tornou uma das economias mais prósperas do mundo, sobreveio o cultural (1920-1950), que fez de Buenos Aires um dos principais centros de letras do mundo hispânico. Disso davam prova escritores de projeção internacional como Silvina Ocampo e Jorge Luis Borges, além de universidades, editoras e livrarias. São detentores de cinco Prêmios Nobel. "Paris da América do Sul" era epíteto da capital portenha.
É glória passada. Mas parece persistir, embora discutível, o conceito de caráter nacional, por uma espécie de "síndrome aspiracional", se não tanto em setores mais ponderados, pelo menos em estratos médios, que passaram a sentir na pele os efeitos da decadência econômica e das convulsões do caudilhismo peronista desde a segunda metade do século 20. A história tem fundo duplo, o mito, que pode emergir nas crises, distorcido por ideologias nacionalistas. O mito do gaúcho, personagem central da cultura pratense, hábil em "peleas" de faca, ganhou vezo identitário nacional.









