Você já se perguntou por que cantar no chuveiro é tão bom? Ou por que aumentar o volume do rádio no meio de um engarrafamento e cantar em voz alta pode melhorar o seu humor? Cantar tem efeitos mensuráveis ​​no corpo e no cérebro, seja você cantando sozinho, em harmonia num coral ou com os amigos num karaokê. Os cientistas têm se interessado por esse fenômeno da "euforia do cantor" há muitos anos. E um padrão consistente está surgindo das evidências: cantar pode estimular seus hormônios, acalmar seu sistema nervoso, melhorar seu sistema imunológico e aumentar seu sentimento de pertencimento, tudo ao mesmo tempo. Uma das descobertas mais consistentes é que cantar demonstrou reduzir o cortisol, o hormônio mais frequentemente associado ao estresse. Diversos estudos, utilizando amostras de saliva coletadas antes e depois de sessões de canto, constataram quedas significativas nos níveis de cortisol tanto no canto solo quanto no canto em grupo, como em ensaios de coral. Parte da explicação é biomecânica. O ato de cantar requer uma expiração longa e controlada, semelhante a um padrão respiratório (chamado respiração pranayâmica) que ativa o nervo vago. O nervo vago, que se estende do tronco cerebral até o abdômen, é a principal via neural do sistema nervoso parassimpático. Ele é responsável por diminuir a frequência cardíaca, baixar a pressão arterial e auxiliar na digestão. Por isso, muitas vezes é chamado de via de "repouso e digestão", que nos acalma quando ativada, em contraste com o sistema simpático, que ativa a resposta de "luta ou fuga" quando estamos estressados. Uma análise detalhada desse processo respiratório constatou que a respiração lenta com expiração prolongada estimula de forma confiável o nervo vago, levando o corpo de uma resposta de estresse para um estado mais calmo. Você não precisa entrar para um coral para esta parte. Funciona tanto se você estiver cantando sozinho no carro depois de uma longa semana de trabalho, quanto se estiver praticando sua música de karaokê no chuveiro. É um ato analgésico Cantar também pode desencadear a liberação de endorfinas, os analgésicos naturais do corpo. Um estudo mediu esse efeito indiretamente, usando testes de limiar da dor. Os pesquisadores acreditavam que uma maior tolerância à dor após uma atividade poderia sugerir uma maior liberação de endorfinas. Em diversos experimentos, incluindo canto ativo, dança e percussão, eles descobriram que todas as atividades aumentavam o limiar da dor dos participantes, enquanto ouvir música passivamente não tinha o mesmo efeito. A ocitocina, o hormônio associado à formação de laços e à confiança, também faz parte da história, embora as evidências nesse sentido sejam menos conclusivas. Alguns estudos descobriram que os níveis de ocitocina aumentam após o canto em grupo (especialmente se a pessoa for boa nisso). Outros descobriram que eles diminuem após o canto em grupo. Outro estudo concluiu que os dados não são suficientemente claros e que o efeito do canto na oxitocina pode depender do grau de intimidade social e do baixo nível de estresse do ambiente. O que é bastante consistente, no entanto, é que o humor melhora e as pessoas relatam se sentir mais próximas umas das outras depois de cantarem juntas – mesmo quando os efeitos bioquímicos subjacentes são variados. Cantar pode melhorar o seu sistema imunológico Além dos hormônios relacionados ao humor e ao estresse, há evidências crescentes de que cantar também pode ter um efeito mensurável no sistema imunológico, que combate infecções. Um pequeno estudo analisou sessões de canto com pacientes com câncer e seus cuidadores. Constatou-se que não apenas o humor dos participantes melhorou após o canto – incluindo reduções no cortisol – como suas amostras de saliva também mostraram um aumento nos níveis de citocinas. As citocinas são mensageiros químicos que desempenham um papel crucial no sistema imunológico, controlando a inflamação. Sabe-se que níveis cronicamente elevados de cortisol suprimem a atividade imunológica, portanto, se o cortisol diminuir após o canto, isso também provavelmente terá um efeito positivo na função imunológica. Os autores deste estudo enfatizam que se trata de evidências preliminares, que necessitam de estudos de acompanhamento a longo prazo. Benefícios para o seu cérebro e senso de pertencimento Então, importa como e onde você canta? Os efeitos relaxantes e relacionados à respiração proporcionados pelo canto parecem se manter tanto individualmente quanto em grupo. Mas cantar em grupo é imbatível quando se trata de fortalecer os laços sociais. Um amplo estudo randomizado com coros comunitários de idosos constatou que seis meses de canto em grupo reduziram significativamente a solidão e melhoraram o humor, em comparação com um grupo de controle. Outros estudos descobriram que cantar também pode ativar simultaneamente diferentes regiões do cérebro envolvidas na audição, linguagem, emoções e habilidades motoras. Isso pode melhorar a conectividade cerebral e levar a um envelhecimento mais saudável. Conclusão Você provavelmente já sabia que cantar faz bem. Mas não é apenas uma distração agradável. Pode reduzir o estresse, acalmar o sistema nervoso e fazer você se sentir mais próximo das pessoas ao seu redor. Mas se você preferir cantar sozinho no chuveiro ou no carro, isso também traz muitos dos mesmos benefícios – então vá em frente e cante à vontade. *Kathleen Mikkelsen é Professor de Biomedicina na Universidade Victoria.