A ignorância das fronteiras permite às crianças as formas mais autênticas de poesia involuntária. Sabem que o mundo ainda não decidiu onde termina uma coisa e começa outra 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Crianças brincam em oficina literária na Flip, em Paraty — Foto: Alexandre Cassiano Quando tinha 4 ou 5 anos, a minha filha Kianda subiu numa balança, deu uma olhada nos números no visor e proclamou, eufórica: — Papai, estou pesando um metro e 36 segundos. Se um adulto escrevesse: “Naquele tempo eu pesava/ um metro e trinta e seis segundos/ pesava um voo de ave/ pesava o hálito ardente da aventura — enquanto os leões corriam na savana a cento e noventa quilos por hora” (inventei agora), seria poesia, ainda que medíocre, e talvez alguns leitores passassem horas discutindo o simbolismo de tais versos. Um poeta exercita-se a vida inteira para regressar ao estado de ignorância luminosa a que costumamos chamar meninice. Esforça-se por dissolver as fronteiras mentais que os anos passados nos bancos da escola ergueram dentro dele. Pouco a pouco reaprende a dobrar a luz dos arco-íris para que caiba inteira no bolso das calças — e não descolore. Reaprende a escutar o verde cheiro da chuva; a descalçar o ruído dos motores quando entra em casa; a traduzir o latido dos cães para o demorado idioma das orquídeas; a medir a velocidade com que certos sentimentos se evaporam; reaprende a contar em gargalhadas quantos dias faltam para terminar o verão, e que a Lua muda de forma para caber dentro das diferentes noites. Chamamos metáfora a esse esforço desesperado para falar a língua que sabíamos antes de aprender a dar nome às coisas. Cada metáfora bem conseguida corrige um erro da realidade. Jorge Luis Borges acreditava que existem apenas umas poucas metáforas verdadeiras, as quais vamos reencontrando e repetindo ao longo dos séculos. Porém, antes de herdarem esse pequeno patrimônio da Humanidade, as crianças inventam outras, quase sempre mais puras, mais ousadas, com a mesma naturalidade com que uma mangueira produz sombra, repouso e mangas. É a ignorância das fronteiras que lhes permite praticar as formas mais autênticas de poesia involuntária. Elas não violam apenas a gramática; violam a ontologia que nós, adultos, aprendemos a respeitar. Sabem, por instinto, que o mundo ainda não decidiu onde termina uma coisa e começa outra. As boas metáforas não aproximam duas realidades distantes; o que fazem é recordar-nos que elas nunca estiveram separadas. Gosto de jogar às definições com a Kianda, que agora tem 8 anos. — Filha, define flor. Ela pensa um pouco e responde: — Flor é uma manifestação colorida da natureza. Neste jogo interessa-nos a definição do dicionário, claro. Mas interessa-nos ainda mais a definição da poesia. Crescer consiste em aprender a separar aquilo que as crianças ainda sabem misturar. Dizemos-lhes que os metros medem distâncias, os segundos o tempo e as balanças o peso. Elas escutam-nos com paciência. Depois sobem para uma balança, olham para os números no visor e anunciam, felizes, que pesam um metro e 36 segundos. E durante a voraz eternidade de uma epifania é o resto do mundo — do mundo adulto — que está completamente equivocado.
Quando minha filha media um metro e 36 segundos
A ignorância das fronteiras permite às crianças as formas mais autênticas de poesia involuntária. Sabem que o mundo ainda não decidiu onde termina uma coisa e começa outra






