Grupo Gennius conseguiu na Justiça proteção contra cobrança de credores 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Primeira loja foi aberta em 1988, mas preço baixo e agilidade se tornaram padrão no segmento de comida rápida — Foto: Divulgação Dono de campanhas promocionais agressivas e que marcaram gerações, como as Bib’sfihas por R$ 0,10 nos anos 1990 e 2000 e as mais recentes coxinhas por R$ 1,99, o grupo Gennius, das redes Habib’s e Ragazzo, enfrenta agora um cenário turbulento. Com R$ 312 milhões em dívidas, a rede de fast-food conseguiu na Justiça uma proteção contra a cobrança de credores. São muitos os fatores que ajudam a explicar a crise vivida pelo grupo, dono ainda da churrascaria Tendall Grill. Pesam na conta, segundo especialistas, as taxas de juros, que pressionam as finanças da empresa, o endividamento, que sufoca o orçamento das famílias, as mudanças de comportamento de consumo e a concorrência acirrada no setor. CEO da consultoria para foodservice Tanjerin, Cristina Souza chama atenção justamente para a estratégia de preço do grupo. Com pouca margem, empresas como Habib’s e Ragazzo acabam mais sensíveis às variações de custos de insumos como o trigo e a carne, cujos preços são impactados por problemas do clima e por conflitos internacionais. Ao mesmo tempo, há a pressão causada pelo acirramento da concorrência, que cresceu de maneira expressiva nos últimos anos acompanhando a aceleração do delivery. — Na disputa pelos clientes, as plataformas de delivery trazem muitos cupons, e isso pressiona as empresas do setor. Você vende um produto por R$ 10, mas recebe 20%, 25% ou até 30% menos por causa das taxas. As margens vão ficando cada vez mais apertadas — detalha ela. Habib's e Ragazo, redes sob guarda chuva da Gennius — Foto: Reprodução / Habib's Cristina pondera que o grupo Gennius não deixou de se modernizar. A empresa foi uma das primeiras a investir em polos de produção, que abasteciam as lojas, e em centrais telefônicas de entregas. Aliás, uma das famosas campanhas da marca era a de entrega em até 28 minutos, o que acabou suspenso com a “Lei do Habib’s”, que proibiu empresas de estimularem a velocidade dos entregadores para evitar riscos aos motoboys. ‘Adversidades econômicas’ Preço baixo e agilidade, porém, acabaram se tornando padrão no setor e deixaram de ser um diferencial, diz: — Se antigamente o apelo era a esfiha muito barata e a entrega veloz, hoje existem outras opções com essa mesma proposta. Surgem novos concorrentes o tempo todo, e o consumidor experimenta facilmente outra marca. Outro impacto sentido pela empresa é o orçamento mais pressionado das famílias, principalmente as das classes C, D e E, público-alvo do grupo. O endividamento alcançou 81,6% das famílias brasileiras em junho, segundo pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC). O percentual alcança 84,7% no caso das famílias mais pobres, que ganham até três salários mínimos. — O Habib’s continua vendendo comida muito barata. Conquistou um público de tíquete baixo, mas que também tem à disposição muitos outros locais para comer, como lanchonetes informais de bairro. Diferentemente de um McDonald’s, que cobra R$ 40 por combo, no Habib’s você come por R$ 15, uma operação muito exposta à inflação, já que o público-alvo é o mais afetado pela alta nos preços — diz Jean Pontara, especialista no mercado de foodservice e sócio da consultoria J. Pontara. A primeira loja do Habib’s foi aberta pelo empresário Alberto Saraiva em 1988, 15 anos depois de ele ter assumido a padaria da família. A unidade, inaugurada no Alto da Lapa, bairro da Zona Oeste de São Paulo, segue em atividade. Quatro anos depois, a empresa começou a se expandir através do sistema de franquias. Antes, em 1991, o empresário investiu na Ragazzo. A marca cresceu via franquias a partir de 2006. Alegando ter enfrentado um “conjunto de adversidades econômicas e financeiras que impactaram sua estrutura de capital e solidez”, o grupo Gennius foi à Justiça pedir proteção contra credores no fim de junho. No último dia 1º, o juiz Jomar Juarez Amorim, da 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, concedeu parcialmente a proteção cautelar a 174 sociedades do grupo e de seus administradores por 60 dias, “em prol da preservação da empresa e da maximização dos ativos do devedor”. Se fossem adiante, as execuções e expropriações poderiam causar “liquidação desordenada”. As dívidas somam R$ 312 milhões, sendo mais de R$ 230 milhões em débitos com instituições financeiras como os bancos Bradesco, Itaú e Inter. Entra na conta uma longa lista de credores, como a fornecedora de brinquedos Bamko (R$ 4,3 milhões), a JBS (R$ 2,6 milhões), a fornecedora de vegetais De Marchi (R$ 1,7 milhão), a Bunge (R$ 284 mil) e a Ambev (R$ 126 mil). Há ainda débitos com empresas de tecnologia e serviços como Oracle, Totvs, Google, Uber e Netflix. Em petição levada à Justiça no dia 22, os advogados do Habib’s argumentaram que, apesar da cautelar, uma loja da rede em São Paulo chegou a ter o fornecimento de água cortado por contas em atraso. O serviço acabou sendo retomado após “negociação administrativa”, diz documento a que O GLOBO teve acesso. Com a decisão judicial, o grupo está blindado da execução das dívidas pelos credores até o início de setembro. A proteção pedida por empresas em crise geralmente antecede um processo de recuperação. — A cautelar não significa, necessariamente, que haverá um pedido futuro de recuperação judicial ou extrajudicial, mas é uma possibilidade, a depender das negociações com os credores — observa o advogado Felipe Corrêa, sócio do Basilio Advogados. Em nota, o grupo Gennius afirmou que ingressou com pedido de medida cautelar com o objetivo de negociar os passivos financeiros acumulados durante “o período desafiador dos últimos anos”. “Todas as lojas do Grupo continuam funcionando normalmente em todo o país, mantendo o mesmo padrão de qualidade e atendimento aos nossos clientes”, diz o texto.
Da esfiha a R$ 0,10 a dívidas de R$ 300 milhões: entenda a crise da empresa por trás do Habib’s
Grupo Gennius conseguiu na Justiça proteção contra cobrança de credores







