Alex Colombini vive nos EUA há 21 anos, tem três filhos americanos e mantém negócios no país, mas status migratório irregular o tornou alvo de agência anti-imigração dos EUA 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Empresário brasileiro Alex Columbini ficou detido por 11 dias em instalação do ICE em Boston — Foto: Arquivo pessoal Há 21 anos morando nos EUA, o empresário brasileiro Alex Colombini repetia um caminho que é parte de sua rotina, em 16 de julho. Dono de um jornal voltado à comunidade brasileira em Boston, o Jornal dos Sports, o baiano de Jequié se preparava para mais um voo do Aeroporto Internacional de Boston-Logan, com destino a Orlando, onde mora com a esposa e três filhos — todos nascidos em solo americano. Ele só chegou em casa 11 dias depois. O empresário de 47 anos foi detido por um agente à paisana do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, na sigla em inglês) assim que passou pelo raio-x no setor de embarque do aeroporto — em uma ação que reúne os elementos de um novo perfil de operação percebido na agência anti-imigração criada pelo presidente americano, Donald Trump, em que residentes com inconsistências em seus status imigratórios têm sido detidos ao embarcar ou desembarcar de viagens aéreas, ainda nos aeroportos. — Quando eu passei pelo raio-x e ele olhou para mim, eu tomei um susto, pensei que era uma brincadeira. Ele se aproximou e me chamou pelo nome — disse Colombini, em entrevista ao GLOBO. — Ele disse que era do ICE e disse para eu acompanhá-lo. Eu até falei que não podia, que eu tinha um voo, mas ele insistiu que eu tinha que ir. Quando saímos do aeroporto, já tinha um carro preto me esperando. Documentos obtidos pelo New York Times apontam que dezenas de pessoas com vistos vencidos, incluindo cônjuges de cidadãos americanos e pessoas com pedidos de renovação de visto de trabalho ou de residência permanente em processamento, foram detidas em ao menos 15 aeroportos nas últimas semanas. As ações, em geral, foram conduzidas por agentes à paisana, e as abordagens variaram entre ações discretas, como a descrita pelo brasileiro, e outras ostensivas. Alex Columbini tem atuação na mídia americana, na Flórida e em Massachussets — Foto: Arquivo pessoal O foco nos aeroportos indica um aprofundamento da cooperação entre o ICE e a Administração de Segurança nos Transportes (TSA, na sigla em inglês), em comparação ao que se tinha conhecimento até o momento. A agência já tinha utilizado dados fornecidos por companhias aérea à TSA para prender pessoas com ordens de deportação em aeroportos. O alcance parece ter sido ampliado neste momento, chegando a pessoas sem antecedentes criminais, e com pretensões legítimas de prolongar o período no país. Colombini entrou no país com um visto de turista, mas nunca retornou ao Brasil. Em solo americano, teve três filhos com a esposa, e prosperou. Além do jornal em Boston, do qual é proprietário, ele atua no departamento comercial de uma rádio em Orlando, também voltada ao público brasileiro, e faz parte da Câmara de Dirigentes Lojistas e Empreendedores em Massachusetts. Ele alega ter um pedido de regularização em curso, mas que nunca foi julgado. — A política migratória atual deixou de estar concentrada apenas em pessoas que cometeram crimes — explicou ao GLOBO o advogado brasileiro André Linhares, presidente da LIDE Orlando que há 13 anos atua com direito de imigração nos EUA. — Durante o período eleitoral, o discurso [de Trump] era de priorizar a deportação de imigrantes com antecedentes criminais graves. No entanto, na prática, as operações têm alcançado também pessoas sem qualquer histórico criminal. Final da Copa em detenção Colombini foi levado do aeroporto para um centro de detenções do ICE em Burlington, nos arredores de Boston. O local foi descrito por ele como "um tipo de delegacia", onde foram realizados processos burocráticos e o explicaram o motivo de sua prisão. Ele afirma não ter sido tratado com truculência, e que teve direito a contatar a família por telefone. Por intermédio da esposa, seus advogados foram alertados da situação e entraram com um pedido de Habeas corpus e de liberdade condicional sob fiança. O empresário atribui à intervenção rápida dos advogados o fato de ter permanecido no estado em que mantém seus negócios e conexões. O destino foi o Centro Correcional do Condado de Plymouth, onde permaneceu até a fiança ser estabelecida e paga. Ele lembra que os companheiros de cela foram dois brasileiros e um equatoriano — a quem definiu como "trabalhadores e pais de família" — e disse não ter se deparado com nenhum criminoso, apenas pessoas com problema de status migratório. — Não é como aquelas prisões de filme: um ambiente hostil, sujo, perigoso, você se escondendo de assassino para não morrer — afirmou Colombini. — O local não era ruim. No meio do caos, podemos dizer até que era confortável. Tinha água quente, televisão, sofá para sentar. Eu vi a final da Copa lá. Agentes do ICE são enviados para patrulhas em aeroportos dos EUA 1 de 7 Agentes no embarque do Aeroporto Internacional Hartsfield-Jackson de Atlanta — Foto: John Falchetto / AFP 2 de 7 Agentes no Aeroporto de LaGuardia, em Nova Iorque — Foto: TIMOTHY A. CLARY / AF X de 7 Publicidade 7 fotos 3 de 7 Agentes no Aeroporto de LaGuardia, em Nova Iorque — Foto: TIMOTHY A.CLARY / AFP 4 de 7 Passageiros aguardam no Aeroporto Internacional de Newark, em Nova Jersey — Foto: kena betancur / AFP X de 7 Publicidade 5 de 7 Passageiros aguardam no Aeroporto Internacional de Newark, em Nova Jersey — Foto: kena betancur / AFP 6 de 7 Agentes do ICE aturão em aeroportos dos EUA a partir de segunda-feira, com o objetivo de aliviar o congestionamento crescente nas inspeções de segurança, segundo autoridades. — Foto: John Falchetto / AFP X de 7 Publicidade 7 de 7 Agente no Aeroporto Internacional John F. Kennedy, em Nova Iorque — Foto: CHARLY TRIBALLEAU / AFP Trump anunciou no domingo envio do ICE aos principais aeroportos 'Tristeza e revolta' Com uma vida pública dentro da comunidade brasileira em dois estados, Columbini disse ter recebido demonstrações de apoio importantes. Entre elas, cartas de recomendação de três deputados do estado de Massachussets, de origem brasileira, e mesmo da governadora do Estado. Consciente de que seus laços e o acesso a advogados de qualidade o ajudaram no momento de dificuldade, ele revela frustração com a situação vivenciada pela comunidade migrante no país. — É um sentimento de tristeza, de revolta. A grande maioria [das pessoas detidas] não é criminosa. A maioria está aqui para trabalhar, não para cometer crimes — disse. — O problema é que o fato de estar fora de status, no governo Trump já se considera um crime. Diante do endurecimento da aplicação das leis imigratórias, Linhares afirmou que as recomendações a clientes em ajuste de status se tornaram mais rigorosas. O advogado afirma que cada caso precisa de uma avaliação individual, mas que, no cenário atual, a recomendação é aguardar um ambiente de maior segurança jurídica. — A orientação é de cautela. Pessoas que estejam em uma situação migratória mais sensível, ou com processos de regularização ainda pendentes, devem evitar deslocamentos desnecessários, especialmente viagens longas ou entre estados, já que isso pode aumentar as chances de serem submetidas a fiscalizações mais rigorosas — disse. — Trata-se de uma medida preventiva para diminuir o risco de abordagens e eventuais detenções durante esse período de maior intensificação das ações de fiscalização. Com residência em Orlando e negócios em Boston, é provável que Columbini tenha que voltar a viajar novamente. Não está claro se ele retornará à mira do ICE. — Os advogados estão buscando alguns mecanismos legais — contou o empresário. — Meus filhos nasceram aqui, eu estou aqui há mais de 10 anos... Como estou livre agora, vamos tentar uma legalização.
Empresário brasileiro detido pelo ICE no aeroporto de Boston ficou 11 dias preso: 'Vi a final da Copa lá'
Alex Colombini vive nos EUA há 21 anos, tem três filhos americanos e mantém negócios no país, mas status migratório irregular o tornou alvo de agência anti-imigração dos EUA









