Estreia da coluna em que a designer Andria Tagliari entrevista nomes do mercado de luxo no Brasil e nos Estados Unidos. Nesta edição, o empresário à frente da Artefacto discute o que faz uma marca atravessar cinquenta anos de tendências sem perder identidade: propósito acima de moda, a engenharia que o cliente não vê e o momento em que o design brasileiro deixou de ser exótico para ser desejado. Andria Tagliari entrevista Paulo Bacchi, que consolidou sua posição no mercado americano valorizando a estética. — Foto: Arquivo Pessoal Trabalho com projetos residenciais de alto padrão na Flórida, boa parte deles para famílias brasileiras que decidiram viver entre dois países. Nesse mercado, a pergunta que mais escuto não é sobre estilo. É sobre permanência: o que, em um projeto, ainda vai fazer sentido daqui a dez ou vinte anos, e o que vai envelhecer junto com a tendência que o originou. É uma pergunta econômica antes de ser estética, porque a resposta define quanto de um investimento resiste ao tempo. Abro a Tagliari Select com Paulo Bacchi porque poucas trajetórias no design brasileiro respondem a essa pergunta com tanta autoridade. À frente da Artefacto, ele conduziu a marca por cinco décadas, atravessou eras inteiras de tendências e levou o design brasileiro a um dos mercados mais competitivos do mundo sem trocar a identidade pelo apelo do momento. A conversa a seguir trata do que sustenta uma marca, e um projeto, quando o ciclo de novidade encurta a cada ano. A Artefacto atravessou cinco décadas e diferentes eras do design, enquanto inúmeras tendências desapareceram. O que uma peça precisa ter para que você acredite que ela ainda estará em uma casa na próxima década, quando quase tudo hoje nasce para ser substituído? Um móvel atravessa o tempo quando nasce de um propósito e não de uma tendência. O design precisa emocionar, mas também precisa ser funcional, confortável e bem construído. Acredito muito na atemporalidade das proporções, na escolha criteriosa dos materiais e na qualidade da execução. Quando esses elementos caminham juntos, o móvel deixa de ser apenas um objeto e passa a fazer parte da história das pessoas. Na Artefacto, sempre pensamos em criar peças que permaneçam relevantes por muitos anos, porque entendemos que o verdadeiro valor está na permanência. Paulo Bacchi e filhos pensam em peças que sejam atemporais e permanentes. — Foto: Divulgação Existe uma confusão recorrente entre luxo e ostentação. Onde você acredita que o mercado ainda erra? Existe uma diferença importante entre chamar atenção e criar valor. A ostentação busca impacto imediato, enquanto o alto padrão está relacionado à autenticidade, ao cuidado com os detalhes e à qualidade que permanece com o tempo. Cada geração vive esse debate de uma maneira diferente, mas acredito que o consumidor está cada vez mais consciente. Hoje existe uma valorização muito maior daquilo que é genuíno, bem feito e pensado para durar. Qual decisão invisível, aquela que o cliente raramente percebe, mais define a qualidade de uma peça ou de um ambiente? A engenharia da peça. O consumidor observa o acabamento, mas existe um enorme trabalho invisível relacionado à estrutura, à ergonomia, aos encaixes, ao equilíbrio das proporções e aos processos produtivos. É justamente esse cuidado que faz um móvel permanecer confortável, estável e bonito mesmo após muitos anos de uso. São detalhes que nem sempre aparecem aos olhos, mas fazem toda a diferença na experiência. A Artefacto construiu uma presença sólida nos Estados Unidos. Em que momento você percebeu que o design brasileiro deixava de ser visto como exótico para se tornar desejado? Esse movimento aconteceu quando o design brasileiro passou a valorizar sua própria identidade. Durante muito tempo existiu uma busca por referências externas, mas percebemos que aquilo que realmente despertava interesse internacional era justamente nossa autenticidade. O Brasil possui uma riqueza cultural, criativa e material muito singular. Quando assumimos essa identidade com confiança, deixamos de ser vistos como algo exótico e passamos a ser reconhecidos pela qualidade e originalidade do nosso design. O cliente de alto padrão americano e o brasileiro: o que os diferencia no momento da decisão final? São perfis diferentes, mas ambos extremamente exigentes. O consumidor brasileiro costuma estabelecer uma relação mais emocional com o design e valoriza bastante a personalização. O americano tende a analisar funcionalidade, desempenho e praticidade de forma muito objetiva. Em comum, existe uma busca crescente por qualidade, conforto e produtos capazes de atravessar o tempo. O que define o estado da arte do alto padrão hoje? E o que o definia há dez anos, mas já não o define mais? Hoje, o estado da arte está na personalização, na qualidade dos materiais, na integração entre arquitetura, design e arte e na criação de espaços que privilegiam conforto e bem-estar. Há alguns anos, havia uma valorização maior do impacto visual e da imponência. Atualmente, a sofisticação está muito mais relacionada ao equilíbrio, à autenticidade e à experiência proporcionada pelos ambientes. A Artefacto nasceu da visão do seu fundador, Albino Bacchi. Sob a sua liderança, expandiu-se internacionalmente. Agora, Pietro e Bruno Bacchi representam a terceira geração. Como transformar um legado em plataforma para as próximas gerações, permitindo que cada uma deixe sua própria marca sem perder a essência da empresa? O maior ensinamento que recebi do meu pai foi que uma empresa precisa preservar seus valores enquanto evolui continuamente. Cada geração enfrenta desafios diferentes e traz novas perspectivas, mas a essência permanece a mesma: respeito ao cliente, busca permanente pela qualidade, valorização do design e visão de longo prazo. Meu papel foi ampliar esse legado por meio da internacionalização e da consolidação da marca. Agora, a terceira geração chega preparada para contribuir com novas ideias, novas tecnologias e novas formas de relacionamento, mantendo vivos os princípios que sempre orientaram a Artefacto. O que fica Há uma leitura de mercado embutida nessas respostas que vale dizer de forma direta: no alto padrão, o que se compra não é acabamento, é decisão. A engenharia que ninguém vê, a proporção que ninguém mede e a coerência entre arquitetura, mobiliário e modo de viver são o que separa um projeto que sustenta valor de um projeto que apenas impressiona no dia da entrega. É por isso que insisto com meus clientes que, em imóvel de alto padrão, design é linha de investimento, não de decoração. A segunda lição é sobre identidade. A Artefacto não venceu nos Estados Unidos apesar de ser brasileira, venceu quando assumiu que era. Isso vale para marcas e vale para profissionais: o mercado americano de luxo não premia quem imita o repertório local, premia quem chega com repertório próprio e execução impecável. Perguntei ao Bacchi como ele gostaria que a Artefacto fosse lembrada daqui a cinquenta anos. Gostaria que a Artefacto fosse lembrada como uma empresa brasileira que acreditou no poder do design para transformar a forma como as pessoas vivem. Uma marca que valorizou a criatividade nacional, investiu em qualidade, construiu relações duradouras e levou o design brasileiro para o mundo sem perder sua identidade. Permanência, aqui, não é nostalgia. É estratégia. Andria Tagliari assina projetos residenciais de alto padrão nos Estados Unidos pela Tagliari Design e faz a curadoria de mobiliário brasileiro para o mercado americano pela Tagliari Signature. A Tagliari Select é publicada a cada 21 dias.
Tagliari Select: Paulo Bacchi e o que sustenta uma marca de alto padrão por cinco décadas
Estreia da coluna em que a designer Andria Tagliari entrevista nomes do mercado de luxo no Brasil e nos Estados Unidos. Nesta edição, o empresário à frente da Artefacto discute o que faz uma marca atravessar cinquenta anos de tendências sem perder identidade: propósito acima de moda, a engenharia que o cliente não vê e o momento em que o design brasileiro deixou de ser exótico para ser desejado.







