Meteorologistas independentes alertaram seis horas antes sobre ventos fortes que avançavam do litoral de São Paulo para o Rio. Defesa Civil enviou mensagem para celulares cadastrados às 16h43 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Ventos de mais de 100 km/h provocam caos e pelo menos cinco mortes no Rio e em São Paulo - Rua General Polidoro em frente ao Hospital Pró Cardíaco. Atingiu também dois carros que estavam no estacionamento no hospital. — Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo O vendaval que atingiu o Rio na tarde de quarta-feira pegou milhares de pessoas de surpresa e deixou um rastro de destruição. Diante da intensidade do fenômeno, uma pergunta passou a mobilizar especialistas e autoridades: por que a população não recebeu um alerta mais contundente antes da chegada dos ventos? A dúvida ganha força porque, cerca de seis horas antes, meteorologistas independentes já acompanhavam o avanço do sistema pelo litoral de São Paulo e alertavam, em vídeos publicados nas redes sociais, que as rajadas seguiriam em direção ao estado do Rio. Apesar disso, a Defesa Civil enviou mensagens apenas às 16h43 para celulares cadastrados, cerca de duas horas depois dos ventos chegarem na Baía da Ilha Grande e de Angra dos Reis, na Costa Verde, segundo especialistas e registros feitos por moradores. Vídeo mostra queda de árvore a poucos metros de motorista Primeiros sinais A cronologia entre São Paulo e Rio mostra que os sinais existiam antes da chegada do vendaval. Às 10h da quarta-feira, o capitão Guilherme Kodja, especialista em inteligência náutica com 35 anos de experiência no mar e mais de 70 mil seguidores nas redes sociais, publicou um vídeo alertando que os modelos meteorológicos já indicavam a possibilidade de ventos intensos. Segundo ele, a previsão vinha sendo acompanhada havia dois dias, principalmente pelo modelo europeu ECMWF, considerado mais preciso para a região. No vídeo, Kodja mostra a projeção da linha de vento avançando pelo litoral paulista e alerta que, entre 16h e 17h, o sistema chegaria à região da Baía da Ilha Grande e de Angra dos Reis. Ainda assim, não havia sido emitido um alerta à população do Rio sobre os ventos extremos. Ventania em SP quatro horas antes do Rio Pouco tempo depois, às 12h35, quando os ventos já atingiam o litoral de São Paulo, o meteorologista e doutor em Meteorologia Giovanni Dolif, com mais de 100 mil seguidores no Instagram, reforçou o que havia já alertado. Segundo ele, rajadas superiores a 100 km/h já eram registradas em Itanhaém e começavam a atingir Santos. Ao analisar as imagens meteorológicas, o especialista explica que a linha de cisalhamento — mudança significativa da velocidade ou direção do vento em uma distância relativamente curta na atmosfera — avançaria pelo litoral paulista e seguiria em direção ao Rio de Janeiro. "Vai avançar, subir o litoral de São Paulo, chegar até o Rio de Janeiro com ventos muito fortes. Talvez não esses 100 km/h, mas ventanias fortes que derrubam algumas estruturas, interrompem o fornecimento de energia e podem derrubar placas. Então, é perigoso. Nas próximas horas vai varrer o litoral de São Paulo e o litoral do Rio com ventos muito fortes. Fica o alerta", afirmou o doutor em meteorologia. Com base nas medições acompanhadas em tempo real, Dolif reconstituiu o deslocamento da linha de cisalhamento até a capital fluminense. Entenda a cronologia do vento até o Rio A partir de dados observados em tempo real, o meteorologista Giovanni Dolif reconstituiu o deslocamento da linha de cisalhamento entre São Paulo e o Rio. A cronologia mostra o avanço da ventania ao longo da tarde. 12h23 – Itanhaém (SP) - Primeiras rajadas extremas são registradas, chegando a 106 km/h. Duas horas antes, Kodja publica vídeo alertando para a possibilidade de ventos fortes e orienta cuidados na navegação.12h35 - O meteorologista Giovanni Dolif faz alerta para o Rio.13h45 – Ilhabela (SP) - O sistema avança rapidamente pelo litoral norte paulista, com rajadas de até 96 km/h. 15h – Baía da Ilha Grande e Angra dos Reis (RJ) - A linha de ventos chega ao litoral sul fluminense com rajadas que atingem 111 km/h.15h30 – O Centro Estadual de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden) emite boletim válido até as 7h30 do dia seguinte alertando para mudança do tempo em praticamente todo o estado.16h30 – Ventos atingem a Zona Sul do Rio - com rajadas de 74 km/h.16h43 – A Defesa Civil envia mensagens de alerta para celulares cadastrados.Por volta das 16h50 – toda a cidade do Rio vive os efeitos do vendaval.17h – Galeão (Rio) - As rajadas alcançam 106 km/h, já durante o vendaval que atingia a cidade. O meteorologista e doutor em Meteorologia Giovanni Dolif afirma que a intensidade exata do vendaval que atingiu o Rio era difícil de prever, mas diz que o avanço do sistema já vinha sendo monitorado ao longo da semana e que profissionais acostumados a interpretar esse tipo de fenômeno conseguiam identificar um risco elevado para o litoral fluminense. Segundo ele, os modelos meteorológicos não projetavam rajadas superiores a 100 km/h para o Rio porque eventos desse tipo envolvem uma linha de cisalhamento com uma faixa de ventos intensos formada pelo avanço rápido de uma massa de ar frio e mais densa sobre uma massa de ar quente. — É um vento mais desafiador de prever. É como se fosse um sopro que sai do Sul do país. Esse pulso de ar frio avança muito rápido e faz a frente fria chegar com muito mais força. Foi um evento associado à linha de cisalhamento, que exige uma interpretação muito cuidadosa dos modelos e das observações em tempo real. Os modelos costumam subestimar esse tipo de fenômeno. Pela experiência de quem trabalha com o mar, a gente sabe que essas previsões acabam não mostrando toda a potência do evento — explica Dolif. O prefeito Eduardo Cavaliere afirmou que o Rio conta com 11 estações de monitoramento das condições meteorológicas, sendo três da própria prefeitura e as demais operadas por órgãos como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e a Aeronáutica, em razão dos aeroportos. Ele disse que o vendaval desta quarta-feira surpreendeu até os meteorologistas e que, por isso, não foi emitido Alerta Extremo. "São órgãos diferentes, com estações diferentes, e é a partir dessas informações que tomamos as decisões aqui no Centro de Operações e acionamos os protocolos. Ontem, esses órgãos emitiram um alerta para ventos moderados e fortes, com previsão de rajadas de até 60 ou 70 km/h. O que tivemos, no entanto, foi um verdadeiro vendaval, com ventos acima de 100 km/h, que surpreendeu inclusive os meteorologistas e não correspondia ao que havia sido indicado pelas estações. Por essa razão, não emitimos um alerta extremo", disse à TV Globo.
Ventos de até 111 km/h atingiram a Costa Verde duas horas antes de aviso da Defesa Civil na cidade do Rio
Meteorologistas independentes alertaram seis horas antes sobre ventos fortes que avançavam do litoral de São Paulo para o Rio. Defesa Civil enviou mensagem para celulares cadastrados às 16h43













