A tecnologia do tratamento foi descoberta na Universidade Federal de Goiás O laboratório brasileiro Cristália assinou, nesta quinta-feira (30), acordo que formaliza parceria com o Instituto Bairral de Psiquiatria para condução de estudos clínicos de remédio que busca reverter quadros de overdose. A tecnologia do tratamento foi descoberta na Universidade Federal de Goiás (UFG) e o laboratório brasileiro assumiu o co-desenvolvimento em parceria com a instituição. Os estudos pré-clínicos, em animais, já foram concluídos e o Cristália investirá, agora, cerca de R$ 54 milhões nos estudos de fases 1, 2 e 3, para comprovar a eficácia do medicamento em humanos. Estas fases ainda dependem de aprovação da Anvisa, a agência reguladora brasileira, para que tenham início. O laboratório disse que nos estudos pré-clínicos a formulação demonstrou capacidade de capturar parte “relevante” de substâncias tóxicas do organismo de ratos e porcos, e contribuir para a normalização de sinais associados à overdose. O laboratório é o mesmo que co-desenvolve a polilaminina, molécula em estudo que busca a regeneração de lesões na medula espinhal. Ele passou a integrar aquele projeto, liderado por Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), há oito anos. Para o vice-presidente de pesquisa e desenvolvimento do Cristália, Rogério Almeida, a nova terapia em estudo quer mudar o modo de atendimento de emergência de pacientes em overdose. Hoje, disse, o socorro foca na mitigação de sintomas. Segundo ele, a nova terapia usa lipossomas para filtrar a substância tóxica do organismo do paciente, antes que ela sobrecarregue o coração e o cérebro. “O mecanismo de funcionamento é relativamente simples. Ele funciona como uma esponja. O lipossoma é uma esfera que tem afinidade pela substância tóxica que está no organismo do paciente. Ela é absorvida para dentro dessa esfera, fica presa e perde o efeito nocivo”, disse ao Valor. A pesquisa que deu origem ao projeto resulta do trabalho de equipe liderada pela cientista Eliana Martins Lima, da UFG. A propriedade intelectual da tecnologia pertence à UFG, mas o Cristália adquiriu direitos de comercialização, em contrato que prevê pagamento de royalties para a instituição. A patente está sendo redigida para submissão no Brasil, com posterior expansão internacional para mercados como EUA, Europa e Japão. “É extremamente importante que ele esteja dentro da saúde pública, porque qualquer minuto a mais que o paciente leve para ter acesso ao tratamento é um minuto a mais de risco de vida”, disse Almeida, sobre se o projeto mira a incorporação na rede pública de saúde. Mas o projeto ainda terá de comprovar a eficácia em humanos e superar incertezas que podem frustrar a terapia. “Estamos falando de uma formulação que tem uma concentração grande de lipídio, de gordura. Eventos adversos, por exemplo, poderiam ser um aumento de colesterol do paciente”, disse. Antes dos testes com pacientes reais em overdose, o laboratório realizará a fase 1 com voluntários. O objetivo é monitorar a segurança do uso do lipossoma e se ele pode causar sobrecarga hepática, renal ou picos de colesterol. “Monitoraremos diversos parâmetros para identificar se há problema relacionado à sobrecarga lipídica”, afirmou. O Cristália espera que a fabricação do lote inicial para os testes esteja concluída em agosto e que o processo de finalização da documentação para submissão do pedido de autorização à Anvisa esteja completo em setembro deste ano. “Como o protocolo seguirá a nova Lei [da Pesquisa Clínica], que dá 90 dias úteis para o processo, temos a expectativa de já iniciar o estudo de fase 1 no início do primeiro semestre de 2027”. Já os estudos de fases 2 e 3, que contarão com o apoio do Instituto Bairral e de prontos-socorros mapeados para a captação de pacientes, devem acontecer na sequência da primeira etapa. A ideia é que na fase 2 seja identificada a dose ideal e na 3, ampliado o número de pacientes para comprovação de eficácia em larga escala. O acompanhamento dos pacientes durante essas etapas será feito pela equipe de psiquiatria multidisciplinar do Bairral, que já atua com o tratamento de dependentes químicos. Até que eventualmente se torne um medicamento aprovado, ainda dependerá do sucesso das fases 1,2 e 3, além da aprovação da Anvisa. Cristália — Foto: Divulgação