Esqueça o café e as bebidas energéticas de alta potência. O chá de erva-mate está rapidamente se tornando a principal fonte de cafeína para consumidores preocupados com bem-estar, fazendo sucesso de Nova York a Berlim, ampliando os horizontes para além de suas raízes sul-americanas. Vendida em latas, gaseificada e adoçada, por marcas como Yerba Madre, Clean Cause e Drink Weird, a bebida conquistou o espírito da geração Z. Até Barron, filho do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aderiu à tendência por meio de uma startup da Flórida. O entusiasmo das metrópoles globais por uma bebida que os argentinos tradicionalmente consomem ao longo de todo o dia ajudou a impulsionar as exportações de erva-mate do país em quase 35% em 2025, em comparação com o ano anterior. Mas, para muitos pequenos produtores que cultivam a planta, a realidade é difícil. O presidente da Argentina, Javier Milei, desregulamentou os preços em meio a um excesso de oferta, aplicando uma dura dose de sua “terapia de choque” econômica. — Na Argentina, a situação está feia e só piorou desde que fui embora — disse Isaías Mendoza enquanto serrava galhos de árvores de erva-mate nas colinas cobertas de névoa no Rio Grande do Sul. — Até os dias ruins aqui são dias bons. A campanha de desregulamentação de Milei abalou setores que durante anos estiveram sob a proteção do Estado, de siderúrgicas a empresas de construção. As dificuldades enfrentadas por muitos produtores da bebida mais emblemática da Argentina — apreciada por figuras como o craque de futebol Lionel Messi e o falecido Papa Francisco — atingiram um ponto particularmente sensível, levando o Congresso a abrir uma investigação enquanto agricultores bloqueiam estradas em protesto contra os baixos preços em Misiones, a província em formato de polegar situada entre o Brasil e o Paraguai, considerada o coração da produção de erva-mate. Luis Benítez, de 32 anos, se mudou da província argentina de Misiones para o Brasil em janeiro — Foto: Victor Moriyama/Bloomberg Depois de assumir a presidência em 2023, Milei retirou do Instituto Nacional da Erva-Mate (INYM) o poder de definir preços, como parte de uma ofensiva mais ampla para combater a inflação. Ele também cortou subsídios e recursos públicos que sustentavam comunidades fora de Buenos Aires e de outros grandes centros urbanos. Os pequenos produtores sofreram com a queda dos preços da erva-mate e com o aumento dos custos de serviços básicos — em contraste com os grandes agricultores e o agronegócio argentino, que foram beneficiados pela desvalorização do peso e pela redução da burocracia para exportações estratégicas, como carne bovina, soja e trigo. A inflação anual da Argentina já não está mais na casa dos três dígitos, mas ainda supera 30%, a segunda taxa mais elevada da América Latina. — Em vez de fazer o que prometeu, ele está nos afundando — afirmou Luis Benítez, de 32 anos, que se mudou de Misiones para o Brasil em janeiro. — Ele cortou tudo, até os medicamentos para os idosos. Que tipo de presidente faz isso? Isaías Mendoza colhe erva-mate na cidade gaúcha de Ilópolis — Foto: Victor Moriyama/Bloomberg Após anos de safras recordes, os mais de 10 mil produtores de erva-mate de Misiones perderam a garantia de preços mínimos, mas tiveram dificuldade para reduzir a produção. Isso porque a erva-mate não é uma commodity que responde rapidamente aos sinais do mercado, explica o experiente produtor Raúl Karaben. As árvores de erva-mate levam anos para atingir a maturidade e produzem por décadas para atender a uma demanda local constante e profundamente enraizada na cultura. — A decisão de plantar erva-mate é praticamente uma decisão para a vida toda. É muito difícil para os pequenos produtores abandonarem a atividade, porque investem nela todo o seu capital — disse Karaben. O crescimento contínuo das exportações desde 2022 mal conseguiu reduzir o excesso de oferta de folhas verdes e processadas, afetando principalmente os trabalhadores diaristas e os pequenos produtores. 'Se não fosse pelos argentinos, tudo pararia', diz comerciante gaúcho Milhares de pessoas se mudaram para o estado brasileiro do Rio Grande do Sul, onde o envelhecimento da população e a migração dos jovens para as cidades estão esvaziando o campo de mão de obra produtiva. Essa realidade é evidente em Ilópolis, conhecida como a capital brasileira da erva-mate. Muitos argentinos “chegam apenas com a roupa do corpo”, disse Nelson Trentin, de 62 anos, que administra um bar local onde clientes mais velhos jogam sinuca: — Mas, se não fosse por eles, tudo pararia. Não há jovens por aqui. Os produtores argentinos de erva-mate — em sua maioria trabalhadores diaristas conhecidos como tareferos — e os pequenos agricultores costumam buscar trabalho fora de Misiones durante a entressafra. No entanto, líderes sindicais afirmam que o atual êxodo é sem precedentes. — Quase toda Misiones está no Brasil neste momento — afirmou Ana Cubilla, presidente do Sindicato Único de Obreros Rurales, sindicato provincial dos trabalhadores rurais, em abril. Essa oportunidade, porém, pode trazer riscos. Nos últimos anos, as autoridades brasileiras resgataram dezenas de trabalhadores que atuavam de forma irregular e em condições precárias no Rio Grande do Sul. Exportações batem recorde Na Argentina, Uruguai, Paraguai e no sul do Chile e do Brasil, a erva-mate é tradicionalmente consumida com uma bomba de metal. Historicamente, a bebida era servida em uma cuia feita de porongo seco e ornamentado. No exterior, porém, os consumidores estão adotando a erva-mate em uma nova versão: a lata de alumínio. Um trabalhador bebe mate em uma cuia tradicional com bomba de metal — Foto: Victor Moriyama/Bloomberg Uma estimativa da Data Bridge Market Research avaliou o mercado global de erva-mate em cerca de US$ 1,6 bilhão em 2024, com projeção de atingir US$ 2,4 bilhões até 2032. Segundo o Instituto Nacional da Erva-Mate (INYM), as exportações alcançaram 42 milhões de quilos até setembro do ano passado, com previsão de atingir o recorde de 50 milhões de quilos no ano. O montante supera os resultados de 2021, 2022 e 2023, e se aproxima do recorde de 43,8 milhões de quilos registrado em 2024 — restando ainda três meses de embarques a contabilizar. Na Flórida, Sollos faz sucesso com erva-mate em latas de US$ 39 Uma das bebidas prontas à base de erva-mate que vem ganhando espaço nas prateleiras dos supermercados dos Estados Unidos é a Sollos. A empresa, sediada no sul da Flórida, compra a matéria-prima do Brasil e vende cada caixa com 12 latas de sua bebida sabor abacaxi com coco por cerca de US$ 39 (quase R$ 200). Entre os fundadores da Sollos está Spencer Bernstein, de 22 anos, ao lado de seu amigo de ensino médio, Barron Trump. A bebida “combina muito bem com vodca, tequila e rum”, afirmou Bernstein, natural de Palm Beach e fã de tênis e surfe. — É uma alternativa muito mais saudável e saborosa aos misturadores disponíveis no mercado, além de fornecer a energia necessária para uma noite de diversão. Esse, porém, não é o tipo de impulso que os produtores de Misiones esperam. A região simboliza a “desintegração de províncias que já eram inviáveis ou tinham problemas estruturais, e que agora estão vindo à tona de uma só vez”, afirmou o economista Ramiro Albrieu, da Universidade de Buenos Aires. Mesmo com as políticas de Milei garantindo à Argentina a terceira elevação de sua classificação de risco soberano em apenas três meses, o desgaste da população está aumentando. Em junho, 58% dos argentinos desaprovavam o presidente, segundo a pesquisa LatAm Pulse, realizada pela AtlasIntel para a Bloomberg News, enquanto 62% classificavam a situação econômica do país como “ruim”. Êxodo argentino para o Brasil: 39 mil CPFs Esse sentimento se reflete na situação dos produtores rurais, muitos dos quais agora estão criando novas raízes no Brasil. Os registros de argentinos para obtenção do CPF brasileiro — documento necessário para trabalhar formalmente no país — saltaram de uma média de cerca de 8 mil por ano antes de 2022 para mais de 39 mil no ano passado, de acordo com a Receita Federal do Brasil. No Rio Grande do Sul, os recém-chegados estão suprindo a falta de mão de obra em pequenas cidades como Ilópolis, onde muitas propriedades familiares não têm sucessores. — Nossa filha não quer saber disso — disse Nade Benvenutti, de 60 anos, que produz erva-mate ao lado do marido nos arredores de Ilópolis. Nade Benvenutti (à esquerda) e seu marido colhem erva-mate em sua propriedade nos arredores de Ilópolis — Foto: Victor Moriyama/Bloomberg Outro produtor, Cláudir Franzon, emprega seis argentinos em sua propriedade nas proximidades. “Sem os argentinos, eu teria de abandonar boa parte disso aqui”, afirmou. Cesar Benítez, de 29 anos, mudou-se para o Brasil em 2024 e, desde então, conseguiu um emprego em tempo integral em um moinho de erva-mate em Ilópolis. Ele e a esposa agora são residentes no Brasil. Benítez afirma que, embora as reformas de Milei fossem necessárias, o presidente criou um sistema em que “quem não trabalha, não come”. — Vai levar algum tempo até que as coisas melhorem — disse.