Medida passa a incluir créditos concedidos a empresas não financeiras na avaliação das garantias aceitas pelo BCE e poderá reduzir em até 5% o valor desses ativos Banco Central Europeu (BCE) anunciou que vai ampliar o uso do chamado fator climático em sua estrutura de garantias — Foto: Getty Images O Banco Central Europeu (BCE) anunciou que vai ampliar o uso do chamado fator climático em sua estrutura de garantias (collateral framework), estendendo a medida a determinados empréstimos concedidos a empresas não financeiras. A decisão foi aprovada pelo Conselho do BCE em 24 de julho. Em comunicado, o BCE afirmou que a ampliação "foi concebida para fortalecer ainda mais a estrutura de gestão de riscos do Eurosistema ao abordar as incertezas financeiras relacionadas à transição verde". Segundo o BCE, ativos mais sensíveis a fatores como mudanças nas políticas climáticas, avanços tecnológicos, alterações no comportamento dos consumidores, litígios e ajustes macroeconômicos poderão sofrer uma redução maior em seu valor como garantia. O objetivo, portanto, é minimizar perdas caso esses ativos sejam afetados por choques relacionados à transição para uma economia de baixo carbono. Até agora, o fator climático era aplicado apenas a títulos de dívida emitidos por empresas não financeiras e suas afiliadas, conforme regra aprovada em julho de 2025 e entrou em vigor em 15 de junho deste ano. Na prática, os bancos da zona do euro utilizam ativos como garantia quando tomam empréstimos junto ao banco central. A principal mudança é a inclusão dos créditos concedidos a empresas não financeiras entre os ativos sujeitos ao fator climático. Com a ampliação da medida, o valor dessas garantias também passará a considerar a exposição dos ativos aos riscos da transição climática. O BCE informou que a redução adicional aplicada ao valor das garantias não poderá ultrapassar 5%, tanto para títulos corporativos quanto para empréstimos. Os fatores climáticos atribuídos a cada operação individual não serão divulgados publicamente. Alcance da medida A ampliação aumenta significativamente o alcance da medida. Enquanto os títulos corporativos representam menos de 2% das garantias apresentadas pelos bancos ao BCE, os empréstimos a empresas respondem por cerca de 29% do total das garantias utilizadas nas operações do Eurosistema. O cálculo do fator climático para esses empréstimos será baseado em três elementos: um indicador setorial derivado do mais recente teste de estresse climático do Eurosistema, o grau de exposição da empresa devedora às incertezas relacionadas à transição e o prazo restante do crédito. Quando não houver dados específicos sobre um setor ou empresa, o BCE poderá recorrer a informações setoriais ou outras bases de dados consideradas adequadas para avaliar esses riscos. A implementação da nova regra está prevista para ocorrer, no mínimo, até o fim de 2027. Os fatores climáticos serão atualizados anualmente para incorporar os dados mais recentes sobre riscos relacionados ao clima. Especialistas veem avanço, mas defendem novas medidas Para Carlos Mateo Caicedo Graciano, economista do Banco da França, a decisão representa "um passo importante para fortalecer a estrutura de política monetária do Eurosistema ao abordar as incertezas financeiras relacionadas à transição climática". Em publicação no LinkedIn, ele destacou que a inclusão dos empréstimos é particularmente relevante porque esse segmento reúne um volume de garantias cerca de sete vezes maior do que o mercado de títulos corporativos já abrangido pela medida. A iniciativa também foi avaliada positivamente por Jordi Schröder Bosch, economista da Positive Money Europe. Segundo ele, a mudança fecha uma lacuna importante ao ampliar o alcance da política para uma parcela muito maior das garantias utilizadas pelos bancos. Bosch afirmou que, com a nova regra, as instituições financeiras terão de considerar os riscos da transição climática em uma fatia mais ampla de suas carteiras de crédito, incluindo empréstimos destinados a empresas de combustíveis fósseis e outros setores intensivos em carbono. Apesar disso, organizações como a Reclaim Finance avaliam que o BCE poderia adotar critérios mais rigorosos. A entidade critica o fato de o banco central continuar aceitando ativos de empresas altamente poluentes como garantia, diferentemente do Banco da Inglaterra, que informou não aceitar títulos emitidos por empresas de mineração de carvão. Na mesma direção, um relatório do Centre for Economic Transition Expertise (Cetex), da London School of Economics, defende que o fator climático seja ampliado futuramente para outras classes de ativos, como títulos lastreados em ativos (asset-backed securities), títulos bancários cobertos (covered bonds) e títulos soberanos. Para Enrique Serrano, analista de políticas do Cetex, a divulgação do limite máximo de desconto de 5% também aumenta a transparência da política ao tornar público um dos principais parâmetros utilizados pelo BCE para precificar os riscos climáticos.
Banco Central Europeu amplia fator climático para empréstimos e reforça proteção contra riscos da transição verde
Medida passa a incluir créditos concedidos a empresas não financeiras na avaliação das garantias aceitas pelo BCE e poderá reduzir em até 5% o valor desses ativos






