A decisão do Irã de lançar um ataque surpresa, como definido pelo Pentágono, a uma base usada pelos EUA na Jordânia chamou a atenção pelas circunstâncias e pelo momento. Na semana passada, o governo de Donald Trump suspendeu os bombardeios ao território iraniano para dar uma chance à diplomacia, alegando estar perto de um acordo definitivo. Mas como declaram as autoridades iranianas, e como demonstraram os mísseis e drones, falta combinar muita coisa com Teerã. Em comunicado, a Guarda Revolucionária afirmou ter lançado os mísseis em “resposta às ações agressivas do Exército americano assassino de crianças”, afirmando que, “enquanto persistirem as ameaças contra a República Islâmica do Irã e as ações ilegais e nefastas das forças americanas contra nossos interesses, a resistência continuará”. Até agora, os únicos ataques não provocados — ou seja, fora do cenário de guerra ativa — da Guarda Revolucionária foram contra navios que cruzaram o Estreito de Ormuz fora da rota estabelecida pelos iranianos. O texto não cita quais seriam as ameaças. Uma hipótese, embora remota, é que a ação seria uma resposta ao ataque realizado pela Ucrânia contra um navio iraniano no Mar Cáspio, acusado de transportar armamentos para a Rússia, parceira militar de Teerã, no fim de semana. De acordo com o jornal New York Times, a Guarda Revolucionária cogitou atacar um porto ucraniano, mas o plano foi arquivado devido à imprevisibilidade da reação em Kiev e ao risco de ver duas guerras de grande porte se tornarem uma só. Neste cenário, retaliar contra uma base dos EUA, um aliado dos ucranianos, seria uma escolha menos arriscada. — A Ucrânia não é um país pequeno e insignificante. Ela possui experiência em combate e conta com apoio logístico dos Estados Unidos e da Europa. Não ganharemos nada criando uma nova frente de guerra — disse Mehdi Rahmati, um analista político próximo ao poder em Teerã, ao New York Times. Na terça-feira, o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, disse que as explicações ucranianas de que o ataque foi não intencional não eram sustentáveis, e que Kiev “deve assumir explicitamente a responsabilidade por este ato ilegal e criminoso”. Araghchi também se queixou à chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, e ouviu dela um pedido para que seu país interrompa a ajuda militar à Rússia, especialmente no campo dos drones. Por outro lado, o incidente na Jordânia pode ser a constatação de uma mudança do pensamento estratégico da Guarda Revolucionária, que é quem manda de fato no Irã desde a morte do líder supremo Ali Khamenei. O uso da palavra “ameaça” em vez de “provocações” ou “agressões” dá força a essa hipótese, e a escolha do alvo — a mesma base onde morreram três militares americanos recentemente — dobra a aposta. Ofensiva de milícias aliadas a Teerã e ataques sauditas e americanos elevam risco de retomada da guerra no Golfo — Foto: Editoria de Arte / O Globo Em outra frente, dezenas de drones foram lançados por milícias aliadas do Irã no Iraque e no Iêmen, causando estragos em instalações petrolíferas sauditas e em ao menos um navio na entrada do Mar Vermelho desde o fim de semana. Os ataques foram citados pelo Comando Central dos EUA (Centcom) ao justificar os bombardeios no Iraque, em conjunto com a Arábia Saudita, na terça-feira. Não está nítido se os grupos agiram a mando de Teerã, mas é pouco provável que tenham sido atos independentes. — Os ataques do Irã contra a Jordânia na noite passada mostram que Teerã acredita que a dissuasão é alcançada por meio de ações militares proativas — disse Burcu Ozcelik, pesquisadora no Royal United Services Institute (RUSI), à rede al-Jazeera. — De forma mais ampla, existe uma forte convicção na liderança iraniana de que o país está travando uma luta existencial e de que exercer pressão sobre o governo Trump continua sendo um objetivo importante. As ações ocorrem em paralelo a negociações indiretas, conduzidas por mediadores, que já enfrentam percalços. O principal deles é sobre o status do Estreito de Ormuz: na terça-feira, a Chancelaria iraniana recusou uma proposta feita por Omã para uma administração conjunta da passagem, por onde, antes da guerra de Trump, passavam 20% das exportações globais de energia. O plano previa uma nova rota que passava pelas águas territoriais das duas nações e a cobrança voluntária de um pedágio, algo que, para Teerã, não atende às expectativas. A nova estratégia não vem sem riscos. Nesta quarta-feira, Trump usou termos pouco polidos para dizer que “dará uma surra” no Irã e, na véspera, recebeu na Casa Branca o premier de Israel, Benjamin Netanyahu, um defensor da retomada da guerra total. Apesar das supostas fragilidades defensivas, os Estados Unidos mantêm um amplo contingente no Oriente Médio, e o presidente deixou claro que não vê entraves em ações contra infraestruturas civis, como pontes, aeroportos, usinas de dessalinização e centrais elétricas. O incentivo para que os aliados de Teerã ampliem a campanha de drones pode ainda, na visão de analistas, contribuir para uma guinada no cenário de segurança no Oriente Médio. — Isso provavelmente forçará a Arábia Saudita a mudar sua posição em relação à guerra, e também porque poderá alterar as alianças globais em torno do presidente Trump, visto que muito mais países virão em socorro da Arábia Saudita, particularmente no Mar Vermelho, caso a equação mude — disse à al-Jazeera Sultan Barakat, professor da Universidade Hamad Bin Khalifa, no Catar, se referindo aos houthis, que ameaçam o tráfego comercial no Mar Vermelho e já cogitam lançar seu próprio plano de cobrança de pedágio. — É um cálculo muito ruim o do Irã.