Agrishow: etanol pode avançar sem depender do petróleo, diz Maurílio BiagiPara presidente de honra da feira, Brasil ignora vantagem do biocombustível e poderia ampliar mistura na gasolina. Crédito: edição: Yago BassiGerando resumoFoto: sps.nyu.edu/Carolyn KissaneProfessora do Centro de Assuntos Globais da Universidade de Nova York, especializada em geopolítica da energia.Talvez o legado mais importante do conflito entre Estados Unidos e Irã no Oriente Médio não seja no campo da guerra, mas no mercado global de energia. Por causa do bloqueio de rotas marítimas cruciais, como o Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, e, agora, o Estreito de Bab El-Mandeb, no Mar Vermelho, está ocorrendo uma guinada estratégica no mundo na busca por maior segurança energética, diz Carolyn Kissane, professora do Centro de Assuntos Globais da Universidade de Nova York, especializada em geopolítica da energia. Se antes a prioridade era garantir acesso às fontes de energia, depois do conflito, a palavra-chave passou a ser resiliência, diz Kissane. Para reduzir suas vulnerabilidades, os governos de diferentes países estão acelerando investimentos não apenas na ampliação da oferta de energia, mas também na redução da exposição a fornecedores, combustíveis, tecnologia ou pontos de estrangulamento críticos, como Ormuz. Um dos motores dessa mudança é a China, que conseguiu reduzir suas importações de petróleo desde o início do conflito, valendo-se de uma aposta de duas décadas atrás na eletrificação. Nesse novo cenário, o Brasil, rico em fontes renováveis de energia, mas também um grande produtor e exportador de petróleo, tem tudo para sair como um grande vencedor, diz Kissane.PublicidadeA seguir, trechos de entrevista da professora da NYU ao Estadão:Apesar de todas as incertezas sobre o desfecho do conflito no Oriente Médio, a sra. diz que podemos ter uma certeza: o mundo nunca será mais o mesmo no que diz respeito ao mercado de energia global. Por quê?Os últimos quatro meses provaram ser extraordinariamente disruptivos, com o estrangulamento do Estreito de Ormuz, o que tornou o trânsito de petroleiros extremamente perigoso na região com as maiores reservas de petróleo do mundo. Isso forçou os países do Golfo Pérsico a repensarem sua dependência da rota do Estreito de Ormuz para o trânsito do petróleo que produzem. Estamos observando a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos buscando rotas alternativas, utilizando e planejando novos oleodutos para contornar o estreito. Diria que esse é um processo já em consolidação. Há, porém, algo ainda mais importante do que essa questão logística. Esse cenário expôs uma profunda insegurança energética para países altamente dependentes do Oriente Médio, especialmente na Ásia. Países do Sudeste Asiático, por exemplo, tiveram que racionar sua demanda por petróleo e gás natural. Isso causou uma reavaliação forçada das dependências de importação, com a compreensão de que certas vulnerabilidades não desaparecerão. Há outros gargalos, como o Estreito de Taiwan e o Estreito de Malaca (entre a Malásia e a Indonésia), com potencial para interrupções futuras. O que observamos é uma guinada estratégica dos países com foco na segurança — uma transição onde nações estão realizando uma reestruturação profunda de suas estratégias de segurança energética.Leia tambémUsinas eólicas e solares devem viver onda de fusões e aquisições a partir de 2027; entendaThe Economist: Como tornar a IA segura - e diminuir a dependência dos Estados Unidos e da ChinaO Brasil se tornou um grande produtor e exportador líquido de petróleo nos últimos 20 anos. Como essa guinada no mercado global de energia pode afetar o País?Nunca é adequado falar em “vencedores” quando analisamos um conflito que ceifa vidas, mas, estrategicamente, o Brasil sai à frente. O Brasil é um produtor de petróleo seguro e responsável, com um crescimento gradual de produção. Mesmo os Estados Unidos, em sua estratégia nacional de segurança de 2025, sugeriram uma mudança de foco ao passar a ver o Hemisfério Ocidental como crucial para sua segurança nacional. O Brasil é uma espécie de “rei” na região, sendo o maior produtor da América Latina. Para entender essa relevância, gosto de comparar o Brasil à Noruega. Os noruegueses se saíram muito bem após a invasão da Ucrânia pela Rússia porque são produtores de petróleo e gás e têm um sistema doméstico de energia de baixo risco pelo uso predominante de energia hidrelétrica. O Brasil não é muito diferente: é um país rico em recursos naturais, com 80% do seu sistema elétrico vindo de fontes renováveis. Isso confere ao Brasil uma posição significativa no mundo: a capacidade de consumir energia limpa internamente enquanto exporta hidrocarbonetos para o mercado global a preços competitivos.Ao mesmo tempo em que há essa guinada em busca de maior segurança energética, a sra. diz que estamos testemunhando um “pico de demanda” por petróleo no mundo e uma transição para outras fontes de energia. Quais são as evidências disso e o que isso projeta para o futuro?A China é a grande razão dessa mudança. Nos últimos quatro meses, eles mostraram ao mundo que podem reduzir drasticamente sua demanda por petróleo — diminuíram suas importações em quase 6 milhões de barris por dia. Eles não fizeram isso por um colapso econômico, mas por uma transição mais ampla para a eletrificação dos transportes e por ajustes na indústria petroquímica. A China é o maior importador de petróleo do mundo (cerca de 11 milhões de barris/dia), e o fato de conseguirem reduzir essas importações ajudou a amortecer o impacto da guerra no Oriente Médio no mercado global de energia. Isso serve como um sinal para outros países com trajetórias de crescimento, como a Índia: existem agora muitas alternativas e oportunidades maiores de eletrificação. Não estou dizendo, com isso, que a demanda por petróleo desaparecerá, mas que o crescimento incremental da demanda foi forçado para baixo. Não veremos os níveis de demanda de 110 ou 115 milhões de barris por dia que antes alguns analistas previam; devemos estabilizar em torno de 100 milhões. E acredito que, mesmo sem o conflito no Oriente Médio, esse pico de demanda por petróleo aconteceria, impulsionado pelo papel pragmático da China.PublicidadeNo Brasil, há um intenso debate sobre a conveniência da exploração de novas reservas de petróleo na foz do Rio Amazonas, na região Norte do País. Considerando essa perspectiva de “pico de demanda” do petróleo, vale a pena acelerar essa exploração?É uma questão complexa e difícil. Entendo o desejo da Petrobras, que é uma empresa produtora, de extrair o recurso enquanto ainda existe mercado. Mas é preciso pesar custos e benefícios. Existem custos ambientais significativos associados a áreas vulneráveis que, se causarem danos irreparáveis, podem não compensar o retorno financeiro. A experiência americana pode ser um bom guia aqui: empresas dos EUA poderiam explorar o Ártico, mas avaliaram que o risco reputacional e ambiental era excessivo. A Shell tentou explorar o Ártico entre 2010 e 2012 e enfrentou protestos massivos e custos técnicos proibitivos. Se o governo brasileiro e a Petrobras avançarem na exploração na foz do Amazonas e houver um acidente grave, o dano à reputação do setor petrolífero brasileiro pode superar qualquer benefício econômico de curto prazo. O risco de um vazamento de óleo em uma região sensível como a Amazônia é algo que precisa ser considerado com seriedade, principalmente quando a comunidade internacional observa cada movimento.PublicidadeA China consolidou-se como a “fábrica mundial” de tecnologias renováveis. Foi uma reação estratégica dos dirigentes chineses à vulnerabilidade energética do país?CONTiNUA APÓS PUBLICIDADEExatamente. Há cerca de 20 anos, a China reconheceu que a dependência de importações de hidrocarbonetos era uma vulnerabilidade crítica para a segurança nacional. Os chineses entenderam que, quanto mais dependessem de outros, mais vulneráveis estariam a interrupções econômicas. Então, entre 2005 e 2006, eles decidiram que seriam uma potência industrial em tecnologias que reduziriam essa dependência: painéis solares, baterias, turbinas eólicas e de energia nuclear. Eles construíram um ecossistema extraordinário. Se você retirasse a China da conta da implantação global de energias renováveis hoje, o mundo estaria em uma situação muito diferente. A China não apenas reduziu suas vulnerabilidades internas, mas se tornou a “fábrica” que exporta a transição energética para o resto do mundo, incluindo países da África. Foi uma estratégia de duas frentes: construir escala doméstica e dominar a exportação de tecnologias que o mundo, no fundo, queria comprar para descarbonizar.A guerra contra o Irã, e o fracasso, até aqui, dos EUA em atingir seus objetivos vai afetar a estratégia energética dos Estados Unidos? Sob um governo Trump, não veremos uma mudança radical: o foco continuará sendo a dominância de hidrocarbonetos, energia nuclear e geotérmica. Não veremos Trump virar um fã de energia eólica offshore ou de repente abraçar a ciência climática. O sistema de energia dos EUA, porém, é muito diversificado. A retórica federal ignora o fato de que o setor privado e os Estados americanos continuam investindo pesado em energia eólica, solar e armazenamento em baterias. Isso ocorre por necessidade, impulsionado pela demanda de data centers e de inteligência artificial. PublicidadeCarolyn Kissane, professora do Centro de Assuntos Globais da Universidade de Nova York, especializada em geopolítica da energia Foto: Reprodução/nyusps Via InstagramO que ouviremos nos próximos anos é um conceito de “tudo ao mesmo tempo” — uma abundância de fontes, desde hidrocarbonetos até renováveis. O que o conflito no Oriente Médio fez foi abalar a posição histórica dos EUA como garantidores das rotas marítimas, expondo um elo fraco na sua estratégia naval. Embora o presidente Trump reivindique vitória no conflito, o consumidor americano sentiu o impacto por meio de preços mais altos de gasolina e de fertilizantes, o que mostra que os EUA, mesmo relativamente protegidos, ainda sofrem os efeitos de disrupções globais.O que acha da tese de que a operação militar para prender Nicolás Maduro na Venezuela e a guerra contra o Irã, declarada com o objetivo de derrubar o regime dos aiatolás, foram desencadeadas com o objetivo de atingir a China, já que ambos os países eram grandes fornecedores de petróleo para Pequim? Faz sentido?Essa é uma teoria que circula entre alguns analistas. Mas, se o objetivo dos EUA era enfraquecer a China, restringindo o fornecimento de petróleo por esses países, não diria que foi bem-sucedida. A China demonstrou uma resiliência inesperada ao reduzir sua demanda interna com êxito, sem um colapso econômico. Embora a economia chinesa enfrente dificuldades atuais, elas são mais ligadas ao consumo interno do que à perda de barris de petróleo iranianos ou venezuelanos. A capacidade da China de gerenciar esse choque acabou amortecendo o impacto para a economia global, pois, se eles tivessem mantido o consumo em 11 milhões de barris/dia, os preços mundiais teriam disparado ainda mais.Energia é, hoje, o pilar central da segurança nacional?Com certeza. Não é possível desvincular energia de segurança nacional; são indissociáveis. Se você não tem segurança energética, sua segurança nacional está ameaçada. A vulnerabilidade de fornecimento, apagões ou a disparada dos custos de energia levam a distúrbios sociais e políticos. A energia está ligada à grande estratégia de qualquer país. Hoje, mais do que nunca, é a base sobre a qual a estabilidade nacional é construída.A inteligência artificial está revolucionando a demanda por energia. Como vê o impacto nos mercados globais? Há uma oportunidade para o Brasil?A questão central da IA é a demanda por energia. As previsões apontam para um aumento de 2% a 5% na demanda global de energia apenas pela construção de novos data centers. Para quem desenvolve esses centros, é preciso acesso a energia confiável, acessível e, idealmente, responsável. O Brasil é um local excelente para isso, dada a sua matriz hidrelétrica robusta, que é considerada mais limpa. Curiosamente, a corrida pela IA colocou as metas de descarbonização em segundo plano. As empresas estão focadas em garantir acesso à energia, independentemente da fonte, mesmo que isso signifique um aumento temporário nas emissões por algumas grandes empresas de tecnologia que, até pouco tempo atrás, eram líderes na defesa do clima. O Brasil tem uma vantagem competitiva clara: se você tem um sistema de energia robusto e acesso a energia limpa, isso é um grande valor para atrair investimento internacional em IA.
Entrevista | ‘Há uma guinada global por maior segurança energética; o Brasil sai à frente’, diz professora da NYU
Carolyn Kissane, especialista em geopolítica, diz que, depois da guerra entre EUA e Irã, mercado global de energia nunca mais voltará a ser o mesmo






