Os números dos orçamentos de tecnologia no mundo corporativo estão em escalada. De acordo com a empresa de pesquisas Gartner, os gastos mundiais com tecnologia da informação (TI) crescerão 10,8% em 2026, ante 2025, totalizando US$ 6,1 trilhões. A maior parte da fatura deve ir para a área de data centers, que prevê um aumento de 31,7% nos investimentos em comparação ao ano passado, ultrapassando US$ 650 bilhões até dezembro. Já o segundo maior avanço previsto está no segmento de software, com um salto de 14,7% e aquisições avaliadas em US$ 1,4 trilhão. Correndo por fora do escopo “tradicional” do mercado de TI - formado por equipamentos, serviços e sistemas -, a inteligência artificial (IA) surge como a cereja do bolo da indústria. A previsão é que os gastos mundiais nesse campo totalizem US$ 2,5 trilhões em 2026, alta de 44% em relação a 2025, podendo chegar a US$ 3,3 trilhões em 2027. Soluções de infraestrutura ou a base de hardware e software necessária para desenvolver e executar os modelos de linguagem devem representar a maior parte dos cheques. “Hoje, a IA é vista como o motor de uma nova era nos negócios”, explica Yran Dias, sócio sênior da McKinsey e líder de transformação em IA e tecnologia da consultoria na América Latina. Mas a grande virada de chave do mercado consumidor, diz ele, será entender que não estamos mais falando de automação de rotinas, mas de uma revolução empresarial. “Enquanto a automação soa como ‘fazer um processo de trabalho de uma forma mais rápida’, a IA tem a capacidade de reinventar modelos de negócios.” Porém, para extrair mais valor da nova tecnologia, não basta apenas automatizar o passado, acrescenta. Uma pesquisa da McKinsey indica que 88% das empresas relatam o uso regular da IA, mas as líderes de mercado se diferenciam da concorrência por adotarem uma “visão de ruptura” sobre o tema. Segundo Dias, 64% dos executivos afirmam que a IA deixou de ser uma ferramenta de eficiência para se tornar uma viabilizadora de inovação nas organizações. O levantamento ouviu 1,9 mil gestores em 105 países, incluindo o Brasil. Na empresa de cosméticos Natura, a IA já é considerada uma das principais frentes de transformação tecnológica, de acordo com o diretor de dados e “analytics” Daniel Marques. “É aplicada de forma transversal, em áreas como operações, logística e vendas”, diz. Em 2025, a companhia investiu R$ 1,4 bilhão em inovação - 6,5% da receita líquida do ano -, um crescimento de cerca de 40% diante do montante aplicado em 2024. Além de despesas com sistemas de TI, a soma inclui verbas para logística, pesquisa e desenvolvimento. Marques diz que a principal métrica de sucesso das iniciativas de IA é o retorno financeiro. “A cada R$ 1 investido no setor, temos um retorno incremental de receita bruta de cinco vezes”, garante. Na Ânima Educação, ecossistema de ensino com 18 mil funcionários, o investimento em TI se manteve estável, de 2,6% da receita em 2024 para 2,7% no ano passado. “Os recursos apoiam a evolução de plataformas digitais, iniciativas de IA e de segurança e análise de dados”, afirma Bruno Machado, vice-presidente de tecnologias educacionais e mindset digital. “A prioridade é ajustar o orçamento para um melhor aproveitamento dos avanços com a IA, por meio de governança e capacitação.” Machado conta que o letramento em IA inclui a produção de agentes para a resolução de problemas reais. “Na alta gestão, temos seis vice-presidentes em treinamento de um total de dez”, conta. “O plano é impactar 100% dessa camada de liderança até o final do ano.” Empresas de menor porte também reservam maiores fatias do planejamento financeiro para a área de TI. Na SuperFrete, plataforma de logística para pequenos e médios negócios com 170 funcionários, o plano é injetar R$ 12 milhões em 2026, um acréscimo de 70% em relação a 2025. “O investimento está concentrado em infraestrutura de nuvem e dados, fortalecimento das equipes e em IA, a nossa maior prioridade”, detalha o diretor de TI André Abadesso. Segundo o executivo, os resultados do uso da IA estão aparecendo no dia a dia. “Nossa agente de atendimento responde por 100% das conversas recebidas como primeiro contato e resolve 80% das demandas”, compara. A SuperFrete processa mais de 1 milhão de envios para 150 mil clientes ativos ao mês. Yran Dias, da McKinsey, afirma que a maior parte das organizações percebeu que o ecossistema tecnológico foi ampliado de suporte operacional para uma via de reinvenção nos negócios - mas é importante separar o “joio do trigo” na hora de ir às compras. “A pergunta que os gestores devem fazer não é ‘qual ferramenta comprar?’, mas ‘qual oportunidade tem o maior potencial de geração de valor para a organização?’” Do lado dos fornecedores de soluções, a IBM tem observado que a relação comercial com o mercado ficou mais estratégica. “Em 2019, a conversa girava em torno de migração para a nuvem e automação”, relata Fabrício Lira, diretor de IA e dados da IBM Brasil. O cliente queria reduzir custos e ganhar eficiência, destaca. “Agora, a tecnologia entrou na agenda do conselho e a IA, que era uma questão exclusivamente tecnológica, é vista como uma alavanca de transformação nas operações.” Na avaliação de Dennis Herszkowicz, CEO da Totvs, de sistemas corporativos, o empresário não acorda de manhã querendo comprar nuvem ou IA. “Ele busca uma solução para um problema de negócio, quer reduzir custos, mas também simplificar a complexidade da gestão”, afirma. “A procura não é por softwares horizontais [para atender funções comuns a qualquer empresa], mas por soluções integradas”. Patrícia Monteiro, vice-presidente de serviços da Dell Technologies para a América Latina, concorda com Herszkowicz e chama a atenção para uma maior combinação de recursos, como infraestrutura para IA, software e serviços especializados, na lista de interesse dos clientes. “O mercado não demanda apenas equipamentos”, defende. “Quer parceiros capazes de acelerar a transformação digital nos negócios.” Ricardo Alem, líder para a América Latina de IA agêntica e generativa na AWS (Amazon Web Services), de computação em nuvem, avisa que a multinacional não vai tirar o pé do acelerador para atender a demanda da clientela. “Até 2034, teremos investido R$ 5,6 bilhões em infraestrutura de data centers no Brasil”, diz. A empresa pretende capacitar 1 milhão de brasileiros com habilidades de nuvem e IA até 2028. “Nosso investimento no país vai além de infraestrutura de TI, envolve pessoas.”