Auditoria encontra irregularidades em 70% dos contratos do Instituto Rio Metrópole (IRM) 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Desvio de rota. O Arco Metropolitano: monitoramento da via foi abandonado após a criação do Instituto Rio Metrópole — Foto: Márcia Foletto/Agência O GLOBO RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 27/07/2026 - 22:56 Auditoria revela irregularidades em 70% dos contratos do IRM Auditoria revela que 70% dos contratos do Instituto Rio Metrópole (IRM) apresentam irregularidades, com desvios de até R$ 150 milhões. Criado para articular melhorias urbanas na Região Metropolitana, o IRM teria sido usado como mecanismo de desvio de verba pública. Sob nova gestão, busca-se reverter danos e retomar a missão original, enquanto investigações continuam para identificar mais irregularidades e enriquecimento ilícito. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Em 2016, a Câmara Metropolitana de Integração Governamental mantinha um monitoramento por drone do Arco Metropolitano, que atravessa cinco municípios da Baixada Fluminense. Uma vez por mês, representantes das polícias e secretários municipais de Urbanismo e Infraestrutura se reuniam para identificar qualquer irregularidade na via ou ocupação ilegal que despontasse em suas margens. Com a substituição da Câmara Metropolitana pelo Instituto Rio Metrópole (IRM), sob nova direção, o sistema de supervisão foi abandonado, assim como sua função de criar projetos nas áreas de mobilidade, saneamento, meio ambiente, tecnologia e habitação. Ao assumir interinamente a autarquia no início deste mês, após a prisão de seis integrantes da cúpula do órgão sob suspeita de desvio de recursos públicos, o delegado Roberto Leão fez um diagnóstico: 70% dos contratos analisados até agora apresentam irregularidades. — O Instituto Rio Metrópole fugiu totalmente de sua missão de promover o intercâmbio entre prefeituras e estado, realizando melhorias urbanas nas cidades da Região Metropolitana. Nos últimos três anos, pelo menos, os acusados que estiveram à frente da autarquia a usaram como um entreposto de desvio de dinheiro público, conforme apontam as investigações — afirmou Leão, que também é secretário do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) do governo do estado. Contratos auditados O número por si só justifica submeter à revisão a totalidade das contratações e dos convênios feitos pelo órgão, e não apenas os citados no inquérito que originou a operação do Ministério Público do Rio. A investigação apontou desvios de R$ 86 milhões, mas a atual gestão já chegou ao valor de R$ 150 milhões. Enquanto faz a devassa nos contratos, Roberto Leão escolheu para a área técnica do IRM o arquiteto e urbanista Vicente Loureiro, que assumiu o cargo há exatamente uma semana, nomeado pelo governador em exercício do Rio, o desembargador Ricardo Couto. Loureiro esteve à frente da Câmara Metropolitana desde sua criação, em 2014. Fora do órgão, ele acompanhou o que aconteceu com o Arco Metropolitano — que atravessa Itaguaí, Seropédica, Japeri, Nova Iguaçu e Duque de Caxias: sem fiscalização, a via teve quase todos os painéis solares da iluminação furtados. A autarquia foi criada durante a intervenção federal do Rio, em dezembro de 2018, mas só passou a funcionar de fato no fim de 2019, no governo de Wilson Witzel. Desde então, segundo Loureiro, afastou-se da missão para a qual foi criada. Agora, nessa retomada, ele disse que as decisões sobre o futuro das cidades nas áreas de drenagem e mobilidade serão discutidas pelos prefeitos dos 22 municípios que integram a Região Metropolitana e pelo governador: — Essas decisões importantes não podem ser tomadas por assessores. Os prefeitos da Região Metropolitana não se reúnem desde a votação que aprovou a concessão da Cedae, em 2020. Isso não pode acontecer — comentou o urbanista. Parte das contas de água Aliás, foi após a concessão dos serviços da Cedae, em 2021, que o orçamento do IRM foi ampliado, com o recebimento de 0,5% da receita das contas de água e esgoto da Região Metropolitana. Dois anos depois, o então governador Cláudio Castro sancionou lei permitindo que a autarquia executasse obras e intervenções urbanas. O grande salto acontece em 2024, quando as despesas pulam de R$ 7,3 milhões para R$ 161,1 milhões. O IRM foi criado para articular soluções conjuntas entre prefeituras e o governo do estado em temas que atravessam fronteiras municipais. Mas, segundo as investigações do Grupo de Atuação Especializada de Defesa da Integridade e Repressão à Sonegação Fiscal (Gaesf) do MPRJ, a autarquia foi, na prática, transformada em um instrumento para desviar dinheiro público. — Os acusados não temiam o controle porque eram o controle: quem licitava, quem opinava, quem contratava, quem fiscalizava e quem recebia integrava o mesmo grupo. E foi essa certeza de impunidade que permitiu que o produto do crime circulasse em espécie aos milhões. E é justamente essa estrutura que impõe o prosseguimento das apurações — explicou a promotora Roberta Jorio, do Gaesf. Obras locais De acordo com as investigações, foi no governo Cláudio Castro que o instituto passou a executar obras de interesse estritamente local, como pavimentação de ruas, enquanto o Conselho Deliberativo, concebido para reunir apenas prefeitos e o governador e orientar as ações do IRM, foi esvaziado e ocupado por representantes de escalões mais baixos das cidades. — Esse vácuo de coordenação tem custado caro à região em outras frentes, além do Arco Metropolitano. O ramal ferroviário de Belford Roxo, que atravessa São João de Meriti e o município do Rio, por exemplo, chegou a transportar mais de 150 mil passageiros por dia no início dos anos 1990, cerca de 15% de toda a demanda do sistema de trens à época, e hoje carrega uma fração disso, resultado, entre outros fatores, da ocupação irregular de boa parte da faixa de domínio da linha — apontou o urbanista. Roberto Leão definiu três eixos de trabalho para a nova direção. O primeiro é devolver ao órgão sua função institucional original, sem as distorções que permitiram, por exemplo, a execução de obras de interesse puramente local. O segundo, a cargo de Loureiro, é reunir os planos técnicos já existentes e preparar uma agenda objetiva para ser entregue ao próximo governador, com metas de curto, médio e longo prazos. Caberá ao gabinete da presidência fazer o levantamento dos passivos contratuais que motivaram a operação do Gaesf. Essa auditoria especial, segundo o GSI, vai analisar todos os acordos firmados, o que vai subsidiar novas etapas da investigação do MPRJ. Ontem, representantes do governo e da Promotoria se reuniram para alinhar uma atuação conjunta para descobrir outras irregularidades, além de apurar possíveis casos de enriquecimento ilícito de agentes públicos. Desvio de R$ 86 milhões de recursos públicos Uma operação do Ministério Público do Rio, no último dia 9, prendeu seis integrantes da cúpula do Instituto Rio Metrópole (IRM), acusados de integrar uma organização criminosa que teria transformado a autarquia estadual em uma engrenagem de desvio de verbas públicas. De acordo com a denúncia, a quadrilha movimentou R$ 86,28 milhões entre julho de 2022 e maio deste ano — valores retirados de contratos firmados pelo próprio órgão. Um dos presos, o então presidente do instituto, Davi Perini Vermelho, o Didê, é apontado pelo MPRJ como o chefe do esquema: ele autorizava contratações, assinava acordos e controlava os pagamentos que, mais tarde, seriam desviados. Outro acusado é Maurício Silva Knoploch dos Santos, que ocupava o cargo de diretor de Planejamento e Projetos do IRM e era integrante da Comissão Técnica de Licitação, posição que, afirmam os investigadores, ele usava para direcionar as escolhas de empresas que receberiam os recursos. Fazia parte ainda do grupo o delegado Franquis Dias Nepomuceno, então diretor de Desenvolvimento Metropolitano Integrado do IRM. Segundo a Promotoria, ele era o ordenador de despesas na autarquia e, ao mesmo tempo, atuava como controlador de uma empresa de segurança armada, que nunca teve vínculo formal com o instituto. No entanto, a firma era responsável pela escolta de Caroline Soares Barros, funcionária comissionada na autarquia e dona do Instituto Bio, que recebia os valores de uma outra empresa que tinha contrato com o órgão estadual. Caroline é acusada de fazer retiradas na boca do caixa: foram 13, entre maio de 2025 e janeiro de 2026, que somaram R$ 3,02 milhões. Investigadores flagraram Caroline sacando valores numa agência em Teresópolis. Ela contava sempre com a escolta da empresa que seria do delegado Nepomuceno. Os investigados negam as acusações do MPRJ.
Máquina de desviar dinheiro: como Rio Metrópole teria usado recursos de forma irregular e deixado de cumprir suas funções
Auditoria encontra irregularidades em 70% dos contratos do Instituto Rio Metrópole (IRM)






