Autor e ator de “Minha estrela Dalva”, Renato Borghi não é econômico ao elogiar Soraya Ravenle, que interpreta Dalva de Oliveira (1917-1972) no espetáculo: — Soraya canta o repertório da Dalva tão bem quanto a Dalva. Nos mais de três meses de temporada no Teatro Sesi, em São Paulo, pessoas procuravam Soraya dizendo-se impressionadas com a semelhança. A atriz, porém, ressalta que se recusou a ficar copiando gestos para parecer uma cópia. — Renato me libertou desse mimetismo absoluto. Sou eu traduzindo Dalva. Quem entra em cena não é Dalva. Sou eu com as minhas feridas, dores e paixões — afirma. — Fazer Dalva não me aprisiona, me ensina. É a Soraya que canta na beira do abismo. Pode soar contraditório, mas ela fica feliz quando ouve que está “encarnando” a cantora. Na sua pesquisa, ouviu todas as gravações, leu o que encontrou e viu as poucas imagens em movimento que existem. — Tudo o que eu pude captar está na minha carne. Está tatuado no meu corpo — diz ela, que contou com a ajuda dos preparadores Felipe Abreu e Gilberto Chaves para dar conta da extensão de voz da personagem. — Foi o maior desafio que eu tive até hoje. Acionei uma musculatura que eu nunca tinha acionado. Estou cantando de um jeito que nunca cantei. Depois do sucesso em São Paulo, “Minha estrela Dalva” chega sexta-feira ao Teatro Claro Mais, em Copacabana. A direção é de Elias Andreato e de Elcio Nogueira Seixas, que também interpreta Borghi quando jovem. Nada americanizada Soraya reencontra uma personagem do início de sua carreira teatral. Após atuar numa montagem de “Boca de Ouro”, de Nelson Rodrigues, ela integrou, no mesmo 1987, o coro de “A estrela Dalva”, peça de Borghi que Marília Pêra estrelou durante oito meses. Foi a sua graduação em Dalva. Mas ela conhecia o repertório graças às regravações feitas por outras intérpretes, como Maria Bethânia e Gal Costa. Segundo diz, seu “caldeirão desde criança” é a música brasileira. — Não quero generalizar, mas a nova geração do teatro musical não tem isso. A referência maior é o canto americano. Como digo nos workshops que eu dou: “Você não canta o que não ouve” — ressalta. Não por acaso, Soraya está em seu 32º musical, e 29 foram relacionados à música brasileira. Antes de Dalva, já havia dado vida a três cantoras: Dolores Duran, Carmen Miranda e Isaurinha Garcia. Em comum entre elas, o enfrentamento de preconceitos e a dificuldade de se livrarem de homens abusivos. — Todas sucumbiram ao machismo — sublinha Soraya. Dalva, nascida Vicentina de Paula Oliveira em Rio Claro (SP), conheceu aos 18 anos, já morando no Rio de Janeiro, o compositor Herivelto Martins. Ela saiu de casa para viver com ele, que ainda era casado. Oficializaram em 1937 a união, da qual nasceram dois filhos: Peri — que virou o cantor Pery Ribeiro — e Ubiratan. As brigas do casal esquentavam e eram esquentadas na imprensa. E os dois duelavam em público por meio de canções — Dalva tinha compositores que criavam para ela. O desquite veio em 1949. A cantora também se casou com o argentino Tito Climent, tendo com ele a filha Dalva Lúcia e muitas brigas. Mais à frente, casou-se com Manuel Nuno Carpinteiro, 20 anos mais jovem. Ele dirigia o carro, em 1965, no acidente em que morreram quatro pessoas e no qual ela se machucou gravemente e ganhou para sempre uma cicatriz no rosto, além de dívidas por ter que indenizar as famílias. Os três maridos são interpretados no espetáculo por Ivan Vellame. — Ela bebeu muito, fumou, mas não perdeu a voz. E não se escondeu. Saía de casa com a marca na cara e sem dinheiro. Pegava ônibus para dar entrevista em rádio — relata Soraya, que não vê o padecimento da cantora com os homens como algo restrito ao passado. — No Brasil, muitas mulheres continuam sendo aprisionadas, maltratadas, mortas. A situação da Dalva dialoga com 2026. Em cena, a atriz interpreta 24 músicas. Para citar algumas, “Segredo”, “Bom dia”, “Bahia”, “Ave Maria do morro”, “Errei sim”, “Calúnia”, “Palhaço”, “Tudo acabado”, “Neste mesmo lugar”, “Sempre te amarei” e “Bandeira branca”. ‘Voz da Branca de Neve’ A peça só existe porque Borghi se apaixonou por Dalva aos 8 anos e mantém essa adoração até hoje, ouvindo-a cantar quase diariamente. Tudo começou com aqueles disquinhos coloridos em que artistas representavam histórias infantis. — Eu me apaixonei pela voz da Branca de Neve. E descobri que a voz da Branca de Neve estava em todos os lugares: rádio, parque de diversões, intervalo de cinema — recorda ele, que nasceu no Rio e fez a maior parte da carreira em São Paulo, onde vive aos 89 anos. Aos 13, passou a fugir de casa para ir à Praça Mauá, no Centro do Rio, para ouvir Dalva na Rádio Nacional e, depois, na Tupi — ela foi eleita Rainha do Rádio em 1951. Quatro anos antes de a estrela morrer, Borghi a reconheceu, apesar da boina cobrindo parcialmente o rosto, no Gigetto, restaurante frequentado por artistas em São Paulo. — Pelos olhos verdes eu vi: é Dalva. Perguntei: “Dalva?” E ela: “Sim.” “Eu te amo” — recorda o ator. Ele reproduz o diálogo na peça, mas num camarim em que a artista se prepara para um show já no fim da carreira. Borghi — que se tornou amigo de Dalva no final da vida dela — propõe, então, que ela faça um espetáculo interpretando o repertório de Kurt Weill e Bertolt Brecht. — Eu, um ator moderno, que gostava de Weill e Brecht, quis trazer a Dalva para esse universo. Na peça, ela realiza o meu sonho e canta “Jenny dos piratas” no final — adianta ele, que passa toda a encenação sentado num “troninho”, como diz.