Este texto é da newsletter de Thomas Traumann, enviada toda segunda-feira de manhã com uma análise do cenário político na semana que se inicia. Para ler antes da publicação on-line, direto no seu e-mail, clique aqui para se inscrever. Flávio Bolsonaro sobreviveu. Foi confirmado candidato pelo PL, fez uma trégua com Michelle Bolsonaro e segue com lugar cativo no segundo turno segundo a pesquisa Datafolha. Esta resiliência comprova a força da marca Bolsonaro. Mas a tempestade não vai terminar. Com a abertura do inquérito da PF para investigar onde foram parar os mais de R$ 60 milhões doados pelo banqueiro preso Daniel Vorcaro e as apurações sobre seu amigo Willer Tomaz, Flávio Bolsonaro segue na berlinda. Nas conversas no mercado financeiro, a porta-voz econômica de Bolsonaro, Daniella Marques, defendeu implantar no governo federal o conceito do Orçamento Base Zero, o método de gestão privada de que toda despesa precisa ser justificada ano a ano ou será cortada. Conhecido no Brasil por ser o modelo de gestão dos empresários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira, o OBZ virou sinônimo de cortes e controle rígido de gastos. Do outro lado, o presidente Lula interveio na coordenação da sua campanha. Olhos e ouvidos do presidente, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, será a ponte da campanha com o Palácio do Planalto. Contrariando a lógica de que campanhas eleitorais de incumbentes são sobre o governo, Lula decidiu que a sua propaganda vai recontar a sua trajetória. Ele acha que os mais jovens o enxergam como ‘parte do sistema’. E ainda uma crítica do livro “A Direita à direita da direita”, do jornalista João Gabriel de Lima, sobre como o extremismo ameaça a democracia no Brasil e na Europa. Boa leitura. Nesta edição: ⁠O orçamento base zero de BolsonaroA construção do mitoA força da marca Sem palco para RenanUsina de ideiasCrítica: ‘A Direita à direita da direita’Fique atento 1. O orçamento base zero de Bolsonaro Nas suas conversas no mercado financeiro, a porta-voz econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques, tem arrancado suspiros com a promessa de implantar no governo federal o conceito OBZ, sigla para Orçamento Base Zero, método de gestão privada pelo qual toda despesa precisa ser justificada ano a ano ou será cortada. Conhecido no Brasil por ser o modelo de gestão dos empresários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira (acionistas da Ambev, Kraft-Heinz e Lojas Americanas), o OBZ virou sinônimo de cortes contínuos e controle rígido de gastos. Nas apresentações que fez nos últimos dias no Itaú, BTG e XP, Marques usa o conceito do OBZ como uma fórmula para prometer austeridade fiscal sem ter de entrar em detalhes. É compreensível. Ninguém se elegeu presidente prometendo cortes de gastos e o próprio Flávio Bolsonaro descartou acabar com reajuste do salário mínimo pela inflação, desvincular os pisos de gastos com saúde e educação e fazer uma nova reforma da Previdência — três pontos considerados essenciais para controlar o déficit público por onze de cada dez executivos do mercado financeiro. Implantar um Orçamento Base Zero no setor público seria inédito e incrivelmente trabalhoso. Significa revisar cada compra, contratação e programa federal com o foco em cortes, uma reviravolta no funcionamento da máquina pública. Mesmo no setor privado há críticas ao modelo, como mostrou o colunista do Valor Guilherme Ravache ao relatar a crise na Kraft-Heinz. Como ocorre com todos os assessores de candidatos, Marques revelou nas conversas doses extravagantes de otimismo. Ela parte do princípio de que, se eleito, Flávio Bolsonaro vai convencer o STF, o Senado, a Câmara dos Deputados e o Tribunal de Contas da União a um “pacto nacional” de controle de gastos. Deste acordo sairia um mecanismo de controle da trajetória da dívida pública, que os executivos da Faria Lima compreenderam como uma suspensão total de gastos a partir de um teto. Ex-braço-direito de Paulo Guedes, Marques parte da premissa panglossiana de que o novo Congresso, por ser ideologicamente mais próximo de Bolsonaro, vai aprovar projetos que, por exemplo, contrariam os interesses de grupos empresariais beneficiados com renúncias fiscais. Para a surpresa de seus ouvintes, ela disse que “a conta do ajuste fiscal não vai cair nos mais pobres”. Falando para convertidos (conta-se nos dedos de uma única mão quantos não pretendem votar em Flávio Bolsonaro no segundo turno), Marques apresentou cálculos exuberantes de uma redução de despesas entre R$ 160 bilhões e R$ 220 bilhões por ano, quase o orçamento inteiro do Ministério da Saúde. A maior economia está na revisão das renúncias fiscais, de R$ 55 bilhões a R$ 75 bilhões por ano. A chamada “revisão construtiva” de programas públicos, com a eliminação de projetos cujos resultados o novo governo consideraria fracos, renderia entre R$ 20 bilhões a R$ 30 bilhões por ano. Uma reforma administrativa para futuros servidores públicos, de R$ 10 bilhões a R$ 20 bilhões. A revisão de despesas obrigatórias, com o fim da indexação de despesas, outros R$ 25 bilhões a R$ 35 bilhões. Ela ainda repetiu as promessas não cumpridas na gestão Paulo Guedes de venda massiva de imóveis federais, mas com números mais realistas. Guedes falava em arrecadar R$ 1 trilhão. Marques imagina algo entre R$ 100 bilhões e R$ 300 bilhões. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante agenda no Rio — Foto: Pablo Porciúncula/AFP 2. A construção do mito O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu que o marketing da sua campanha será sobre sua trajetória, da extrema miséria no agreste pernambucano às primeiras greves no regime militar, da criação do Bolsa Família no primeiro governo ao recente programa de refinanciamento de dívidas batizado de Desenrola, da prisão em 2018 ao confronto com Donald Trump. Contrariando a lógica de que campanhas eleitorais de incumbentes são sobre o governo, Lula quer usar os 5 minutos e 32 segundos que terá de propaganda no rádio e TV para recontar a sua vida. Na avaliação do presidente, os eleitores mais jovens não conhecem a sua história. Eles o enxergam como parte do establishment e não como alguém que lutou contra o sistema, como o próprio Lula se autodefine. O pontapé da estratégia começou neste domingo (26) com o lançamento do jingle Rap do Silva, que relata a história de quem “foi para São Paulo lutar” e recupera o slogan da campanha de 2006, “com a alma do povo e a cara da gente”. Diz a letra: Tentaram derrubar/ tentaram lhe calar/ enfrentou o sistema/ fez o povo prosperar/ não baixa a cabeça/ sempre defende a nação/ leva sua fé no peito e Brasil no coração/ é o Lula da Silva/ é a estrela que brilha/ ele é brasileiro/ trabalhador e família Como na teoria do monomito do antropólogo norte-americano Joseph Campbell (1904-1987), Lula será apresentado na propaganda de TV numa jornada do herói, o roteiro épico no qual uma pessoa comum é chamada a um desafio, tem a sua coragem testada, perde, se levanta, aprende com a derrota, alcança um estágio superior, enfrenta novamente a guerra e, desta vez, supera seus medos e demônios interiores para alcançar a vitória. É a construção de um mito. Na semana passada, o presidente interveio na coordenação da campanha ao enviar para lá o seu chefe-de-gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. Ele será os olhos e ouvidos do presidente. Em conversas com assessores, o presidente demonstrou constantes irritações com os coordenadores Edinho Silva e Sérgio Gabrielli, além de críticas ao tom considerado festivo das primeiras sugestões das peças dos programas de TV. Há um incômodo generalizado com as intrigas entre as equipes de comunicação da campanha e as de marketing indicadas pelo ministro de Comunicação Social, Sidônio Palmeira. 3. A força da marca Bolsonaro A despeito dos três meses de crises, o senador Flávio Bolsonaro sobreviveu. Ele atravessou a revelação de suas ligações com o banqueiro corrupto Daniel Vorcaro, fez as pazes com a madrasta, Michelle Bolsonaro, responsável pelo maior ataque especulativo contra sua campanha e prevaleceu como o candidato mais competitivo da direita. Na mais recente pesquisa Datafolha, Flávio Bolsonaro reduziu a vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno de dez para oito pontos percentuais. Sair só ferido desse tiroteio demonstra a força da marca Bolsonaro. Esse é o lado cheio do copo — que está longe de ser a metade. Flávio Bolsonaro não conseguiu o apoio formal do PP e do União Brasil, enfrenta negociações difíceis com o Republicanos e ainda não tem um candidato a vice. É provável que tenha menos tempo de TV que Lula no primeiro turno. É óbvio que as circunstâncias são diferentes, mas a comparação com o governador Tarcísio de Freitas sugere como a campanha de Flávio Bolsonaro se tornou estreita: Tarcísio, do Republicanos, tem apoio do MDB, PSD, PP, PL e PSDB. Os torpedos dos últimos dias mostram que suas relações com o banqueiro corrupto Daniel Vorcaro produzirão mais danos à sua campanha, e Flávio Bolsonaro ainda vai sofrer com a responsabilização pelo novo tarifaço norte-americano. O lado vazio do copo é maior que o cheio. Nos próximos dias, Flávio sofrerá novo desgaste com a divulgação de detalhes sobre a disputa em torno de uma mansão numa ilha no litoral de Angra dos Reis. O atacante Richarlison, do Tottenham, afirma ter pagado R$ 10 milhões pela casa ao dono, mas perdeu sua posse para o advogado Willer Thomaz, que adquiriu um antigo certificado de posse da propriedade. Richarlison diz que não recebeu seu dinheiro de volta. O que Flávio tem a ver com isso, além de vestir a camisa da Seleção Brasileira? Desde o governo de Jair Bolsonaro, Brasília inteira sabe que Willer Thomaz e Flávio Bolsonaro são quase a mesma pessoa. A presença de Willer em qualquer controvérsia é um problema para Flávio. Isso acontece no Rio, berço político dos Bolsonaro. Na quarta-feira (22), a Justiça bloqueou R$ 20,9 milhões da RioPag, que ganhou do governo de Cláudio Castro, do PL, o direito de processar pagamentos de bets e loterias estaduais e embolsou a parte do dinheiro do estado. De acordo com o repórter Demétrio Vecchioli, do Metrópoles, a RioPag pertence a Willer Thomaz. Ele nega ter vínculo com a companhia, mas seu nome é o único que aparece nos documentos da sociedade da empresa, pulverizada numa cadeia de fundos de investimento. Usar fundos é uma estratégia comum para ocultar os verdadeiros donos. Foi usada pelo Banco Master e por facções criminosas e outros suspeitos de operar no mundo das fraudes de combustíveis, como se viu na operação Carbono Oculto. O ministro do STF André Mendonça autorizou a Polícia Federal a abrir inquérito específico para investigar os pagamentos de Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”. Não há como a candidatura de Flávio não sofrer. Na hipótese menos ruim, a PF vai confirmar que os R$ 63 milhões dados por Vorcaro ajudaram a custear o filme. A história será a mesma, mas seu impacto será novo: quanto mais perto da eleição, pior para Flávio. O colunista Tácio Lorran, do Metrópoles, revelou uma nova suspeita de ligação de Flávio com Daniel Vorcaro. O escritório de Flávio emitiu — e depois cancelou — duas notas fiscais de R$ 1 milhão por serviços prestados à Copenhagen Assessoria, uma empresa constituída em novembro de 2024 e que um mês depois recebeu R$ 11 milhões do Banco Master. Após o cancelamento, o escritório de Flávio emitiu uma terceira nota, de R$ 500 mil, à Contábil Correa, que pertence no papel a Rogério Lourenço Novo, dono da Copenhagen. No Estadão, o colunista Francisco Leali mostrou que o escritório de advocacia de Flávio emitiu 41 notas fiscais desde 2021 — quando o pai era presidente. Flávio Bolsonaro até agora não informou quais serviços prestou à Copenhagen. A dinâmica de denúncias permanecerá porque, parafraseando o ex-ministro Pedro Malan, o passado de Flávio Bolsonaro é incerto. 4. Sem palco para Renan A campanha de Flávio Bolsonaro quer participar de debates de TV apenas com os candidatos obrigatórios, ou seja, de partidos com pelo menos cinco deputados: ele mesmo, Lula, Ronaldo Caiado e Augusto Cury, do Avante. A intenção é excluir Renan Santos, do Missão, que critica Flávio com mais vigor que o próprio PT. Marqueteiros dos dois líderes das pesquisas temem que Renan repita as performances de Pablo Marçal nos debates para a prefeitura de São Paulo e vire o centro das atenções. 5. Usina de ideias O presidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), Wadih Damous, encantou assessores presidenciais em busca de projetos eleitorais com a ideia de fazer uma medida provisória limitando os reajustes dos planos coletivos e proibindo as rescisões unilaterais dos planos individuais. Representantes do setor convenceram Lula a engavetar a ideia. 6. Crítica: “A Direita à direita da direita” Existe um pensamento mágico na política brasileira de que as eleições de outubro serão as últimas marcadas pela polarização entre lulistas e bolsonaristas. É possível que os dois líderes políticos mais carismáticos do século não sejam candidatos em 2030, mas é autoilusão supor que os movimentos que eles representam vão se esvair sem suas presenças. Em seu novo livro, “A Direita à direita da direita” (Editora Faria e Silva;163 páginas; livro: R$ 59,90; e-book: R$ 41,93), o jornalista João Gabriel de Lima mostra como o bolsonarismo se insere num contexto global maior do que o sobrenome familiar. Comparando a evolução da extrema direita na Europa e como ela empurrou a direita tradicional contra a parede, Lima recorda um conceito do sociólogo espanhol Juan Linz (1926-2013) sobre os democratas leais e os semileais. Os primeiros repudiam qualquer ameaça à democracia. Os semileais olham para o outro lado quando o autoritarismo avança. “A política brasileira, na era das democracias divididas em três, tem se cindido entre a esquerda que vota em Lula e numa direita que vota útil num candidato antipetista — e a força hegemônica no campo antipetista tem sido a ultradireita. Surgiu assim, na direita brasileira um exército de semileiais”, escreve Lima. 7. Fique atento O Novo faz convenção nesta segunda-feira para confirmar a candidatura de Romeu Zema. No fim de semana, Zema sondou o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa para ser seu vice.Depois dos motoristas de Uber e taxistas, o BNDES lança nesta segunda-feira o financiamento subsidiado de motocicletas.O embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, retorna hoje a Brasília, gesto que na diplomacia formaliza o protesto do governo contra as diatribes do presidente Javier Milei ao presidente Lula e ao ministro do STF Alexandre de Moraes durante a convenção do PL, no sábado, em São Paulo. Num delírio narcisista, no domingo Milei acusou o Brasil de patrocinar uma campanha para tornar a Argentina o time mais odiado da Copa do Mundo.Na terça-feira (28), Flávio Bolsonaro presta depoimento à PF por ter afirmado no X que Lula seria delatado pelo venezuelano Nicolás Maduro, preso nos EUA por tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Entra em vigor na quarta-feira (29) o segundo tarifaço dos EUA contra os produtos brasileiros. De acordo com levantamento da organização Global Trade Alert, o Brasil teve o maior aumento de tarifa entre os parceiros comerciais dos EUA. Apesar da vontade pessoal do presidente Lula de retaliar os EUA, o governo deve manter o discurso de portas abertas para novas negociações. Depois de recusar os vistos de dois diplomatas que, de acordo com o jornal Washington Post, pretendiam questionar as urnas eletrônicas, são nulas as chances de o governo Lula dar o agrément ao novo embaixador dos EUA em Brasília, Daniel Perez, antes do fim das eleições.No sábado (1), o Republicanos faz sua convenção. A tendência é que o partido recuse indicar a candidata a vice de Bolsonaro e fique neutro no primeiro turno.Ao longo da semana, a Genial/Quaest divulga pesquisas para governador e senador em dez estados.