O investidor que atravessou o primeiro semestre com títulos de crédito privado na carteira pode ter visto a marcação a mercado corroer parte do seu rendimento. Agora, os retornos começam não só a voltar ao patamar anterior como se acomodam um pouco mais elevados, ampliando a diferença para os títulos públicos, em especial entre os isentos. Há boas oportunidades nos títulos bancários, fundos de crédito estruturados e empresas de infraestrutura com receitas estáveis (e resistentes aos juros altos), de acordo com gestores ouvidos pelo Valor Investe. Outros papéis, porém, como os atrelados à inflação, ainda vivem um período de turbulência. Com o mercado em modo defesa, a demanda pelos ativos mais seguros aumentou. Quem já tem não quer vender, e as novas emissões ainda estão reduzidas. Riscos vindos de todos os lados – guerra, eleição, fiscal, tarifaço etc. – aumentam a aversão a risco, e a prioridade de gestoras e tesourarias tem sido segurar caixa até que o pior fique, de fato, para trás. Isso, porém, parece longe do horizonte. Para a pessoa física, há uma oportunidade de investir de olho no longo prazo, tanto no crédito privado quanto nos títulos públicos, enquanto a maioria do mercado diminui o seu horizonte. Mas é preciso ter bom planejamento e segurança de que não será necessário resgatá-los antecipadamente, sob o risco de que novos eventos de crédito, como os que estressaram o mercado em março, façam o título se desvalorizar no mercado secundário. Mesmo assim, há sinais de melhora, como a retomada da captação líquida entre fundos de renda fixa em julho. Após ter mais dinheiro saindo do que entrando em maio e junho, eles voltaram a registrar crescimento, com destaque para os fundos soberanos de duração baixa, que investem em títulos públicos com vencimento curto. Fundos de ações e multimercados perderam no mesmo mês. A virada nos títulos pós-fixados No crédito pós-fixado atrelado ao CDI, os sinais de melhora já apareceram no ganho real (descontando a inflação) dos papéis. O retorno da uma carteira teórica de títulos mais líquidos do mercado, o Idex-CDI, chegou ao pico de CDI mais 2,25% em abril, no auge da volatilidade, e voltou a CDI mais 1,32% em 14 de julho, abaixo da média histórica de CDI mais 1,57%, segundo dados da Idex Analytics. Com a recomposição, o índice acumula retorno de 8,50% em 2026, contra 7,41% do CDI. Taxas maiores no mercado secundário significam que os títulos se desvalorizaram, e taxas menores que eles ficaram mais caros. Entre quem já detinha os papéis, essa queda foi um alívio para a carteira. "Essa recompressão [das taxas] foi concentrada justamente na camada que estava mais pressionada", apontou Julia Bretz, gestora dos fundos líquidos e dos fundos agro da Leto Asset Management. Créditos considerados de primeira linha, como concessões rodoviárias e energia elétrica, abriram pouco no pior momento e voltaram rápido. Ainda assim, o mercado não está uniforme. Dos cerca de 500 papéis que compõem o índice da Idex Analytics, 8% seguem negociando acima de CDI mais 3%, o que é um sinal de estresse e, na avaliação da gestora, mantém espaço para a gestão ativa no segundo semestre. Infraestrutura: normalização concentrada no topo Nas debêntures incentivadas, o ajuste foi mais violento e a recuperação, contida. Como elas normalmente têm vencimentos mais longos, a marcação a mercado é muito afetada por uma alta das taxas. O retorno médio do Idex Infra, referência do setor, saiu de cerca de 0,3 ponto percentual abaixo do Tesouro IPCA+ no fim de janeiro para aproximadamente 0,5 ponto percentual acima dos títulos públicos em maio, um aumento de quase 0,8 ponto percentual. Com o prazo médio do índice, de aproximadamente 5,5 anos, o movimento representou impacto próximo de 4,5 pontos percentuais na marcação a mercado dos fundos de infraestrutura, estimou Antonio Pedro Leão Teixeira, gestor de debêntures de infraestrutura da Leto. Em junho, o índice fechou um pouco e estabilizou ao redor de 0,35 ponto percentual acima do Tesouro IPCA+, mais do que a média histórica observada desde 2024. A normalização também está concentrada nos créditos de melhor qualidade neste caso. Os ativos com nota AAA, que respondem por cerca de 70% do Idex Infra, caíram mais acentuadamente no último mês e já negociam perto da média histórica. Os papéis AA e A seguem na direção oposta, com prêmios de aproximadamente 0,62 e 0,86 ponto percentual, respectivamente, bem acima dos níveis vistos desde 2024. Do lado do fluxo, os pedidos de resgate da indústria caíram de forma expressiva no fim de junho e início de julho. Como os fundos de infraestrutura têm prazo mínimo de cotização de 30 dias, os resgates recentes ainda refletiam decisões tomadas no período de maior estresse. Com a saída de recursos menor, o desempenho positivo em junho e um mercado primário mais fraco, o cenário seria favorável à continuidade da queda das taxas. Ceticismo com os papéis atrelados à inflação continua Esse ajuste apenas parcial torna os títulos atrelados à inflação pouco atrativos no ciclo que se abre, afirma Sami Karlik, da Tivio Capital. Na sua leitura, o problema está em separar o juro real do retorno de crédito propriamente dito. "Quando você fala IPCA mais 8%, esse 8% não é o prêmio [ganho] de crédito. Um pedaço dele é o juro real do Brasil", disse. Com os títulos públicos em patamar historicamente elevado, a recompensa paga ao investidor para assumir o risco de crédito de um empreendimento quebrar ainda é considerada baixa. A isenção tributária dos títulos incentivados ajuda, mas seria preciso mais para atrair uma força compradora que estabilize os preços nos títulos com avaliação de crédito mais baixa, como ocorreu com os papéis que seguem o CDI. A avaliação é que, ao fim, emissões mais longas, de cinco a sete anos, guardam um risco desconfortável e têm sido evitadas. Onde os gestores estão comprando A Tivio concentra posições em papéis bancários e em vencimentos curtos, além dos setores clássicos de infraestrutura com proteção natural contra a inflação, como energia elétrica, rodovias e saneamento. Grandes distribuidoras de energia, lembrou Karlik, têm caixa em IPCA e parte da dívida em CDI, o que protege o credor. A dificuldade é encontrar oferta. "Ninguém quer vender", diz. A casa tem ampliado a exposição a estruturados, sobretudo cotas sêniores de FIDCs, que ainda ofereceriam ganhos interessantes com menos volatilidade. O critério de seleção é evitar casas muito novas e priorizar histórico de cinco a dez anos de operação, com diligência sobre gestor e administrador. No secundário, Otávio Faria, coordenador de renda fixa da Eleven Financial, vê distorções aproveitáveis. Ele cita casos de empresas, sobretudo no setor de saneamento e saúde, cujos títulos são negociados a taxas que se comparam a de empresas em crise, mesmo que elas não estejam. "O mercado bancário está tratando todo mundo como uma futura recuperação judicial", disse Otávio Faria, da Eleven. A recomendação de Faria, ainda assim, é de contenção: priorizar grandes marcas, empresas já testadas em crises no passado e desconfiança com taxas boas demais. "Qualquer papel que prometa CDI mais 10% é digno de desconfiança", diz. Nos títulos públicos, a leitura é de taxas que seguem atrativas e há oportunidades nos papéis atrelados à inflação, como defesa de médio e longo prazo. Quantos aos prefixados, ele até vê algum benefício em compor parte da carteira com títulos de vencimento curtos, desde que as taxas estejam acima de 14,50%. Menor do que isso, é melhor mesmo ficar na Selic.
Com o mercado em modo defesa, onde estão as oportunidades na renda fixa?
Retornos no crédito privado voltaram a subir após a turbulência do segundo trimestre, mas debêntures incentivadas ainda patinam e gestores mantêm cautela






