Há anos, uma divisão filosófica sobre como os softwares de inteligência artificial (IA) devem ser desenvolvidos separa os especialistas em tecnologia do Vale do Silício. Nesta semana, esse debate chegou ao ponto de ebulição, dividindo as posições entre desenvolver a tecnologia de forma fechada ou aberta e incluindo uma dimensão geopolítica, em mais uma frente de disputa entre EUA e China. De um lado do debate estão as principais empresas americanas de IA, como Anthropic e OpenAI, dona do ChatGPT, que afirmam que os modelos são perigosos demais para serem desenvolvidos de forma aberta e, por questões de segurança, devem permanecer sob controle rigoroso de empresas como elas próprias. Do outro lado está o restante da indústria de tecnologia, incluindo gigantes como Microsoft e Nvidia, que defendem que os chamados modelos de IA de código aberto devem continuar acessíveis para que outras pessoas possam aperfeiçoar as tecnologias e criar novos negócios. Esses dois grupos passaram a entrar em conflito publicamente. Na sexta-feira, Jensen Huang, CEO da Nvidia, escreveu em sua primeira publicação na plataforma social X que “o mundo precisa tanto de modelos de fronteira fechados quanto de modelos de fronteira abertos”. Nove minutos depois, Satya Nadella, CEO da Microsoft, publicou que o software de código aberto era “essencial para um ecossistema saudável de IA”. Ambos assinaram uma carta em apoio ao código aberto, juntamente com executivos da Meta, Palantir e IBM. Lobby em Washington e rápido avanço da China Ao mesmo tempo, OpenAI e Anthropic têm feito lobby junto a reguladores em Washington, levantando preocupações sobre modelos chineses de IA de código aberto, segundo cinco pessoas próximas às discussões. O debate também envolveu o secretário do Tesouro, Scott Bessent, e Michael Kratsios, assessor de ciência e tecnologia do presidente Donald Trump, que se manifestaram sobre o valor dos modelos americanos de IA como propriedade intelectual. A intensificação do debate polarizado decorre, justamente, da dimensão geopolítica, por causa do rápido avanço da China em modelos de IA de código aberto, que podem ser usados e aprimorados livremente. Modelos abertos geram demanda por chips e nuvem Entretanto, empresas como Microsoft e Nvidia, que dependem dos modelos de código aberto para impulsionar a demanda por seus serviços de computação em nuvem e por seus chips, argumentam que o software de código aberto é essencial para o avanço da tecnologia por meio do compartilhamento de conhecimento. O modelo aberto também permitiria que mais pessoas examinassem sua segurança. Para os fundadores de startups do Vale do Silício, restringir o software de código aberto poderia consolidar a liderança da OpenAI e da Anthropic, o que, segundo os críticos, sufocaria injustamente outras empresas que buscam desenvolver produtos concorrentes. — Há duas facções lutando por essa questão — afirmou Bill Gurley, investidor de capital de risco do Vale do Silício e opositor das restrições ao software de código aberto. — Há aqueles que querem que a OpenAI e a Anthropic controlem tudo, e há todo o resto, incluindo os clientes. O desfecho dessa disputa terá implicações profundas não apenas para a indústria de tecnologia dos EUA, mas também para a corrida entre americanos e chineses pela liderança nessa poderosa tecnologia. Embora a China tenha começado mais tarde o desenvolvimento da IA de ponta, ela vem alcançando rapidamente os EUA, em parte graças à sua adoção do código aberto, que permitiu aos laboratórios chineses evoluírem ao compartilhar publicamente seus sistemas e conquistar clientes em todo o mundo com preços mais baixos. 'Cópia clandestina' e propriedade intelectual Empresas americanas de IA, incluindo Anthropic e OpenAI, acusaram laboratórios chineses de “destilar” seus sistemas — isto é, copiá-los de forma clandestina —, o que chamou a atenção do governo Donald Trump. Na quarta-feira, Bessent afirmou que o governo havia considerado impor sanções a empresas chinesas que roubassem propriedade intelectual de companhias americanas. — Código aberto não significa temporada aberta para a propriedade intelectual americana — declarou o secretário do Tesouro, referindo-se aos direitos de propriedade intelectual. O Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, disse que códigos abertos não podem servir para cópia de softwares de propriedade intelectual americana — Foto: Eric Lee/Bloomberg No mesmo dia, Kratsios — que tem posição mais ou menos equivalente a ministro de ciência e tecnologia, já que os EUA não têm um departamento para a área — afirmou que “a destilação industrial em larga escala e de forma clandestina, com o objetivo de roubar tecnologia proprietária dos EUA e enfraquecer a pesquisa americana, é inaceitável”. As autoridades americanas ainda parecem estar debatendo suas opções, mas, segundo quatro pessoas familiarizadas com as discussões, tendem mais a regulamentar individualmente os modelos chineses de código aberto sob a ótica da segurança nacional do que impor uma proibição geral. Publicamente, executivos de tecnologia como Sam Altman, CEO da OpenAI, afirmam apoiar o software de código aberto, embora aliados da empresa façam discretamente lobby por restrições. Outros, incluindo Google e Amazon, que investiram bilhões de dólares em empresas como Anthropic e OpenAI, passaram a última semana tentando evitar envolver-se diretamente na disputa, mas a maré está mudando. No sábado, Sundar Pichai, CEO do Google, publicou nas redes sociais que sua empresa “há muito tempo se beneficia do código aberto” e contribui com esse ecossistema. Acrescentou ainda que o Google também assinou a carta da indústria em apoio ao código aberto. Debate antigo O debate entre softwares abertos e fechados acompanha o Vale do Silício desde os primeiros dias da indústria de tecnologia. Os defensores do código aberto argumentam que compartilhar informações gera melhorias que tornam os softwares mais seguros e confiáveis, além de acelerar a inovação. Os opositores sustentam que o desenvolvimento de software é caro e que distribuí-lo gratuitamente representa um modelo de negócios insustentável. Hoje, grande parte da internet moderna funciona sobre tecnologias de código aberto, assim como alguns dos sistemas computacionais mais utilizados do mundo, incluindo o sistema operacional Android, do Google. O governo chinês e a indústria de tecnologia do país adotaram a estratégia do código aberto para a IA. No ano passado, a startup chinesa DeepSeek apresentou um sistema de IA de código aberto que rivalizava com os das empresas americanas, surpreendendo o setor. Outras empresas chinesas seguiram o mesmo caminho. Em um discurso neste mês, o presidente da China, Xi Jinping, apresentou o país como um campeão global de uma abordagem aberta para essa tecnologia. Executivos da OpenAI vêm pressionando o governo Trump a adotar políticas que exijam avaliações obrigatórias de segurança para novos modelos de IA, supervisionadas por órgãos governamentais, conforme informou a empresa em uma publicação de blog no mês passado. Essa medida poderia limitar o desenvolvimento de softwares de código aberto. A OpenAI afirmou estar “encorajada” pelo trabalho que vem realizando com o governo na definição desse marco regulatório. Os defensores do código aberto passaram a última semana mobilizando apoio para reagir à OpenAI e à Anthropic. Antes da adesão dos líderes da Nvidia, da Microsoft, da Meta, da Palantir, da IBM e do Google, na quarta-feira, quase 200 startups do Vale do Silício, reunidas sob o nome Little Tech Association (Associação da Pequena Tecnologia, em tradução livre), assinaram cartas pedindo ao governo Trump que não restringisse o acesso aos modelos chineses de IA de código aberto. Na sexta-feira, Elon Musk, dono da fabricante de carros elétricos Tesla e da desenvolvedora de foguetes SpaceX, engrossou o coro. “Jensen está certo”, publicou Musk, referindo-se ao posicionamento do CEO da Nvidia. “Tem meu total apoio.” Também comentou sobre o posicionamento público do CEO da Meta, Mark Zuckerberg: “apoio esmagador à fonte aberta”.
Vale do Silício se divide sobre o fechamento das fronteiras para a IA chinesa
Corrida tecnológica entre EUA e China agita debate histórico sobre softwares abertos ou fechados
OpenAI e Anthropic lobbyam contra modelos open source chineses em Washington, enquanto Microsoft, Nvidia e Meta defendem acesso livre para inovação. Decisão define se EUA consolidam liderança tech via controle proprietário ou se China reduz distância via código aberto.













