Administração americana cancelou verbas de mais de 50 organizações e passou a exigir novos critérios para a concessão de recursos federais destinados à educação sexual de adolescentes 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Uma foto fornecida por Roland Thomas mostra participantes de um evento de um dia voltado para alunos do ensino fundamental II — incluindo oficinas sobre consentimento e relacionamentos saudáveis ​​— realizado pela Fact Forward, uma organização sem fins lucrativos que oferece aulas de educação sexual e saúde para adolescentes, em Columbia, Carolina do Sul, em 18 de junho de 2026 — Foto: Roland Thomas via The New York Times RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 24/07/2026 - 21:58 Governo Trump reformula prevenção à gravidez com foco na abstinência O governo Trump reformulou o programa de prevenção da gravidez na adolescência, priorizando a abstinência e o casamento, e cancelou verbas de mais de 50 organizações. As novas diretrizes eliminam discussões sobre prevenção de ISTs e sexualidade LGBTQIA+, baseando-se em critérios ideológicos. Organizações afetadas, como a Fact Forward, enfrentam cortes drásticos e buscam adaptar-se para continuar atendendo jovens. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Há algumas semanas, Rena Dixon, diretora da organização sem fins lucrativos Fact Forward, da Carolina do Sul, que oferece aulas de saúde e educação sexual para adolescentes, recebeu uma carta do governo do presidente americano, Donald Trump, com uma notícia devastadora. O governo estava encerrando, com efeito imediato, a concessão de US$ 1,6 milhão (cerca de R$ 8,1 milhões, na cotação atual) recebida pela instituição por meio de um programa federal voltado à redução da gravidez na adolescência. Segundo a carta, as prioridades da administração não são compatíveis com "conteúdos que incentivem, normalizem ou promovam atividade sexual entre menores de idade". A medida é o capítulo mais recente de uma campanha iniciada ainda no primeiro governo Trump para retirar recursos ou reformular a iniciativa, criada há 16 anos e orçada em US$ 100 milhões (R$ 508 milhões). Em 2018, os tribunais barraram essa tentativa, mas, desta vez, o governo — que cancelou abruptamente 53 das 67 bolsas do programa no mês passado — tem buscado agir de forma juridicamente mais sólida. A carta enviada pelo secretário-assistente de Saúde acusava a Fact Forward de utilizar aulas com "orientações sobre como tornar o uso de preservativos mais prazeroso" e de promover discussões que normalizariam o "uso de pornografia". Também afirmava que um vídeo do programa apresentava "um cenário de adolescentes envolvidos em atividade sexual". — Essas informações simplesmente não eram verdadeiras — afirma Dixon. Rena Dixon, diretora da Fact Forward — uma organização sem fins lucrativos que oferece aulas sobre saúde de adolescentes e educação sexual —, em Columbia, Carolina do Sul, em 14 de julho de 2026 — Foto: Sean Rayford / The New York Times Segundo ela, a organização jamais utilizou as aulas mencionadas pelo governo. Quanto ao vídeo citado, explicou: — Trata-se de uma adolescente contando a outra que teve relações sexuais, e a amiga responde: "Isso é um grande erro!". Em entrevistas, dirigentes de outras organizações também afirmaram que o governo distorceu o conteúdo de seus programas. Eles ressaltaram que os subsídios federais exigiam a utilização de cursos aprovados previamente pelo próprio governo, com eficácia e adequação etária comprovadas por pesquisas. A organização Healthy Futures of Texas, que atende adolescentes em Dallas, San Antonio e no Rio Grande Valley, teve sua verba renovada há menos de um ano, após passar por uma rigorosa avaliação federal de seus materiais. — Hoje, exatamente esses mesmos materiais estão sendo usados como justificativa para o cancelamento, sem qualquer oportunidade para responder às preocupações levantadas — conta Ginger Mullaney, diretora-executiva da instituição. — Todos nós ainda estamos tentando entender o que aconteceu. Agora, dezenas de organizações beneficiadas enfrentam um dilema existencial ao decidir se apresentarão, ainda esta semana, novos pedidos de financiamento conforme as regras estabelecidas pelo governo. Abstinência como prioridade Os novos critérios determinam que os beneficiários ensinem a abstinência como o único meio de prevenir a gravidez na adolescência. Os cursos também deverão enfatizar a importância do casamento e da procriação e orientar os jovens sobre como preservar sua fertilidade. As diretrizes fazem poucas referências à prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e praticamente nenhuma à sexualidade de pessoas lésbicas, gays ou transgênero. O Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA recusou-se a comentar as novas exigências ou o processo judicial em andamento. No entanto, essas diretrizes refletem propostas presentes no Projeto 2025 e em outros documentos da Heritage Foundation, que sustentam que os programas de prevenção da gravidez na adolescência partem do pressuposto equivocado de que a atividade sexual entre adolescentes é inevitável e ainda enfraquecem a autoridade dos pais. Na semana passada, três programas que perderam financiamento e uma organização sem fins lucrativos que os representa entraram com uma ação judicial contra o Departamento de Saúde e Serviços Humanos e seu secretário, Robert F. Kennedy Jr. Eles pedem que a Justiça suspenda tanto o cancelamento das verbas quanto as novas exigências, argumentando que elas criam uma estrutura baseada em critérios ideológicos que contraria os objetivos definidos pelo Congresso para o programa federal. "O Congresso claramente não pretendia que o Departamento de Saúde concentrasse um programa de prevenção da gravidez em ensinar estratégias para que jovens engravidem", escreveu a organização jurídica Democracy Forward na ação. Os projetos financiados pelos subsídios do Programa de Prevenção da Gravidez na Adolescência tinham duração de cinco anos e abordavam temas ligados à educação sexual, como consentimento, tomada de decisões e relacionamentos saudáveis, adaptados à idade dos estudantes e aos valores e à cultura de cada comunidade. As atividades eram realizadas em escolas, centros de internação para jovens infratores e instituições de acolhimento, além de promover oficinas de comunicação entre adolescentes e adultos de confiança. A taxa de natalidade entre adolescentes vem caindo de forma constante há mais de duas décadas. Pesquisadores apontam diversas explicações para essa tendência, entre elas o maior acesso dos jovens a métodos contraceptivos de longa duração, pílulas abortivas e até mesmo aos smartphones. Especialistas em saúde pública e comissões bipartidárias do Congresso também atribuem parte dessa redução aos programas federais de prevenção, que teriam contribuído para adiar o início da vida sexual dos adolescentes. Segundo dados provisórios mais recentes dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), a taxa de natalidade entre jovens de 15 a 19 anos caiu mais de 65% desde a criação do programa, passando de 34,3 nascimentos por mil adolescentes, em 2010, para 11,7 por mil em 2025. Ainda assim, em um momento em que a taxa geral de natalidade dos EUA está em queda — tendência criticada por muitos conservadores e outros grupos —, o novo edital de financiamento, com 89 páginas, determina que os programas utilizem um currículo conhecido como "evitação do risco sexual", que associa a abstinência na adolescência à maturidade e à preparação para o casamento e a parentalidade. Grande parte do texto reproduz quase integralmente trechos do currículo The Body Literacy Project, elogiado por alguns pensadores conservadores e líderes religiosos como alternativa à educação sexual nas escolas públicas. O site do projeto afirma que seus cursos foram desenvolvidos para se alinhar às prioridades do atual governo para o programa de prevenção da gravidez na adolescência. Os candidatos ao financiamento deverão apresentar módulos separados sobre saúde reprodutiva masculina e feminina. As jovens deverão aprender a reconhecer "a ovulação como o evento central e principal indicador da saúde hormonal e da fertilidade". Embora ginecologistas frequentemente prescrevam pílulas anticoncepcionais para tratar ciclos menstruais irregulares e dores intensas, os cursos deverão incluir "uma visão geral das abordagens para lidar com problemas de saúde menstrual, incluindo as vantagens e desvantagens da supressão ovariana". Já os módulos voltados aos rapazes deverão ensinar estratégias para administrar "a excitação espontânea de maneiras que favoreçam o autocontrole, a saúde e a fertilidade futura". Também deverão abordar "como a excitação repetida ou estimulada artificialmente pode afetar o desenvolvimento neural e o comportamento ao longo do tempo". Demissões e cancelamentos O financiamento federal da Fact Forward custeava cerca de 80% do projeto de prevenção da gravidez da organização. Desde que recebeu a carta informando o cancelamento dos recursos, Dixon precisou demitir metade da equipe e cancelar treinamentos para educadores locais e atividades de verão voltadas aos adolescentes. A organização atende cerca de 6 mil jovens entre 13 e 21 anos. — Quando as pessoas ouvem "programa de prevenção da gravidez na adolescência", imaginam que estamos distribuindo preservativos como se estivessem caindo do céu — observa Dixon, doutora em Saúde Pública. Mas, em estados conservadores como a Carolina do Sul, onde a legislação exige que as aulas de saúde nas escolas públicas enfatizem a abstinência, a Fact Forward atua dentro de limites bastante rígidos e conta até mesmo com um conselho consultivo religioso. A organização promove oficinas em porões de igrejas, clubes juvenis, bibliotecas públicas, centros de saúde e campi universitários. Assim como alguns outros diretores de programas, Dixon decidiu adaptar sua organização às novas exigências. Segundo ela, os recursos são importantes demais para serem abandonados. A Fact Forward apresentará seu novo pedido de financiamento nesta semana. — É um enorme desserviço ao que sabemos que funciona melhor em nosso estado. Mas, se eu conseguir impedir o fechamento de parte dos nossos programas para que os jovens continuem ouvindo falar sobre relacionamentos saudáveis, isso já será melhor do que nada. Não sei se vamos conseguir, mas pelo menos vou tentar.