0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Cruzamento de dados de boletins de ocorrência e das queixas registradas no portal Consumidor.gov ampliam visão sobre ações que financiam o crime organizado — Foto: Gerado por IA RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 23/07/2026 - 17:11 Brasil Usará IA para Combater Financiamento ao Crime Organizado via Consumo O governo brasileiro usará inteligência artificial para cruzar dados de segurança e consumo, visando identificar como infrações nas relações de consumo financiam o crime organizado. O projeto, uma iniciativa do Ministério da Justiça, pretende analisar milhões de boletins de ocorrência e reclamações no Consumidor.gov, visando sufocar fontes de receita de grupos criminosos que exploram falhas no consumo. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Até que ponto os problemas enfrentados pelos consumidores no dia a dia ajudam a financiar o crime organizado? Essa é uma das perguntas que um projeto do Ministério da Justiça pretende responder por meio do uso de inteligência artificial para cruzar cerca de 25 milhões de boletins de ocorrência da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) com dezenas de milhares de reclamações registradas no portal Consumidor.gov, além de dados de juntas comerciais e de outros bancos de informações. A portaria 1.248/2026, que institui o Programa Nacional de Integração e Compartilhamento de Dados e Informações para a Segurança Pública e Defesa Social foi assinada nesta quinta-feira. Embora as infrações nas relações de consumo sejam classificadas como de menor potencial ofensivo, elas hoje respondem por uma parcela relevante das receitas de organizações criminosas, afirma o secretário nacional de Segurança Pública, Chico Lucas. — O crime organizado se aproveita das falhas nas relações de consumo para estruturar golpes que rendem milhões de reais, com um risco muito menor do que roubos de rua ou assaltos a banco. Ao analisar esses dados com inteligência artificial, conseguimos identificar esquemas que escapam ao radar. Um exemplo é o de uma hamburgueria que anunciava nas redes sociais quatro lanches por R$ 100, mas nunca fazia as entregas. Existem centenas de boletins de ocorrência sobre esse caso, mas acreditamos que haja milhares de vítimas, que pensaram ter sofrido apenas um descumprimento de oferta, quando, na verdade, foram alvo de um golpe. Se dez mil promoções foram vendidas, os criminosos arrecadaram R$ 100 mil sem qualquer custo. O cruzamento dessas informações vai nos ajudar a sufocar fontes de receita hoje exploradas por esses grupos — afirma. Disparada do petróleo não altera perspectiva da inflação de julho. Persistência no novo patamar reduziria chance de alívio Chico Lucas destaca que os dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira, mostram uma redução generalizada dos crimes patrimoniais tradicionais, ao mesmo tempo em que apontam uma explosão das fraudes digitais. Com mais de 250 golpes por hora, esse tipo de crime já se consolidou como o principal delito patrimonial do país, como mostrou reportagem de Guilherme Queiroz. Mas os impactos da atuação criminosa vão além das fraudes. Segundo o secretário, há um avanço sobre serviços essenciais, como telefonia, internet, transporte e distribuição de gás. Em alguns casos, organizações criminosas passam a controlar a oferta desses serviços; em outros, ameaças e restrições de acesso impedem que equipes de concessionárias atuem normalmente, comprometendo a qualidade do atendimento prestado à população. — Os golpes são apenas a face mais visível dos prejuízos causados pelas organizações criminosas aos consumidores brasileiros. Esses grupos também vêm se infiltrando em serviços essenciais, como transporte, telefonia e internet, algo já demonstrado em investigações da Polícia Federal. Essa atuação compromete inclusive a prestação dos serviços pelas concessionárias, cujas equipes sofrem ameaças e violência. Com esse cruzamento de dados, ampliamos a proteção aos direitos dos consumidores e damos à Senasp uma visão mais abrangente para atacar as fontes de financiamento dessas organizações — afirma o secretário nacional do Consumidor, Ricardo Morishita. A dimensão do problema já aparece em diferentes levantamentos. Em audiência pública na Câmara dos Deputados, em abril, o presidente da Conexis Brasil Digital, Marcos Ferrari, afirmou que o crime organizado controla o acesso à internet em 313 municípios de seis estados brasileiros, afetando cerca de seis milhões de pessoas. Assessor especial do Ministério da Justiça e Segurança Pública e pesquisador do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni/UFF), Daniel Hirata afirma que a integração dessas bases de dados permitirá compreender de forma mais precisa como as organizações criminosas atuam em mercados legais e informais. — A base da Senacon passa a integrar esse grande data lake que está sendo formado, aumentando significativamente o volume e a qualidade das informações sobre esses mercados explorados pelos grupos criminosos. Há diversos setores, formais e informais, que sofrem atuação predatória dessas organizações. Isso faz parte da forma como o controle territorial é exercido em diferentes estados. Com o cruzamento de dados, teremos mais capacidade de fornecer subsídios às polícias e aos órgãos de investigação, mas também aos órgãos reguladores, que poderão identificar com mais precisão os gargalos que permitem a atuação desses grupos — afirma. Na avaliação de Carolina Grillo, coordenadora do Geni/UFF, o tratamento inteligente dos boletins de ocorrência, combinado às reclamações de consumidores, permitirá mapear regiões mais afetadas e dimensionar melhor os impactos dessas organizações criminosas sobre a vida cotidiana da população. — Os setores em que o crime organizado vem atuando são regulados, mas as agências não têm conseguido coibir essas práticas. O Estado precisa se estruturar para enfrentar a base econômica que sustenta essas organizações e recuperar o controle sobre territórios em que elas impõem monopólios de serviços e, muitas vezes, cobram valores extras da população para garantir o acesso. Isso faz com que justamente os mais pobres acabem pagando mais caro, por exemplo, pelo gás — exemplifica.