Responsável pela distribuição de “Dark Horse”, a Europa Filmes traçou três cenários para o desempenho nas bilheterias da cinebiografia de Jair Bolsonaro, que só deve entrar em cartaz nos cinemas brasileiros a partir de novembro, após as eleições presidenciais, em uma forma de blindar o longa-metragem de uma possível intervenção da Justiça Eleitoral. Nesta quarta-feira, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a abertura de um inquérito para investigar o nebuloso financiamento da produção, que teria recebido dinheiro do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. Conforme informou o blog, a Europa Filmes planeja um lançamento de grande porte para o filme sobre o atentado à faca contra Bolsonaro em 2018. A ideia é que "Dark Horse" seja exibido em pelo menos 650 salas – no patamar do fenômeno de bilheteria “Tropa de Elite 2” – e com cópias dubladas espalhadas por todo o país. Em meio à polarização política que pode invadir os cinemas, o diretor-geral da Europa Filmes, Wilson Feitosa, trabalha com três cenários para a performance comercial de “Dark Horse”. O filme tem apenas 90 minutos de duração, o que permitirá um maior número de sessões diárias nos cinemas. Na pessimista, o filme sobre Bolsonaro repete o fraco desempenho de “Lula, o Filho do Brasil” e atrai 800 mil espectadores. Na realista, faz entre 1,5 milhão e 2 milhões de espectadores. Na otimista, supera os 2 milhões – um patamar alcançado por poucos filmes nacionais lançados no pós-pandemia, especialmente os voltados para o público adulto. Para efeito de comparação, “O agente secreto” atraiu 2,4 milhões de espectadores ao longo de quatro meses em cartaz, turbinado pelo mar de premiações e as quatro indicações ao Oscar – algo que “Dark Horse” não deve ter a seu favor, como admite o próprio Feitosa. “Não é filme que vai ser indicado para o Oscar, não vai concorrer para indicação, mas tem esse selo hollywoodiano de qualidade”, afirma Feitosa, que tem no currículo o lançamento de produções nacionais como “O menino maluquinho” e “Lula, o filho do Brasil”, além de sucessos americanos, como o terror “A bruxa de Blair”. Conforme informou o colunista Lauro Jardim, do GLOBO, as grandes redes de cinema querem distância de “Dark Horse”, por temerem que a cinebiografia seja um fiasco de bilheteria, além de acirrar os ânimos entre bolsonaristas e lulistas, transportando a polarização política para as salas de cinema, com riscos de confusão e protestos em shoppings de todo o país. “Acho que os números não são irreais, considerando os votantes do Bolsonaro. Mas acho que precisa ver quais salas querem o filme”, afirmou ao blog um produtor brasileiro. No segundo turno das eleições presidenciais de 2022, Bolsonaro recebeu 58,2 milhões de votos. Saiba quem interpreta a família Bolsonaro em 'Dark Horse' 1 de 5 Jim Caviezel vive Jair Bolsonaro — Foto: Divulgação 2 de 5 Camille Guaty vive Michelle Bolsonaro em 'Dark Horse' — Foto: Divulgação X de 5 Publicidade 5 fotos 3 de 5 Marcus Ornellas vive Flávio Bolsonaro em 'Dark Horse' — Foto: Divulgação 4 de 5 Sergio Barreto vive Carlos Bolsonaro em 'Dark Horse' — Foto: Divulgação X de 5 Publicidade 5 de 5 Edward Finlay vive Eduardo Bolsonaro em 'Dark Horse' — Foto: Divulgação Pedido de Flavio Bolsonaro a Daniel Vorcaro por financiamento trouxe filme de volta ao noticiário Segundo Feitosa, “Dark Horse” não é uma peça de propaganda bolsonarista, ainda que o trailer disponibilizado indique um tom de thriller político, ambientado durante as eleições presidenciais de 2018, com destaque para o episódio da facada em Juiz de Fora (MG). Na versão americana do trailer, Bolsonaro é chamado de “voz do povo” que “enfrentou o sistema”, “sistema que falhou em silenciá-lo”. A maior parte das cenas envolve a recriação do episódio da facada que o então candidato do PL à Presidência sofreu em 6 de setembro de 2018 e a sua recuperação médica. A Europa Filmes pretende disponibilizar em dois meses uma versão brasileira do trailer, que seria veiculado nos cinemas já no período eleitoral. “Quero que seja um filme humano, tem de ser sensível, emocionante. Ele não pode ter esse cunho político que possam dar”, avalia Feitosa, sem antecipar detalhes. “O filme conta uma história que poderia ser de qualquer outra pessoa, mas é um ex-presidente e acabou criando essa polêmica toda. Pra mim, é um filme comum. Qualquer ação [judicial] que vier em cima do filme é de quem o fez, de quem criou. O meu trabalho é apenas distribuir.” Feitosa diz que não foi procurado e que nem pretende procurar a campanha do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República para discutir a estratégia de lançamento – e avisa que se o filho 01 de Bolsonaro quiser promover o filme, o fará por conta própria. Confirme informou o blog, a dor de cabeça que “Dark Horse” causou à pré-campanha à Presidência da República de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é inversamente proporcional ao “espaço” que o longa-metragem reserva ao senador. Na produção norte-americana, que recria o atentado à faca contra Jair Bolsonaro e a sua vitória nas eleições de 2018, o personagem de Flávio é secundário, com pouquíssimos diálogos – diferentemente do espaço reservado à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que tem um papel muito mais relevante na trama. Segundo a equipe da coluna apurou, integrantes do núcleo duro da campanha de Flávio fizeram questão de assistir a “Dark Horse” antes da estreia nos cinemas – prevista para ainda este ano, após as eleições – para avaliar os riscos de judicialização e de eventuais novos desgastes, já que o filme virou foco de crise no clã Bolsonaro, respingando nas intenções de voto. Isso porque mensagens reveladas pelo site Intercept Brasil mostraram que o filho 01 de Jair Bolsonaro cobrou dinheiro do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, supostamente para financiar o longa-metragem, o que arrastou Flávio para o epicentro do escândalo e levantou preocupações de aliados sobre o timing do lançamento de “Dark Horse”. Após conferir o filme, a avaliação do QG da campanha de Flávio é a de que “Dark Horse” está mais para um thriller policial sobre a facada em Jair Bolsonaro em 2018 do que para uma cinebiografia propriamente dita. O personagem de Flávio tem participação discreta na trama, o que na tese de seus assessores deveria esvaziar os argumentos da campanha lulista de que o filme pode ser usado para promover a sua candidatura. Segundo relatos obtidos pela equipe da coluna, o filme recria cenas como um debate presidencial, mas sem usar os nomes dos adversários que enfrentaram Bolsonaro naquele pleito, como Fernando Haddad (PT) e Marina Silva (Rede). O autor do atentado em Juiz de Fora (MG) é retratado como um militante de esquerda, mas não se chama Adélio Bispo. Um rascunho do roteiro explora a relação de Bolsonaro e Michelle, com cenas do casamento dos dois, o parto da filha Laura e o apoio da mulher durante a campanha eleitoral de 2018. “As coisas que dizem sobre você... Isso me assusta. Estão tentando provocar alguém para te machucar”, afirma a personagem da ex-primeira-dama, em tom premonitório. “Nossa filha precisa de você. Eu preciso de você.” Em outra cena, os personagens de Michelle, Flávio e Eduardo Bolsonaro conversam com o “doutor Tavares” nos corredores de um hospital após o atentado. “Deus está com ele, doutor”, afirma Michelle ao médico. O uso de imagens reais ocorre no final do filme, com registros da posse presidencial em Brasília. No entorno de Flávio, a leitura é a de que as escolhas narrativas do roteiro, co-assinado por Mário Frias, e a estreia após as eleições afastariam os argumentos de que o filme pode promover a candidatura do senador à Presidência da República. TSE já barrou filme sobre Bolsonaro Em 2022, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) suspendeu o lançamento de um filme sobre Bolsonaro nas últimas eleições presidenciais – no caso o documentário “Quem mandou matar Jair Bolsonaro?”, da produtora de vídeos de direita Brasil Paralelo, que seria exibido às vésperas do segundo turno. A diferença é que, no caso de 2022, Jair Bolsonaro era candidato à reeleição e protagonista do documentário sobre o atentado à faca, enquanto agora quem vai disputar a corrida presidencial é seu filho. O precedente de quatro anos atrás foi lembrado pelo grupo Prerrogativas e o deputado federal Rogério Correia (PT-MG), ambos aliados do presidente Lula, que acionaram em maio o TSE para pedir a abertura de uma investigação sobre o financiamento de “Dark Horse”, além de impedir o lançamento até o fim das eleições. Mas o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, arquivou o caso por questões processuais no mês passado, alegando que os autores da ação não tinham legitimidade. O elenco de “Dark Horse” é predominante estrangeiro, capitaneado pelo ator conservador Jim Caviezel, que interpreta Jair Bolsonaro e ficou célebre nas telas por estrelar “A paixão de Cristo”, no papel de Jesus Cristo. Já Michelle Bolsonaro é vivida por Camille Guaty, que tem no currículo participação nos seriados “Prison Break” e “The Good Doctor: O bom doutor”. A semelhança física entre Camile e Michelle chamou a atenção de quem conferiu “Dark Horse”. Flávio, por sua vez, é interpretado pelo ator gaúcho Marcus Ornellas. Dos três, é o único brasileiro. Os diálogos são em inglês, em uma estratégia para ampliar as chances comerciais do filme no exterior – aqui no Brasil, a distribuidora Europa Filmes aposta em cópias dubladas. Produtora nunca lançou nenhum filme As polêmicas em torno de “Dark Horse” não se limitam ao enredo e ao seu financiamento. Conforme informou o blog, a produtora responsável pelo longa-metragem, a jornalista Karina Ferreira da Gama, nunca lançou nenhum filme, nem no Brasil e nem no exterior. Karina entrou no projeto do filme pelas mãos do deputado federal Mario Frias (PL-SP), que assina o roteiro de “Dark Horse”. A jornalista também preside o Instituto Conhecer Brasil, que entrou na mira do Supremo Tribunal Federal (STF) pelo repasse de R$ 2 milhões em emendas enviadas pelo deputado para a produção de filmes. No dia 22 de junho, a Europa Filmes apresentou o pedido de Registro de Obra Estrangeira (ROE) na Agência Nacional de Cinema (Ancine) para “Dark Horse”, já esclarecendo que não se trata de um filme nacional. Esta é a primeira de uma série de outras etapas burocráticas para viabilizar o lançamento da produção, que inclui a emissão do Certificado de Registro de Título pela própria Ancine e o recebimento da classificação indicativa no Ministério da Justiça. Antes mesmo da Europa Filmes ter acionado a Ancine com o pedido de registro de “Dark Horse”, o filme já havia levado a agência a abrir em fevereiro deste ano um procedimento para verificar, entre outras questões, qual foi o papel efetivo da produtora Go Up na realização da cinebiografia sobre a carreira política de Bolsonaro. Em ofícios enviados à Go Up em fevereiro e março deste ano – antes, portanto, de virem à tona as mensagens e áudios de Flávio cobrando financiamento de Daniel Vorcaro –, a Superintendência de Fiscalização da Ancine notificou a produtora a “comprovar a comunicação à Ancine da produção da obra estrangeira Dark Horse” e destacou que a medida “é uma obrigação” prevista em instrução normativa da agência, em vigor desde 2008, que fixa as balizas para a produção de filmes estrangeiros no território nacional. Segundo as regras da agência, a filmagem de uma produção internacional no Brasil deve ser feita sob a responsabilidade de empresa registrada na Ancine, a quem caberá comunicar a agência e apresentar uma série de documentos, como cópia do contrato, plano de filmagem e passaporte de cada profissional estrangeiro contratado. Nada disso teria ocorrido no caso de “Dark Horse”. Após cobrar explicações da produtora Go Up Entertainment ao longo dos últimos cinco meses e não obter respostas, a Ancine decidiu agora mudar de estratégia e notificar a Europa Filmes, que pretende fazer a distribuição do longa no mercado nacional. Na prática, é como se, a partir de agora, a Europa Filmes fosse a “responsável legal” por “Dark Horse”. “Em regra os processos de registros não se confundem com os de fiscalização. No entanto, no caso concreto, o filme é objeto de processo de apuração em curso na Superintendência de Fiscalização”, informou a Ancine. “A apuração segue em curso, inclusive com diligências expedidas para solicitação de informações sobre as filmagens da obra no Brasil. Os processos de registro e fiscalização aguardam, no momento, a manifestação da empresa distribuidora. Por se tratar de processos em curso, a Ancine não antecipa conclusões sobre o mérito.”