Dados mostram que quase um em cada quatro eleitores brasileiros tem 60 anos ou mais 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Eleições 2024: votação em Benfica, Zona Norte do Rio — Foto: Custodio Coimbra/30-10-2022 RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 22/07/2026 - 22:05 Desmistificando o Estereótipo do "Tio do Churrasco" no Eleitorado Sênior Brasileiro O artigo desafia a caricatura do "tio do churrasco" como representação dos eleitores brasileiros com 60 anos ou mais, destacando que essa faixa etária é diversa e majoritariamente feminina. Contrariando estereótipos, muitos ainda trabalham e não se alinham automaticamente à direita. A principal fonte de informação para eles é a TV, mas o WhatsApp é crucial para discussão. Ignorar essa complexidade é desconsiderar um quarto do eleitorado, crucial em eleições apertadas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Quase um em cada quatro eleitores brasileiros tem 60 anos ou mais. É o maior patamar da história, e cresce rápido. Mesmo assim, boa parte da conversa política ainda enxerga essa gente por uma única figura: o tio do churrasco. O senhor que repassa áudio no WhatsApp, vota no passado e já decidiu tudo antes de a campanha começar. É uma caricatura cômoda. E está errada. Começo pelo primeiro furo. O tio é homem. A maioria do eleitorado com 60 anos ou mais é mulher: 55%. O tio está aposentado, de chinelo, sem fazer nada. Só que quase um em cada quatro brasileiros dessa idade ainda trabalha. Seu Antônio “aposentou-se” há três anos e abre a banca de conserto todo dia às oito, porque a aposentadoria chega, mas o boleto não se aposenta. O tio seria um bloco fechado. Acontece que quase metade desse eleitorado não tem partido nenhum. Não existe “o” eleitor 60+ no singular. É menos um bloco, mais um arquipélago. Nele cabem a aposentada que só tem o INSS, o pequeno empresário firme aos 66, a avó evangélica da periferia, o servidor aposentado, o produtor rural. Tratar tudo isso como uma pessoa só é o mesmo erro de quem imagina que a classe C pensa toda igual, e ela não pensa. A caricatura também erra na política. Ela supõe que envelhecer empurra para a direita. Os dados mostram o contrário: em toda pesquisa recente, é entre os mais velhos que o presidente Lula vai melhor. Mas é a mesma faixa em que mais de um terço se declara de direita, e na qual um nome conservador visto como experiente e sem susto disputa voto a voto. Não é reduto automático de um lado nem do outro. De onde vem a fama de atrasado? De uma confusão. Esse eleitor não vive de saudade. Ele usa o passado como régua. Guardou dinheiro que trocou de nome cinco vezes e quase sempre encolheu da noite para o dia. Quando perguntam em quem vai votar, ele não responde com bandeira. Responde com essa memória. O voto dele é menos uma aposta, mais um seguro: da aposentadoria, da saúde, da casa. Não pergunta quem é o novo. Pergunta quem bagunça menos a vida dele e a dos netos. Aqui aparece a maior distância para os mais jovens. Não é só opinião diferente, é fonte diferente. Entre os 60+, a televisão ainda é a principal fonte de informação para 55%. Entre os de 16 a 34 anos, esse lugar é das redes sociais. As duas gerações não recebem as mesmas opiniões. Recebem agendas diferentes, em velocidades diferentes. Mas achar que o idoso é analógico é outro engano. A TV é a praça onde a notícia é anunciada em voz alta. O WhatsApp é a varanda onde a família comenta. Ele filtra o que chega. Filtra pela confiança de quem conhece, não pelo algoritmo. Por isso a comunicação que o trata como frágil fracassa. As pesquisas do Locomotiva mostram: três em cada quatro não se sentem retratados. Ele não quer ouvir só sobre remédio e fila do INSS. Mede o governo na fila da consulta, no preço do café que não volta ao de dois anos atrás, na liberdade de decidir a própria vida. Tanto que teme perder essa autonomia muito mais do que teme a morte. Quem reduz esse brasileiro ao tio do churrasco não está rindo dele. Está deixando de enxergar um em cada quatro votos. Numa eleição que em 2022 se decidiu por menos de dois milhões, é a conta que não fecha.