Aplicativos, assistentes e sistemas de recomendação já incorporam tanta tecnologia que boa parte das pessoas nem percebe mais que está lidando com IA. 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira — Foto: Divulgação Há poucos anos, usar inteligência artificial era um evento. Uma novidade para mostrar aos amigos, um recurso para testar por curiosidade. Em 2026, isso mudou de figura. A tecnologia se espalhou por tantos aplicativos e serviços do dia a dia que grande parte das pessoas já nem percebe quando está interagindo com ela. O diretor de tecnologia, Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira, vê nessa mudança um sinal de maturidade. Não de acomodação. "Quando uma tecnologia é boa de verdade, ela desaparece. Ninguém para para admirar o motor do carro toda vez que liga a chave. A inteligência artificial está chegando nesse estágio: presente, útil e invisível", diz. O momento em que a novidade virou rotina Aplicativos de mensagem que sugerem respostas, sistemas de streaming que recomendam o próximo conteúdo e assistentes de voz que organizam a agenda são exemplos do tipo de inteligência artificial que já não chama atenção. Ela roda nos bastidores. Não pede permissão para impressionar quem está usando o serviço. Até aplicativos de banco e de transporte já incorporam essa camada de automação de forma tão discreta que o usuário só percebe o resultado prático, nunca a engrenagem por trás. Esse movimento, para Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira, acompanha um padrão que já se repetiu com outras tecnologias no passado. A internet discada era assunto de conversa nos anos noventa. Hoje, ninguém comenta que está conectado ao Wi-Fi. O mesmo caminho está sendo percorrido pela inteligência artificial. Só que em um ritmo muito mais rápido. Um exemplo que passa despercebido todos os dias Um bom retrato dessa invisibilidade está em aplicativos de transporte e de saúde, usados por milhões de pessoas todos os dias. O trajeto sugerido por um aplicativo de mobilidade, o horário estimado de chegada e até o valor cobrado por uma corrida passam por cálculos feitos por sistemas de inteligência artificial em tempo real. O mesmo vale para aplicativos de saúde que ajustam recomendações de exercício ou sono conforme o histórico da pessoa. Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira nota que quase nenhum usuário desses serviços descreveria o que está usando como "inteligência artificial". Para a maioria, é simplesmente o aplicativo funcionando bem. Essa percepção é, para ele, o objetivo final de qualquer boa tecnologia: parecer natural, não impressionante. Por que isso muda a forma como as pessoas se relacionam com a tecnologia? Quando uma ferramenta se torna invisível, a relação das pessoas com ela também muda. Em vez de aprender a usar um sistema novo, o usuário simplesmente vive com ele. Isso reduz a barreira de entrada. Mas também exige mais atenção de quem desenvolve essas soluções. Qualquer falha passa a incomodar como um problema cotidiano, não como um erro de novidade que se perdoa com facilidade. O diretor de tecnologia costuma comparar essa fase a um amadurecimento natural. Ferramentas que antes precisavam de manual e tutorial hoje funcionam de forma tão integrada que quase ninguém vai ler uma explicação técnica sobre como elas funcionam. Para ele, é exatamente isso que prova que a tecnologia deu certo. O que se perde quando a tecnologia se torna invisível demais? Nem tudo nessa transição é positivo. Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira alerta que a invisibilidade também dificulta que as pessoas entendam quando estão sendo influenciadas por um sistema automatizado. Recomendações de conteúdo, sugestões de compra e respostas automáticas moldam decisões do dia a dia sem que o usuário perceba claramente o mecanismo por trás delas. "O problema não é a tecnologia estar presente. É a pessoa não saber que está lidando com ela. Isso vale tanto para quem usa quanto para quem constrói esses sistemas: transparência não pode ser sacrificada em nome da comodidade", afirma. Como equilibrar praticidade com transparência? Para as empresas que desenvolvem esse tipo de solução, o desafio passa a ser diferente do que era há alguns anos. Não basta mais criar uma ferramenta útil. É preciso deixar claro, de forma simples e acessível, quando uma decisão foi tomada ou sugerida por um sistema automatizado. Isso sem exigir que o usuário comum precise entender de tecnologia para perceber isso. Um exemplo prático seria um aplicativo de streaming avisar, de forma discreta, que uma recomendação partiu do histórico de consumo da pessoa, e não de uma escolha editorial humana. Pequenos avisos como esse não atrapalham a experiência, mas devolvem ao usuário a noção de que existe um sistema automatizado por trás daquela sugestão. Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira acredita que esse equilíbrio será um dos temas centrais da relação entre pessoas e tecnologia nos próximos anos. A inteligência artificial já conquistou o espaço invisível do cotidiano. O próximo desafio é garantir que essa invisibilidade não vire opacidade, e que quem usa continue no controle das próprias escolhas, mesmo cercado de sistemas que trabalham silenciosamente ao fundo.
A inteligência artificial parou de parecer novidade, e Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira explica por que isso é bom sinal
Aplicativos, assistentes e sistemas de recomendação já incorporam tanta tecnologia que boa parte das pessoas nem percebe mais que está lidando com IA.








