As imagens registradas pela câmera de segurança de um caminhão, que flagraram o roubo de uma carga de medicamentos oncológicos na Linha Vermelha, em 31 de janeiro deste ano, levaram a Polícia Civil a identificar a atuação de uma quadrilha especializada nesse tipo de crime. Segundo o processo ao qual O GLOBO teve acesso, o motorista foi interceptado por criminosos armados e obrigado a seguir até o Complexo da Maré, na Zona Norte, onde a carga foi descarregada por mais de 15 homens armados, apontados como integrantes da organização criminosa. Durante a Operação Metástase, deflagrada nesta terça-feira, três suspeitos foram presos e tiveram a prisão em flagrante convertida em preventiva pelo Tribunal de Justiça do Rio. Ao justificar a manutenção das prisões, a Justiça destacou não apenas a violência empregada nas ações, mas também a suspeita de que medicamentos oncológicos de alto custo tenham sido adulterados e recolocados ilegalmente no mercado — hipótese que passou a ser um dos principais focos da investigação. De acordo com o depoimento da vítima na época, durante o roubo os criminosos chegaram a oferecer participação no esquema em troca de informações privilegiadas sobre futuras cargas de medicamentos, numa tentativa de ampliar a atuação da quadrilha. Ação de criminosos durou três minutos Toda a ação durou cerca de três minutos. As imagens mostram que, às 11h59, dois carros — um branco e outro azul-marinho — e uma motocicleta passam a cercar o caminhão na Linha Vermelha. O veículo branco faz manobras bruscas, corta outros automóveis e força o motorista a encostar no acostamento. Sob ameaça, a vítima é obrigada a seguir dirigindo até a entrada de uma comunidade no Complexo da Maré. No local, pelo menos 15 homens encapuzados e armados com fuzis e pistolas aguardavam a chegada do caminhão e ordenavam que o motorista posicionasse o veículo para o desembarque da carga. Em seguida, outros quatro criminosos descem do carro branco, também armados, e fazem sinais para que a vítima abra o compartimento de carga. Relembre o caso Uma quadrilha especializada em roubar medicamentos contra o câncer e revendê-los para hospitais privados e até mesmo públicos, por meio de licitações, foi alvo da Operação Metástase, deflagrada ontem pela Polícia Civil. De acordo com a investigação, pelo menos 50 cargas de remédios foram levadas por bandidos ao longo de três anos no Estado do Rio. Esse material era escondido no Complexo da Maré, na Zona Norte, onde o tráfico dá proteção a todo tipo de criminoso. A Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) defendeu o recolhimento imediato dos lotes cuja integridade não possa ser comprovada, a responsabilização dos envolvidos e o fortalecimento dos mecanismos de fiscalização. — Por trás dos medicamentos, há pessoas enfrentando doenças graves e depositando esperança em um tratamento que precisa ser seguro, eficaz e conduzido dentro dos mais rigorosos padrões de qualidade. Qualquer violação da cadeia de armazenamento e transporte desses medicamentos representa riscos aos pacientes — afirmou a presidente da entidade, Clarissa Baldotto. Medicamentos oncológicos e imunossupressores exigem rigoroso controle de temperatura e armazenamento. Quando submetidos a condições inadequadas, podem perder a eficácia, sofrer contaminação ou até gerar substâncias nocivas. Segundo a investigação, o desvio dessas cargas também pode comprometer o abastecimento de unidades de saúde e afetar diretamente o tratamento de pacientes com câncer, transplantados e pessoas com doenças autoimunes. Infográfico mostra como funcionava quadrilha que roubava medicamentos — Foto: Arte O GLOBO Jaguar na garagem Cinco pessoas foram presas ontem, incluindo Stefano Mantovani Fernandes, apontado como chefe da organização criminosa, que foi encontrado em Santo André, no ABC Paulista. Na casa dele, os policiais apreenderam um carro de luxo, um Jaguar, carregado com dezenas de caixas de medicamentos roubados no último dia 8 de julho, em Santo Antônio de Posse, no interior de São Paulo. A carga foi avaliada em R$ 4,6 milhões. Fernandes tem um longo histórico de envolvimento nesse tipo de crime. Em 2009, ele, o pai e duas irmãs foram presos na Operação Medula, da Polícia Civil de São Paulo, acusados de participar de um esquema de distribuição de medicamentos contra o câncer roubados ou desviados da rede pública de saúde de 50 cidades em 20 estados, causando um prejuízo de R$ 121,3 milhões, em valores atualizados. O Tribunal de Justiça de São Paulo informou que Fernandes foi condenado, em 2011, a 14 anos de prisão por associação criminosa, receptação dolosa qualificada e falsificação de produtos terapêuticos/medicinais. Em 2013, em outro processo, recebeu a mesma pena. Dez anos depois, progrediu para o regime aberto e, em fevereiro deste ano, recebeu indulto. Chefe de esquema de roubo de medicamentos contra o câncer é preso O grupo investigado movimentou mais de R$ 33 milhões entre 2025 e 2026. Segundo a Polícia Civil, após os roubos — praticados nas vias expressas da Zona Norte por criminosos fortemente armados — os medicamentos eram levados para áreas dominadas pelo Terceiro Comando Puro (TCP), na Maré, onde eram armazenados, redistribuídos e preparados para a revenda. A facção ofereceria proteção armada aos assaltantes. As investigações apontam que um dos núcleos da quadrilha fazia o armazenamento, o fracionamento e o envio dos medicamentos para receptadores em diferentes estados. Para esconder a origem da carga, o grupo utilizava pelo menos 25 empresas de fachada nos estados do Rio, de São Paulo, Goiás e Pará, além de transportadoras, entregadores e “laranjas”. Os agentes também descobriram que integrantes da quadrilha aliciavam funcionários de transportadoras para obter informações privilegiadas sobre rotas e cargas. Conforme a apuração, os medicamentos oncológicos e imunossupressores roubados eram revendidos para hospitais privados e, em alguns casos, para instituições públicas de saúde, por meio de licitações na modalidade de tomada de preços. Ao oferecer valores abaixo dos praticados pelo mercado, o grupo conseguiu inserir produtos roubados na cadeia formal de fornecimento. — Nós encontramos uma licitação em que uma das empresas foi vencedora para fornecer medicamentos para um hospital de crianças — contou Luiz Eduardo Moura, delegado da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas da capital. Tiros na chegada à Maré Na chegada dos agentes ontem à Maré, houve intenso tiroteio no início da manhã, o que afetou o trânsito na Linha Vermelha. Bandidos incendiaram barricadas para dificultar a passagem das equipes. Ações também ocorreram simultaneamente na Baixada Fluminense, além de endereços em São Paulo, Goiás e Pará, com apoio das polícias locais. A Justiça determinou o cumprimento de 97 mandados de busca e apreensão, o bloqueio de R$ 30 milhões em contas bancárias e o sequestro de imóveis, veículos de luxo e outros bens utilizados para ocultar o patrimônio da organização. Além de Stefano, também foram presos Carlos Roberto Fernandes, após agentes encontrarem armas sem registro em sua casa; Fernanda Rodrigues França, alvo de mandado de prisão e apontada como integrante do núcleo responsável pela receptação dos medicamentos; Guilherme Silva Lopes de Sena, companheiro de Fernanda, que era alvo de mandado de busca, mas acabou preso em flagrante por armazenar medicamentos de uso controlado sem autorização legal; e Umberto Xavier de Lima, identificado pelos investigadores como um dos receptadores do esquema. — O combate a esse tipo de crime exige atuação integrada entre as polícias. Além de atingir financeiramente as organizações criminosas, essa operação busca impedir que medicamentos de alto custo, destinados ao tratamento de pacientes, sejam desviados e comercializados de forma ilegal, colocando vidas em risco — afirmou Paul Verduraz, delegado da Polícia Civil de São Paulo, responsável pela Divisão de Investigações sobre Furtos, Roubos e Receptações de Veículos e Cargas (Divecar). Assaltos em alta Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que o roubo de cargas segue em alta no Estado do Rio. Entre janeiro e junho deste ano, foram registrados 865 casos, número que já supera em 138 ocorrências todo o acumulado de 2025. Segundo o RJ2, os roubos de remédios superaram os de cigarros, alimentos e eletrônicos. Na área que abrange apenas Benfica, Bonsucesso, Higienópolis, Manguinhos, Maré e Ramos — região apontada pela investigação como estratégica para a quadrilha —, o aumento também é expressivo. Até junho deste ano, foram contabilizados 143 roubos de carga, uma alta de 55% em relação ao total de 2025, quando foram registrados 92 casos. (Colaborou Henrique Barbi)