O Exército libanês acusou forças israelenses de dispararem perto de suas tropas nesta terça-feira, durante o início da implementação de um acordo mediado pelos Estados Unidos para a retirada de Israel de áreas ocupadas no sul do Líbano. No mesmo dia, o presidente libanês, Joseph Aoun, reuniu-se com seu homólogo americano, Donald Trump, na Casa Branca e pediu a manutenção do apoio de Washington às Forças Armadas do país. As tropas libanesas começaram a se mobilizar em uma vila no sul do Líbano após uma retirada israelense ocorrida mais cedo nesta terça-feira. Durante o encontro com Aoun, Trump afirmou que os EUA têm "planos concretos" para ajudar o governo libanês a enfraquecer o Hezbollah e disse que Israel está em processo de retirada do território libanês. O Exército israelense não respondeu imediatamente a um pedido de comentário sobre as acusações feitas pelos militares libaneses. O Exército do Líbano informou em comunicado nesta terça-feira que iniciou sua mobilização na vila de Zawtar al-Gharbiya, no distrito de Nabatieh, no sul do país. Os militares pediram aos moradores que não retornassem à região até que a situação de segurança estivesse estabilizada e orientaram a população a seguir as instruções das tropas em campo. Horas depois, os militares libaneses acusaram forças israelenses de abrirem fogo nas proximidades de suas unidades. Em comunicado, acrescentaram que "esse ato de agressão pode dificultar a implementação das etapas de mobilização nas áreas piloto". A mobilização faz parte de um acordo gradual pelo qual Israel concordou em se retirar de áreas do sul do Líbano, enquanto o Exército libanês pretende assumir o controle e garantir a segurança dessas regiões, permitindo o retorno de moradores deslocados. As áreas, descritas como "zonas piloto", servem para testar um acordo mais amplo firmado no mês passado entre Líbano e Israel para reduzir o conflito. No Líbano, críticos do acordo afirmam que ele não estabelece um cronograma definitivo para a retirada israelense. Em vez disso, o recuo das tropas de Israel está vinculado aos esforços do governo libanês para desarmar o Hezbollah, grupo armado apoiado pelo Irã e que atua à margem do controle do governo libanês. O Hezbollah não participou das negociações com Israel e rejeitou o acordo-quadro. O anúncio da operação ocorreu poucas horas depois de o Exército israelense informar que equipes militares de Israel, dos EUA e do Líbano estavam realizando atividades conjuntas de planejamento e coordenação para implementar o acordo. Como parte do entendimento alcançado no mês passado, Israel e Líbano também concordaram em criar um grupo de coordenação militar supervisionado pelos EUA. O Departamento de Estado americano informou em comunicado na segunda-feira que as operações iniciais nas "zonas piloto" incluiriam as vilas de Froun, Srifa e Zawtar al-Gharbiya e eram "resultado direto das discussões realizadas na semana passada entre Israel e Líbano em Roma". Israel e Líbano vêm mantendo raras conversas diplomáticas há meses, tendo se reunido primeiro em Washington e depois em Roma. Apoio dos EUA Durante a reunião na Casa Branca, Aoun agradeceu a Trump pelo que chamou de conquista "histórica" ao intermediar o acordo entre Líbano, Israel e EUA. Segundo o presidente libanês, o objetivo final do entendimento é encerrar "para sempre" o estado de hostilidade entre os dois países. Aoun também afirmou que o presidente do Parlamento libanês, Nabih Berri — líder do movimento xiita Amal e aliado do Hezbollah — apoia o acordo e os esforços do governo para implementá-lo. — Ele quer ver o fim da guerra e apoia o encerramento do estado de hostilidade, o fim da guerra de uma vez por todas — disse. O presidente libanês pediu ainda que Washington mantenha o apoio às Forças Armadas do país, alertando que a ausência desse respaldo poderia levar o sul do Líbano a voltar ao cenário de instabilidade vivido durante a guerra civil nas décadas de 1970 e 1980. — Tudo o que pedimos é que continuem apoiando as Forças Armadas Libanesas. Tenho total confiança nelas e em sua liderança — afirmou. O Hezbollah rejeitou as negociações com Israel, bem como os esforços do governo libanês para desarmar o grupo, aumentando as incertezas sobre o acordo mais amplo, sua implementação e o já frágil caminho do Líbano rumo à estabilidade. Questionado na Casa Branca sobre a possibilidade de dialogar diretamente com o Hezbollah, Trump respondeu: — Eu falaria com o Hezbollah. Eu falo com todo mundo. A retirada israelense, embora limitada em alcance, pode oferecer ao governo libanês uma oportunidade de fortalecer sua posição, avaliam alguns analistas. — Retirar-se da área não faz uma diferença enorme na prática — afirma David Wood, analista sênior para o Líbano do International Crisis Group, organização de pesquisa. — Mas o Estado libanês espera poder usar essa primeira "zona piloto" como prova de conceito, demonstrando que o Exército libanês consegue exercer controle efetivo e, assim, convencer os EUA a pressionarem Israel a aceitar novas "zonas piloto" em áreas totalmente ocupadas do território libanês. A mais recente rodada de confrontos começou no início de março, depois que o Hezbollah atacou Israel em resposta aos ataques dos EUA e de Israel contra o Irã iniciados em 28 de fevereiro. Mais de 4.300 pessoas morreram no Líbano e mais de 12 mil ficaram feridas no conflito mais recente, segundo autoridades de saúde libanesas. Autoridades israelenses afirmam que pelo menos quatro civis israelenses e mais de 30 soldados morreram. Até a tarde desta terça-feira, imagens divulgadas nas redes sociais e na televisão local mostravam moradores de Zawtar al-Gharbiya, além de ambulâncias, tentando acessar a área. No entanto, Abed Ezzedine, prefeito da vila, disse que os militares libaneses informaram aos moradores que eles não poderiam entrar na cidade nesta terça-feira. — O Exército libanês está fazendo o possível para liberar as estradas e ruas da cidade — disse Ezzedine em entrevista por telefone. — Estou aguardando ansiosamente com outras pessoas para entrar na cidade. Mal posso esperar para ver Zawtar novamente. (Com New York Times)
Exército libanês acusa Israel de disparar contra militares durante mobilização em 'zona piloto' no sul do Líbano
Acusação ocorre enquanto Beirute inicia a implementação de acordo mediado pelos EUA; em reunião com Trump, presidente libanês pede manutenção do apoio às Forças Armadas












