Após a isenção do Imposto de Importação para compras internacionais de até US$ 50, em maio, os principais aeroportos brasileiros e companhias aéreas passaram a registrar volumes recordes na movimentação de cargas, impulsionados pelo avanço das remessas do comércio eletrônico internacional. O crescimento, porém, vai além do efeito da chamada "taxa da blusinha". A expansão da atividade econômica, o fortalecimento da logística aérea e o aumento da demanda pelo transporte de mercadorias de maior valor agregado também vêm elevando o fluxo de cargas no país. Empresas do setor ouvidas pelo GLOBO projetam crescimento de até 15% na movimentação de cargas neste ano, impulsionado tanto pelo avanço das compras internacionais quanto por setores como farmacêutico, aeronáutico, tecnologia e óleo e gás. Do RioGaleão a Viracopos, passando por Guarulhos e Florianópolis, concessionárias ampliam terminais, investem em novos armazéns e expandem áreas dedicadas às remessas expressas para atender ao aumento da demanda. Além do avanço das compras internacionais, especialistas apontam que a expansão da carga aérea é impulsionada pela recuperação da atividade industrial de algumas atividades, pelo aumento das importações de medicamentos, eletrônicos e componentes industriais, além da ampliação da malha internacional. Dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) mostram que a movimentação de cargas cresceu 6,61% em junho na comparação com o mesmo mês do ano passado, a maior alta mensal do primeiro semestre. A expectativa do setor é que 2026 encerre com um novo recorde de movimentação. Galeão vai dobrar área de carga Após movimentar 30 milhões de remessas de comércio eletrônico em 2025, o aeroporto RioGaleão já projeta alcançar a marca de 50 milhões neste ano, o que significaria um aumento de 66%. Em junho, impulsionado pelo fim da isenção para compras internacionais de até US$ 50, o volume avançou 55% em relação ao mês anterior, chegando a cerca de 200 mil pacotes vindos da China por dia, transportados por aeronaves cargueiras e voos comerciais. O segmento de remessas internacionais é um dos que mais crescem no transporte aéreo de cargas. Segundo Leandro Lopes, gerente comercial do RIOgaleão Cargo, 15% de tudo o que o aeroporto movimenta nas importações corresponde a compras realizadas em plataformas de comércio eletrônico. Diante desse cenário, o aeroporto pretende ampliar sua atuação nesse mercado, com um projeto para dobrar a área atualmente destinada ao segmento e, no médio e longo prazos, quadruplicar esse espaço. Segundo Lopes, a maior oferta de capacidade cargueira beneficiará outros segmentos estratégicos da indústria brasileira que utilizam o aeroporto como porta de entrada, como petróleo e gás, farmacêutico, aeroespacial e automotivo, atualmente os mais representativos em volume. A expectativa é que a movimentação de cargas cresça entre 12% e 15% neste ano em relação a 2025. — Além da queda de impostos, há o crescimento do aeroporto e o investimento na melhoria dos processos. Vamos ter um aumento de números de voos cargueiros regulares. Hoje, o aeroporto atende ainda a outros mercados como Espírito Santo e Minas Gerais — afirma Lopes. Guarulhos tem recorde em maio Em São Paulo, os investimentos também vêm sendo acompanhados por resultados recordes. O terminal de cargas do aeroporto de Guarulhos (GRU Airport), responsável por mais de 50% das cargas aéreas importadas e exportadas no Brasil, registrou em maio a movimentação de 17.685 toneladas de cargas exportadas, o maior volume já processado pelo terminal em um único mês. Área de carga em Guarulhos: terminal registrou recorde — Foto: Divulgação No mesmo período, também recebeu 16.269 toneladas de cargas importadas, o maior volume desde o início da concessão. Para Milene Alves, diretora de Logística da GRU Airport, os números refletem a retomada da demanda e o fortalecimento da movimentação internacional. — O terminal recebeu recentemente novos equipamentos de movimentação de cargas, incluindo empilhadeiras movidas a energia limpa. Esses investimentos dão continuidade ao processo de modernização realizado desde o início da concessão, que incluiu a ampliação de armazéns, construção de câmaras frias, implantação de áreas climatizadas, expansão da infraestrutura para cargas perigosas, atualização de sistemas operacionais e renovação do parque de equipamentos —disse. Terminal para encomendas expressas Em Viracopos, a movimentação de cargas cresceu 11,63% nos cinco primeiros meses de 2026 em comparação com o mesmo período do ano passado. O desempenho foi impulsionado pelos segmentos metal-mecânico, de tecnologia e farmacêutico. De janeiro a maio, passaram pelo terminal 122.484 toneladas, ante 109.722 toneladas no mesmo intervalo de 2025. Os dados também mostram o melhor resultado para um mês de maio dos últimos três anos: foram 26.937 toneladas movimentadas, frente a 24.005 toneladas registradas em maio do ano passado, uma alta de 12,2%. O avanço foi impulsionados pelo crescimento de diferentes segmentos, como importação geral (+3,74%, com 40,5 mil toneladas), exportação (+11,09%, com 39,6 mil toneladas) e remessas expressas (courier), que cresceram 30,5% nos cinco primeiros meses do ano, totalizando 4,4 mil toneladas. De acordo com Maria Fan, diretora Comercial de Viracopos, o crescimento está relacionado à adaptação do aeroporto ao avanço do comércio eletrônico e das remessas urgentes, consolidada com a construção de um terminal dedicado exclusivamente às encomendas expressas. Além disso, o aeroporto ampliou as áreas de armazenagem para atender ao aumento da demanda do e-commerce. — Viracopos é responsável pelo processamento de aproximadamente um terço de toda a carga que chega ao Brasil pelo modal aéreo. Temos importantes investimentos em andamento para ampliar nossa capacidade operacional e ainda aperfeiçoar as soluções de monitoramento de produtos farmacêuticos importados — exemplifica Maria. Novo armazém com investimento de R$ 50 milhões De olho nesse crescimento, Viracopos planeja construir um novo armazém dedicado à importação de cargas farmacêuticas, com investimento de R$ 50 milhões. O aeroporto também mantém projetos de expansão e modernização para atender às novas demandas e vem disponibilizando áreas para novos galpões logísticos. Segundo a executiva, a meta é transformar Viracopos no maior complexo de carga aérea do Brasil até o fim de 2026. A estratégia também passa pela diversificação das cargas movimentadas. Entre os exemplos estão equipamentos destinados a grandes eventos musicais, como Rock in Rio, Lollapalooza, The Town e Primavera Sound. — Recebemos seis cargueiros com todos os equipamentos para os shows do cantor Harry Styles, com mais de 500 toneladas no total — cita a executiva. O Floripa Airport Cargo, embora não opere com remessas expressas, também vem registrando alta na movimentação de cargas. No acumulado do primeiro semestre, o terminal movimentou 4,154 mil toneladas, crescimento de 15% em relação ao mesmo período de 2025. Outro destaque foi o mês de junho, quando registrou o melhor resultado da história na movimentação de cargas de importação, com 876 toneladas desembarcadas, volume 52% superior ao registrado no mesmo mês do ano passado. — O crescimento é resultado de uma combinação de fatores. Um dos principais é a ampliação da conectividade internacional. Atualmente, temos operações cargueiras regulares ligando Florianópolis a Miami e Frankfurt, além de utilizar a capacidade de transporte dos voos comerciais para Lisboa, Panamá, Santiago do Chile e Buenos Aires — explica Ricardo Gesse, CEO da Zurich Airport Brasil. Complexo com temperatura controlada Gesse destaca ainda a ampliação do terminal, com a criação de um complexo de temperatura controlada cuja capacidade foi ampliada em 400%, refletindo a crescente demanda dos setores de saúde e da indústria farmacêutica: — A operação de cargas é um pilar estratégico porque diversifica as receitas do aeroporto e fortalece seu papel como indutor do desenvolvimento econômico de Santa Catarina. Inauguramos um novo terminal de cargas em 2024, projeto que recebeu investimentos de R$ 10,5 milhões e triplicou a capacidade de armazenamento. Agora, a expansão incluiu novos armazéns para carga seca, áreas especializadas para produtos farmacêuticos e infraestrutura moderna para operações de temperatura controlada. Companhias aéreas veem demanda maior O aumento da demanda também vem acelerando investimentos e ampliando a capacidade das principais companhias aéreas de carga do país. A LATAM Cargo Brasil, com uma frota de 20 aeronaves cargueiras, cada uma com capacidade para transportar mais de 50 toneladas, também ampliou o volume transportado. Somente em maio, o volume transportado aumentou 3,5% em relação ao mesmo período do ano passado. Segundo Otávio Meneguette, diretor da companhia, o avanço reflete a combinação da expansão do comércio eletrônico, da crescente demanda por entregas mais rápidas e da busca por soluções logísticas confiáveis para produtos de alto valor agregado e operações estratégicas: — Assim o modal aéreo tem se consolidado como um importante aliado para conectar diferentes regiões apoiando cadeias de suprimentos cada vez mais dinâmicas. Para acompanhar esse movimento na frente de e-commerce, temos investido continuamente na ampliação de nossa capacidade operacional, em tecnologia e na modernização dos nossos processos. Entre as iniciativas recentes na operação doméstica, há a expansão de 47% da área dedicada ao e-commerce no nosso terminal de cargas de Guarulhos. O executivo lembra ainda que a companhia investiu R$ 10 milhões em um sistema que agiliza a classificação de volumes no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, capaz de processar até 72 mil pacotes por dia. Além disso, firmou parceria com a Amazon para ampliar a eficiência logística. A empresa também reforçou a operação de cargas entre São Paulo e Manaus e expandiu sua atuação internacional, com voos para Miami, Amsterdã e Bruxelas. — Entre março e maio de 2026, 90% das cargas transportadas foram entregues em até 48 horas no mercado doméstico, ante 82% no mesmo período de 2025, enquanto o volume de cargas entregues nesse prazo cresceu mais de 10% — diz Meneguette. A GOL também vem ampliando suas operações. Nos últimos cinco anos, a companhia passou de duas para nove aeronaves cargueiras e ampliou sua malha para 14 destinos. Também firmou parceria com o Mercado Livre. Patrícia Bello, diretora da GOLLOG, afirma que o aquecimento do mercado de cargas expressas reflete uma demanda crescente dos consumidores por entregas cada vez mais rápidas: — Temos 122 bases ao todo no país, o que nos permite atender mais de 4 mil cidades brasileiras. Esse grande fluxo e a nossa cobertura exigiram uma modernização constante da infraestrutura, focada hoje na otimização de todas essas unidades para garantir eficiência no fluxo de mercadorias.