Com o fim da chamada “taxa das blusinhas” em maio deste ano, a importação de produtos de baixo valor voltou a crescer de forma expressiva no Brasil, como adiantado pela coluna Capital, do GLOBO. Em junho, primeiro mês completo com as novas regras, o volume de encomendas internacionais aumentou 116% em relação ao mesmo período do ano passado e 40% na comparação com o mês anterior. Os dados são de relatório do BTG Pactual, com base em números do programa Remessa Conforme, divulgados pela Receita Federal. Na comparação com abril de 2026, último mês completo em que a taxa ainda estava em vigor, o número de remessas avançou 74%. O crescimento também aparece nos valores movimentados. As importações internacionais somaram R$ 2,6 bilhões em junho, alta de 101% na comparação anual. Em relação ao mesmo mês de 2024, antes da criação da cobrança federal, o aumento foi de 68%. O fim da taxa foi comemorado por marketplaces internacionais, embora não tenham informado se o volume de compras de importados subiu no último mês. “A atual estrutura tributária para compras de menor valor democratiza o acesso do consumidor brasileiro a produtos exclusivos e marcas globais, beneficiando diretamente as classes de menor renda e ampliando seu poder de compra”, disse o AliExpress, em nota, informando que mantém uma expectativa positiva para os próximos meses e que não houve alteração em seus prazos de entrega em junho. A Shein, por outro lado, foi alvo de reclamações de clientes nas redes sociais, que observaram que os pedidos comprados entre o fim de maio e início de junho estavam demorando mais a chegar. Alguns usuários comentaram que estavam recebendo a seguinte notificação no aplicativo: “Devido à insuficiência de recursos logísticos, o envio do seu pedido poderá sofrer atrasos”, o que atribuíram ao possível maior volume de pedidos com o fim das taxas. Procurada, a Shein preferiu não comentar. “Taxa da blusinha” é como ficou conhecida a taxa federal estabelecida pelo Programa Remessa Conforme, de agosto de 2024, que definiu que encomendas de até US$ 50 — ou cerca de R$ 256, na cotação atual — estavam sujeitas a um Imposto de Importação de 20%. Segundo a consultora de varejo Ana Paula Tozzi, a redução da tributação ajuda a explicar o crescimento das importações, mas se soma ao avanço das plataformas estrangeiras, que vêm ampliando a variedade de produtos e reduzindo os prazos de entrega. — A redução da tributação certamente ajuda a explicar parte do aumento das importações, mas não é o único fator. As plataformas internacionais já vinham ganhando escala, reduzindo prazos de entrega, ampliando o sortimento e investindo fortemente em inteligência artificial e personalização da oferta. Desafio para o varejo nacional No entanto, o fim da taxa e a retomada das compras internacionais ampliam a pressão sobre o varejo brasileiro. — O ponto central é a assimetria competitiva. O varejo brasileiro entra nessa corrida em desvantagem, porque opera com uma carga tributária elevada, custos logísticos maiores, legislação trabalhista complexa e uma série de obrigações regulatórias que os concorrentes internacionais não enfrentam na mesma intensidade. Quando essa diferença aumenta, a competição deixa de ser apenas sobre eficiência ou inovação e passa a ser uma disputa entre modelos de custos muito diferentes — afirma Ana Paula. Para os analistas do BTG Pactual, porém, as empresas nacionais estão em melhores condições para enfrentar essa disputa do que no passado, após adotarem medidas para elevar a eficiência e fortalecer as vendas digitais. “Os varejistas brasileiros estão estruturalmente mais bem posicionados para competir do que estavam nos anos anteriores. Desde a implementação do Remessa Conforme, a maioria das varejistas listadas em Bolsa fortaleceu suas capacidades logísticas e de distribuição, aumentou sua competitividade em preços, expandiu suas operações de comércio eletrônico, reduziu os prazos de entrega e aprimorou sua proposta de valor, tornando-se mais resiliente à concorrência internacional”, afirmam no relatório. Limite para a eficiência A especialista também avalia que as empresas brasileiras estão mais preparadas, após revisarem custos e investirem em inteligência artificial, automação, logística e integração entre lojas físicas e canais digitais. Ainda assim, pondera que esses ganhos não são suficientes para eliminar as diferenças estruturais enfrentadas pelo setor: — Existe um limite para a eficiência. O varejo brasileiro pode ganhar produtividade, reduzir desperdícios e operar melhor, mas isso não elimina a assimetria estrutural da competição. Nenhuma empresa consegue compensar indefinidamente diferenças relevantes de carga tributária, custos regulatórios e ambiente de negócios apenas cortando custos. Nesse cenário, a tendência é que as varejistas nacionais dependam menos da disputa por preço e busquem se diferenciar pela rapidez das entregas, pela experiência de compra, pelo atendimento e pela fidelização dos clientes. A presença física e o conhecimento sobre os hábitos do consumidor local também podem se tornar vantagens importantes. — O varejo brasileiro conhece profundamente o consumidor local, possui capilaridade, lojas físicas e relacionamento. Esses ativos passam a ser ainda mais importantes em um cenário de concorrência global. Isso é o que vai separar os vencedores dos demais — conclui. Em nota, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que representa as plataformas Shein e AliExpress, disse ser "natural e esperada" a alta nas vendas após a revogação da taxa. "A isenção do imposto federal é um avanço para a democratização do consumo, pois promove inclusão social, reduz desigualdades e movimenta a economia." A entidade ressalta, porém, que a medida provisória (MP) que zerou a tributação ainda não foi aprovada no Congresso. Como a MP expira em setembro, a cobrança ainda poderá ser restabelecida. Como ficou a tributação Mesmo com o fim da “taxa da blusinha”, a partir de 13 de maio, o ICMS, imposto estadual que também incide sobre as encomendas de até US$ 50, continua sendo cobrado. Ele varia entre 17% e 20% por cento da compra, a depender do estado. Assim, a carga tributária atual é menor do que a aplicada durante a vigência da taxa, mas permanece acima do nível observado antes da criação do Remessa Conforme, que formalizou a cobrança do ICMS nas compras internacionais de baixo valor. Além disso, para pedidos acima de US$ 50 também continua valendo o imposto federal de 60% do valor do produto.