As mudanças de hábito de consumo e do tamanho das famílias brasileiras têm levado a indústria de laticínios a buscar novos formatos para a venda de seu produto mais básico, o leite. Aos poucos, as gôndolas dos supermercados têm apresentado embalagens de meio litro ou menos. A fazenda gaúcha Trevisan é uma das empresas que apostaram nas embalagens menores. O laticínio lançou a versão de 500 ml do leite integral e desnatado do tipo A há oito anos e, desde então, tem mantido os dois produtos em seu portfólio como estratégia para atingir um nicho de mercado que tem crescido ano após ano. — A gente percebeu que atingia outro público, pessoas que muitas vezes não tomavam mais leite por algum motivo — observa a gerente de marketing da fazenda Trevisan, Juliana Sperling Bastian Trevisan. Segundo os dados do IBGE, a proporção de brasileiros que moram sozinhos saltou 52% no intervalo de 12 anos e representa um em cada cinco lares do país. Trata-se do segmento de domicílios que mais cresce, o que contribui para a movimentação da indústria, mesmo diante de um volume de vendas ainda pequeno quando comparado com as embalagens tradicionais, de um litro. No caso da Trevisan, a gerente estima que as vendas de embalagens de meio litro representem menos de 5% do total comercializado do laticínio: — Se a gente fosse vender apenas o leite de meio litro, não seria viável. Ele é viável porque acaba estando em conjunto com os outros produtos. A estratégia, afirma, está em atender um público que, de outro modo, não consumiria leite no seu dia a dia. A goiana Italac também vinha sendo cobrada pelos seus consumidores por opções com embalagens menores. Este ano, decidiu atender o público com uma edição limitada das embalagens de 250 ml de leite A2, de mais fácil digestão. — Tem muita gente que não gosta da proteína com água, gosta com leite. Começamos a enxergar muitos usos para esse tipo de produto com a necessidade de ter embalagens para atender os diferentes públicos — afirma a gerente de marketing da companhia, Andreia Alvares. A decisão, segundo Andreia, acompanha ainda as mudanças de padrões futuros de consumo que já se desenham no presente: — Enxergamos que não vai ter tanto consumo para volume. E hoje, se a gente olhar esse mercado que vem com as canetas emagrecedoras, com várias outras questões de saúde, de dietas um pouco mais restritivas, o consumo em termos de volume de produto é menor. O lançamento aproveita as embalagens longa vida já usadas para venda de bebidas prontas e molhos, e a aposta no leite do tipo A2 visa justamente um público de nicho. Movimento oposto Em São Paulo, o laticínio Letti seguiu o caminho oposto após ver queda no volume de leite desnatado vendido desde que passou a apresentá-lo na versão de 500 ml, ainda em 2023. Colheita tardia e frio deixam as maçãs desta safra mais doces: entenda o chamado ‘pingo de mel’ nas frutas — A nossa ideia era justamente abraçar esse público, mas o que vivenciamos na prática foi uma diminuição do volume total de vendas. E, obviamente, se a gente for pensar, isso tem certa lógica porque a pessoa que comprava uma garrafa de um litro passou a comprar de meio litro — explica a diretora de operações da Letti, Tais Jank. A Letti decidiu descontinuar a versão de meio litro do leite desnatado este ano. Para o sócio da Milkpoint Valter Galan, o objetivo é aumentar o consumo per capita, que está estagnado em 30 litros por ano.