Tóquio flexibilizou vestimentas no trabalho após sucessivos verões de calor recorde; medida levanta discussões sobre aparência e padrões de comportamento no ambiente de trabalho 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Funcionários vestindo bermudas enquanto trabalham no edifício do Governo Metropolitano de Tóquio, no Japão, em 14 de julho de 2026 — Foto: Noriko Hayashi / The New York Times RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 20/07/2026 - 18:33 Japão Debate Uso de Bermudas no Trabalho em Meio a Calor Extremo e Mudanças Culturais No Japão, a flexibilização do uso de bermudas nos escritórios, devido ao calor extremo, gerou debates sobre etiqueta e padrões de vestuário. A iniciativa "Cool Biz" visa reduzir o uso de ar-condicionado e economizar energia, mas provoca discussões sobre a aparência masculina, apelidada de "sune-hara" ou "assédio das pernas peludas". A medida reflete mudanças culturais e climáticas, mas enfrenta resistência e desafios de implementação. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Por mais de três décadas, Noboru Watanabe vestiu o uniforme clássico do funcionário de escritório japonês: calças sociais, camisa engomada, paletó e gravata. Mas, na semana passada, Watanabe abandonou esse visual para algo antes impensável: uma camiseta e uma bermuda cáqui. O funcionário da área ambiental do governo de Tóquio, de 53 anos, aproveitou uma nova política do governo da capital japonesa que permite o uso de bermudas nos escritórios, após sucessivos verões de calor recorde. — Todos dizem que pareço mais jovem — afirma Watanabe, perto de sua mesa. — Pareço mais acessível. Sinto que estou ajudando a deixar todo o escritório mais descontraído. Noboru Watanabe, um funcionário da área ambiental em Tóquio, Japão, trocou o uniforme por uma camiseta e bermuda cáqui em 14 de julho de 2026 — Foto: Noriko Hayashi / The New York Times A medida é a mais recente tentativa das autoridades japonesas de convencer milhões de trabalhadores de escritório a adotarem roupas mais leves durante o verão, tornando o ambiente de trabalho mais confortável, reduzindo o uso de ar-condicionado e economizando energia. 'Assédio das pernas peludas' Por meio da iniciativa "Cool Biz", o governo incentiva os trabalhadores a abrirem mão dos ternos pesados em troca de camisas polo, peças de linho e tênis durante os períodos de calor. Mas as bermudas, liberadas neste verão, foram longe demais para algumas pessoas. A nova regra gerou debates no Japão e provocou conversas delicadas nos escritórios sobre etiqueta e sobre como lidar com a visão das pernas peludas dos colegas. A imprensa japonesa chegou a criar um novo termo — "sune-hara", ou "assédio das pernas peludas" — para descrever o desconforto que algumas mulheres relatam sentir ao serem obrigadas a observar as pernas dos colegas homens. Ruai Sajiki, de 23 anos, funcionária do governo metropolitano de Tóquio, reconhece que ver pernas descobertas em um ambiente profissional pode causar estranhamento para algumas mulheres. Ainda assim, deu sua aprovação quando Watanabe, seu supervisor, perguntou se ela se importava que ele usasse bermudas no trabalho. — Já vi as pernas do meu próprio pai, então, pessoalmente, não tenho problema com isso — diz. — Não há como evitar que existam opiniões diferentes e mulheres que sintam resistência. Alguns comentaristas argumentam que a política, embora oficialmente se aplique tanto a homens quanto a mulheres, é injusta. Enquanto os homens raramente são julgados pela roupa que usam no trabalho, as mulheres ainda enfrentam pressão para cobrir as pernas com meias-calças — ainda comuns no Japão — ou usar saias longas. Atsuko Tamada, professora de literatura francesa da Universidade Chubu, no Japão, e comentarista online, afirma que as mulheres continuam sendo pressionadas a gastar tempo e dinheiro com depilação, cuidados com os pés e vestuário. — Se os homens agora são incentivados a usar bermudas ou sandálias, os mesmos padrões de aparência deveriam se aplicar a eles? — questiona. Calor recorde impulsiona mudança A iniciativa "Cool Biz" foi lançada pelo Ministério do Meio Ambiente em 2005 e desde então se espalhou por praticamente todos os ambientes de trabalho do Japão, com diferentes níveis de adesão. O programa coincidiu com os compromissos assumidos pelo país no âmbito do Protocolo de Kyoto, acordo internacional de 1997 voltado à redução das emissões de gases de efeito estufa. Yuriko Koike, que comandava o ministério na época e foi eleita governadora de Tóquio em 2016, afirmou que a medida se tornou ainda mais importante diante da rápida elevação das temperaturas e das interrupções no fornecimento de energia provocadas pela guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. — Aos poucos, ficamos sem camadas de roupa para retirar — disse ela em uma coletiva de imprensa realizada em abril. — Chegamos ao ponto em que estamos usando bermudas. No Japão, os escritórios públicos mantêm os termostatos ajustados para 28°C entre maio e setembro, em conformidade com as diretrizes nacionais. O verão passado foi o mais quente já registrado no país, com temperaturas cerca de 2,2°C acima da média histórica. Neste ano, a Agência Meteorológica do Japão criou um novo termo para descrever dias com temperaturas superiores a 40°C: kokushobi, ou "dias cruelmente quentes". A popularização das bermudas também beneficiou o comércio. Algumas lojas passaram a vender modelos especificamente voltados para o ambiente corporativo, confeccionados com tecidos leves, cortes mais formais e cores neutras. A rede japonesa Yofuku no Aoyama, especializada em roupas sociais, lançou neste verão uma linha de produtos "Cool Biz", incluindo bermudas de nylon. Segundo a porta-voz da empresa, Yui Hamano, houve uma preocupação especial para garantir que as peças fossem adequadas ao ambiente profissional. — Prestamos muita atenção ao comprimento para garantir que não mostrassem pele demais — ressalta. As autoridades reconhecem, porém, que a tendência ainda levará tempo para se consolidar nos escritórios japoneses. Em uma visita recente a um setor do Edifício do Governo Metropolitano de Tóquio, em uma tarde abafada, apenas 11 dos 70 funcionários homens usavam bermudas. Toshio Suzuki, de 57 anos, está entre os que adotam uma postura mais cautelosa. Funcionário da área de relações públicas, Suzuki foi trabalhar recentemente usando uma calça esportiva elástica. Ele contou que raspou os pelos dos tornozelos que ficavam expostos para demonstrar preocupação com higiene e aparência. Suzuki afirmou que ainda não se atreve a usar bermudas porque não quer ofender suas colegas de trabalho. Segundo ele, suas escolhas de vestuário são orientadas pela esposa, que o aconselha a manter cuidados adequados com a pele e a se vestir de forma compatível com sua idade. — No Japão, as pessoas não têm uma visão positiva ou viril das pernas peludas — conta. — Eu nem sou tão peludo assim. Mas me preocupo com isso. Não quero parecer desleixado.