A influenciadora Karen Bachini afirmou, em entrevista ao O Globo, que utilizou inteligência artificial apenas para finalizar parte das ilustrações do Mail Club, seu clube de assinatura, após ser alvo de críticas de seguidores que suspeitavam do uso da ferramenta. Segundo ela, a decisão foi motivada pelo receio de que o resultado final não correspondesse às suas expectativas. Arrependida, afirma que hoje acredita ser mais importante compartilhar um processo totalmente autoral do que buscar um resultado considerado perfeito. A polêmica começou quando a influenciadora Karen Bachini anunciou no dia 16 de junho o lançamento do Mail Club, um clube de assinatura com vagas limitadas. Por R$ 149,90 em cada kit, os assinantes recebem em casa itens de papelaria, impressões 3D, material para journaling, entre outras coisas. A proposta do projeto foi recebida pelos fãs como uma experiência com identidade artesanal e autoral. No entanto, após os primeiros kits começarem a ser compartilhados nas redes sociais, alguns assinantes e seguidores passaram a apontar possíveis indícios do uso de inteligência artificial nas ilustrações. Ilustrações do Mail Club — Foto: Foto: Reprodução Esse foi o caso da ilustradora e designer Thaís Barbosa, que acompanha Karen há mais de 7 anos, e apesar de não ter feito a assinatura, se sentiu frustrada quando começou a identificar erros estranhos nos desenhos. Logo de início, percebeu cadarços que se sobrepõem, uma mecha de cabelo que se transforma em um morango e sombras sem origem de luz. Para a artista, todo o método gerou desconfiança: “Vi a explicação publicada por ela em um comentário no Instagram, na qual afirmava produzir as artes com aquarela, lápis de cor e nanquim. Depois, refaz todo o trabalho no Procreate. A descrição desse processo me pareceu muito estranha”. Thaís não é a favor do uso de IA para criar ilustrações, mas o que mais a incomodou foi a possível falta de transparência sobre o assunto, especialmente porque sempre buscou as opiniões de Karen antes de adquirir produtos. Quase um mês após o lançamento do clube, Karen publicou um vídeo no YouTube mostrando os bastidores do projeto. Na gravação, ela explica o processo de criação das ilustrações, apresenta parte do desenvolvimento artístico dos materiais e compartilha sua trajetória com a arte. Apesar das explicações, a repercussão não diminuiu: parte do público continuou afirmando acreditar que as ilustrações apresentavam indícios de terem sido produzidas inteiramente com inteligência artificial. O Mail Club surgiu, para Karen, da vontade de compartilhar uma experiência off-line com seus seguidores a partir de itens colecionáveis. Ela esclarece que não é um clube de ilustrações, e sim de artes autorais, em que algumas foram feitas por ela, e outras foram diagramadas com materiais comprados e devidamente licenciados de outros artistas, como padrões e ilustrações de adesivos. Valéria Costa, que é engenheira Naval, também acompanha o trabalho de Karen por anos, mas não se importou com a polêmica. Tem como hobby fazer colagens e está acostumada a consumir produtos feitos por IA, já que, segundo ela, nem sempre tem o que precisa disponível ou sabe criar do zero. As acusações feitas nas redes sociais não mudaram o que Valéria pensa sobre a qualidade do clube de assinatura. Defende que há espaço para todas as formas de produzir arte: “Existem artistas que não conseguem pintar, por não ter acesso a materiais ou estudar técnicas, mas conseguem pensar em criações por inteligência artificial que podem ser tão interessantes quanto o que foi criado à mão.” A discussão atual é se o uso de Inteligência artificial pode ser feito sem comprometer a credibilidade do artista. Afinal, essa ferramenta é treinada a partir de dados, informações e imagens que já existem, o que levanta questionamentos sobre o uso de obras de terceiros sem autorização. Diogo Robaina, Coordenador Acadêmico do bacharelado em Ciência de Dados e IA da ESPM Rio, diz que o fundamental é identificar quem permanece como agente do processo criativo: “Tenho defendido que a inteligência artificial pode ser utilizada em diferentes etapas de uma produção sem retirar automaticamente a autoria do artista. Se a pessoa concebe a proposta, define a linguagem, toma as decisões estéticas, seleciona alternativas, modifica resultados, corrige elementos e conduz a obra até sua versão final, ela continua sendo o agente do desenvolvimento.” E é justamente esse o argumento apresentado por Karen Bachini sobre os ataques de ódio que começaram a ser feitos nas redes sociais após a polêmica. Considera que as ilustrações continuam sendo autorais por terem sido desenvolvidas a partir de sua participação: “Muitas pessoas têm a ideia de que absolutamente nada das ilustrações foi feito por mim, o que não é verdade. Eu desenho como hobby, isso faz parte da minha vida. Eu fiz o esboço, a digitalização inicial e a pintura. Então, sim, considero que as ilustrações são autorais. Menos do que eu gostaria, porque, se pudesse voltar no tempo, não teria usado IA em nenhum momento do processo.” Profissionais de diferentes áreas, e não apenas da ilustração, têm demonstrado preocupação com o impacto que a inteligência artificial pode trazer para a profissão. Afinal, hoje é possível gerar imagens e textos em poucos segundos, a partir de um comando. Para parte deles, porém, o debate não se limita à velocidade ou à praticidade da tecnologia, mas ao que diferencia um processo criativo humano de um resultado produzido por IA e o valor atribuído ao desenvolvimento artístico ao longo dos anos. Alessandro Alvim, editor executivo visual do jornal O Globo, explica que um desenho é um acúmulo de aprendizados e habilidades: “Se você vai fazer um desenho artístico, não tem muito sentido usar IA. Porque o desenho é conhecimento, desenvolvimento, entendimento do que é linha, textura, plano, luz. A maneira como você desenha, isso é outra coisa, que é a poética. Por isso que quando você acompanha alguém dessa área, você reconhece o trabalho daquele artista só de olhar, porque ele tem uma poética que desenvolveu ao longo do tempo.” Esse processo de construção artística, segundo Alessandro, é o que torna o debate sobre inteligência artificial na arte tão sensível. O desenho especificamente, para ele, é algo complexo e com propósito: “Eu acho que o que incomoda os ilustradores quando reclamam é o fato de que eles fazem esse processo todo de desenvolvimento, de construir uma poética, um trabalho. Eu acho que o debate está mais aí, do que em qualquer outra coisa.” Já estão sendo abertos caminhos para criar limites nessa área no Brasil. No mês passado, a comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação da câmara dos deputados aprovou um projeto de lei que estabelece diretrizes em relação aos direitos dos consumidores quando se trata de produtos e serviços que usam inteligência artificial. No projeto, empresas são obrigadas a deixar claro quando materiais ou sistemas são gerados por IA. No caso do Mail Club, Karen revela que ele vai continuar existindo. Porém, pretende ter mais cuidado com o processo e envolver outros ilustradores no projeto também: “Já estamos planejando isso para a terceira caixa, e essa era a intenção desde o princípio, na verdade, utilizar o Mail Club como plataforma para outros artistas. No fundo, toda essa polêmica foi construtiva para o projeto, porque muitas pessoas que ilustram entraram em contato.”